Quo Vadis, Português?

banner duas caras DNAR

“A língua é a raiz mestra de um povo”

Para não entupir o acesso ao hospital e porque a espera ia ser longa, estacionei no “Shoping”.

Numa mesa da área de restauração, tomo o primeiro café e vou observando os que, provavelmente, pelos mesmos motivos que o meu, vão deambulando pela “avenida” do primeiro piso.

Começam a abrir as primeiras lojas e, como sou pouco frequentador, levanto-me e faço o mesmo caminho, à procura de alguma novidade que, excluindo a alteração própria da época, não apareceu.

Logo no início cruzei-me com um grupo de adolescentes que, vim a saber mais tarde, ia a caminho do cinema.

-Aquela deve ser Russa, disse um deles, apontando para uma loja que ostentava “Swarovski”, por cima da entrada.

Espicaçada a curiosidade, dou por mim a reparar nos nomes das lojas.

“Parfois” de um lado, “Springfield” do outro, uma “Massimo Dutti” a seguir e uma “Pull & Bear”, “Dim Paris”, “Lion Of Porches”, “Sacoor Brothers”, enfim, praticamente todas (as excepções contavam-se com os dedos de uma mão) tinham nomes estrangeiros, com predominância do Inglês.

Uma delas tinha mesmo uma frase, que deveria ser lindíssima, mas na qual, nove em cada dez, não reparava e, depois de questionados, não sabiam o que queria dizer:

“All i want for Christmas is you, last Christmas, let it snow, jingle bells, santa claus is coming to town…”

Não fossem as pessoas com quem me cruzava, todas de aspecto bem Português, e julgar-me-ia numa “avenue” de London ou New York.

Nos dias que correm, loja que ostente nomes em Português, corre o risco de ser banalizada. “Chic” é ter referencias estrangeiras, quando se quer realçar uma qualquer aquisição.

A publicidade, através dos vários meios de comunicação, usa e abusa dos estrangeirismos, a fim de chegarem ao consumidor, com mais eficácia.

Que diriam, os grandes artistas da língua Portuguesa, se tivessem a oportunidade de passar num local destes?

Camões cegava do outro olho, ao Eça caía-lhe a luneta e Camilo, provavelmente, ficava sem a bigodaça.

Lamentável a subserviência cultural, a tudo o que deriva de fora.

Um país que não sabe preservar a sua cultura, especialmente a língua, será sempre um pobre país.

Joaquim Teixeira é militante do Bloco de Esquerda e é sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

banner duas caras DNAR