A democracia entre o essencial e o acessório

O exercício da atividade política, em qualquer lugar de eleição, reveste-se de uma importância ímpar na defesa da causa pública e na construção do sistema democrático.

Ao longo da minha vida, com especial incidência nos últimos 10 anos, tenho estado presente em diversos fóruns de debate político, e no exercício de atividade de defesa do interesse comum. Sou um crente, convicto, na bondade da ação da maioria das pessoas com que me defrontei.

Estar na vida pública carece, na maior parte dos casos, de uma vontade intrínseca e genuína de ajudar a construir uma sociedade melhor.

De quando em vez, obrigo-me a um exercício de me questionar sobre a real importância dos debates travados, da linguagem utilizada e dos argumentos aduzidos. Se aquilo que estamos a debater, e a forma como o fazemos, está centrada no essencial ou no acessório.

Se, em primeiro lugar, devemos pensar se aquilo que estamos a fazer defende inteiramente os interesses de quem nos elege, devemos também estar preocupados se a linguagem utilizada e os combates que decidimos travar são aqueles que verdadeiramente interessam a quem nos ouve e em nós depositou a sua confiança eleitoral.

A Assembleia Municipal é um dos locais em que mais me obrigo a essa reflexão. Não só durante o debate, como nas análises normais que se seguem ao dia do mesmo, os temas abordados, e os destaques dos mesmos, são de interesse, dúbio e, não poucas vezes, dão um contributo para que o afastamento dos cidadãos da política se agudize.

Por muito que sejam discutidas situações de importância indubitável, se preparem as reuniões para esclarecer, contribuir e apreciar, normalmente a análise do funcionamento do órgão fica restringida aquilo que é destacável pelo “barulho” que gera.

Como conseguimos explicar ao cidadão que nos elegeu que numa Assembleia em que se discutiu e votou um Regulamento de Apoio a públicos carenciados, o resultado final dos debates que se lhe seguem sejam à volta da criação de uma comissão ou de um grupo de trabalho que o resultado final é sempre o mesmo, que é a revisão de um regimento interno?

Como podemos explicar em tantas outras situações, que em reuniões em que se votam orçamentos municipais, se aprovam obras estruturantes, o resultado final seja a discussão em torno de qualquer incidente parlamentar?

Cabe a cada um de nós esta reflexão. Quer sobre o tom, quer sobre a linguagem, quer sobre o conteúdo. E devemos escolher bem que batalhas queremos travar. Em nome dos eleitores que nos deram a função de os representar.

Honremos a democracia.

Paulo Lopes Silva, 30 anos, é Adjunto para a Cultura da Vice-Presidente da Câmara de Guimarães. Membro da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Foi membro da comissão de acompanhamento da Capital Europeia da Cultura na Assembleia Municipal. Licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.