Há vida para além da Taça?

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A mata, o estádio, os cânticos, as palmas, a chuva, os panados… Aquele sonho de ali voltar a ser completamente feliz e vencer aquela Taça que continuamos a achar que em Maio nos escapou por entre os dedos… Tudo desapareceu num toque de mão impercetível que aos poucos e poucos foi dissolvendo a abordagem corajosa com que os Conquistadores entraram em campo…

Ali, no meio dos meus, no meio daqueles que entendem o “Ninguém vai entender” como ninguém o sonho do Jamor desvaneceu por entre os quadradinhos de uma rede…

Queremo-la tanto… Queremo-la de uma forma inexplicável… De uma forma que eu podia explicar, mas que ninguém iria realmente entender. Por mais cliché que possa soar, é mesmo daquelas coisas que não se explica, sente-se. E na quinta-feira nós sentimos tanto…

Queremos a mata, queremos o estádio nacional, queremos cantar 90 minutos debaixo de chuva ou de sol, queremos os panados, mas acima de tudo, queremos a Taça: aquele pequeno e leve troféu que desde sempre alimentou os nossos sonhos. Aquele troféu que época após época nos faz sonhar, nos faz acreditar que o melhor está sempre para vir. Aquele troféu que há 5 anos se pintou de preto e branco e nos fez sentir a felicidade em absoluto (podemos ter mais disso, por favor?).

Não são precisos títulos para este clube mover multidões, mas nós já os merecíamos. Há muito que o Vitória se merece afirmar como uma potência do futebol nacional e há sempre algo que impede que isso aconteça…

Quando o árbitro apitou para o final da partida no Jamor na época passada eu estava tão crente que aqueles meninos (os nossos meninos) iriam ter a possibilidade de lá voltar e de escrever o seu nome na História do futebol nacional. Eles mereciam mais, nós merecíamos mais…

Mas os meninos já não são os mesmos meninos e a Taça, mais uma vez, não voltará a ser nossa…

E agora?

Agora fica o vazio e o desejo de que o foco exclusivo no campeonato seja o suficiente para ainda salvar a época que já parecia condenada desde o início.

Agora o 20 de maio de 2018 é apenas uma página da minha agenda com a palavra Jamor rabiscada. Uma espécie de eterna lembrança de que o sonho nem sempre comanda a vida e que mesmo que tentemos mudar o sentido da roda, por mais que acreditemos que conseguimos mudar o sistema, por mais que lutemos, os sonhos por vezes serão apenas páginas sarrabiscadas numa agenda.

Influenciado pelo desgaste provocado pelos últimos dois jogos, o onze inicial do Vitória pareceu uma espécie de rendição, uma declaração de paz, um baixar de armas, uma vontade de não lutar, mas a verdade é que até ao 2-0 o onze improvável de Pedro Martins foi corajoso e lutou incansavelmente (permitam-me manifestar a minha particular alegria em ver o Sturgeon a jogar bom futebol e a tornar-se um Conquistador à frente dos nossos olhos). Até ao 2-0 aquele onze lutou por nós. Até ao 2-0 tivemos uma equipa determinada, mas confusa e desconcentrada. Até ao 2-0 eles desejaram aquela Taça como ninguém e lutaram até que as forças lhe faltaram…

Depois do 2-0 as coisas alteraram-se radicalmente: nós não conseguimos lidar com o poder do Dragão e vimos o exército do Rei a subjugar-se; vimos o exército do Rei a passar de um exército de Sem-Medo para um exército de Sem-Garra, Sem-Força, Sem-Identidade. O 2-0 marcado por um daqueles que um dia foi nosso (um daqueles que há 4 anos nos deu o sonho) fez-nos cair, mas não tão de pé como desejávamos.

Enquanto isso, bem lá no topo havia um grupo de fieis seguidores do Rei que acreditaram até ao último segundo; que cantaram sem parar e que iluminaram o caminho para a vitória que persistia em ser-nos negada. Ali, bem no topo havia adeptos a acreditar e a mostrar ao mundo que nós não precisamos de Jamor, panados ou matas para apoiar incansavelmente. Ali, bem no topo, existia uma família que há muito merece que o Vitória esteja tão no topo como eles na quinta estavam. Ali, bem no topo, estavam os de sempre e para sempre que farão de tudo para que o Vitória ocupe o lugar que merece.

Perdoem-me se vos iludimos ao cantar que “não importa se ficas em primeiro”, mas nós queremos, merecemos e exigimos mais. Nós queremos mais Vitória, queremos mais futebol, queremos menos jogos de bastidores, queremos menos anemia.

Perdoem-me se persistimos em mostrar que a chuva para nós é sol, que sabemos que dói, mas que mesmo assim é lindo… Perdoem-me se este sentimento quase masoquista faz parte da nossa identidade, mas seria muito “mais lindo” se não tivéssemos de sair do estádio cabisbaixos, seria bem melhor se o sol pudesse brilhar com mais frequência.

Adeus Jamor, adeus mata, adeus panados, adeus Taça. Vemo-nos em 2019.

Há vida para além da Taça de Portugal?

Não sei, não queria ter de descobrir (pelo menos até dia 21 de maio de manhã quando aquela Taça estivesse na Cidade Berço e nós já tivéssemos festejado até ao raiar do sol), mas acho que vamos ter de descobrir e viver esta existência pós-Taça, como sempre, JUNTOS.

P.S.: Hoje há Derby da Cidade Berço em Moreira. A dor, a mágoa e a tristeza ficam em casa. O campeonato torna-se agora o nosso único foco e hoje ganhar é a única opção. Nós nunca abandonaremos este clube. Esta paixão vai mesmo torna-lo um dia campeão e nesse dia nós seremos os seres mais felizes à face da terra.

P.S2.: Sábado, dia 23 – véspera da véspera de Natal -, o Vitória recebe o Tondela e associou-se aos White Angels para juntos promoverem a ação Natal para todos. Por cada alimento doado recebem um convite para o jogo. Porque Juntos Somos Muito Mais Fortes, vamos juntos não só encher o estádio do Rei (e apoiar o Vitória na conquista dos tão necessários 3 pontos), mas também ajudar famílias a terem um Natal muito mais feliz este ano.

P.S3.: Se não nos virmos antes (adoro esta expressão), um Feliz Natal para todos!

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.

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