Mudanças à espreita!

Em Guimarães o mês de Novembro cheira a castanhas assadas e às Festas Nicolinas.

Todos gostamos de tradições e as da nossa terra são as melhores, as mais antigas, as singulares. As tradições são para manter, mesmo que os tempos mudem e se alterem no sentido contrário a alguns aspectos defendidos pela tradição.

Como sabemos as meninas num passado bem lá longe não estudavam e o acesso a elas era dificultado pelos familiares. Então surgiam assim umas tradições em que fosse possível aproximar homens e mulheres para que a procriação se desse e para darmos continuidade à humanidade.

As meninas fora da Comissão das Festas Nicolinas, fazia sentido num tempo em que não estudavam, mas hoje são elas que enchem as salas de aulas e que levam os estudos até mais longe. As meninas não participavam no cortejo do Pinheiro mas parece que foram elas que mantiveram vivo a utilização do bombo nas festas.

Quando comecei a participar nas festas, as meninas alugavam bombos, e mantinham-se unidas até ao fim da festa, num compromisso que por vezes era quebrado.

A noite do Pinheiro era a única do ano em que se tinha permissão para “sair toda a noite”. Jantar com os amigos e correr para a rua vencendo as temperaturas baixas da época. A tocar bombo. Muitas vezes éramos olhadas com altivez, com caras feias, criticadas pela forma errada como tocávamos e a expressão “tinha que ser mulher” estava quase sempre no inicio da frase ou no seu fim.

Sim, éramos mulheres a ignorar a tradição, a sentir que fazíamos parte da festa e a tentar participar em todos os números. Mas no meu tempo, as varandas das Maçãzinhas não eram para todas, não nos podíamos inscrever por sms, como nos tempos modernos.

Nem as Danças de São Nicolau são para todos os vimaranenses, apesar da tradição ser nossa. Eu mesma, em 35 anos nunca assisti a tal número nicolino, não me sendo possível, portanto confirmar ou desmentir o que se  diz que neste número pouco ou nada se prestigia a mulher.

Por falar em ausência, este ano pela primeira vez faltei a todos os números nicolinos, inclusive ao Pinheiro. Deveres laborais chamaram-me para longe. É assim, a vida corre de forma veloz, até os emigrantes sabem que o calendário para além dos dias oficiais de férias conta também com o dia 29 de Novembro. E eu devia-me ter prevenido.

Durante muitos anos assisti às Maçãzinhas da mesa de trabalho, com uma montra virada para a Praça Santiago. E ali vivia mais uma vez a tradição. Este ano também falhei, infelizmente.

2017 fica marcado pelo abalo da tradição. Parece que uma das escolas secundárias de Guimarães colocou meninas em cima do seu carro. Não nas varandas, não no chão a assistir e a contribuir para o sucesso do número, mas sim a participar como protagonistas.

É positivo. Para que não morram, as tradições, respeitando a sua identidade,  devem-se actualizar ao ritmo dos tempos. As meninas vão-se cansar de serem usadas para a votação da comissão (masculina) na última sexta-feira de Setembro. Até porque já são a maioria nas escolas.

As meninas não podem servir apenas de enfeite devendo caber-lhes papel activo na organização das festas.

Leia-se nestas linhas apenas a opinião de uma mulher que leva as tradições de Guimarães para onde vai. Levo a tradição das nicolinas, apresento as festas, sempre que posso, a amigos que vivem noutros pontos do país e sofro quando não as posso viver.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.