GENTE VIGENTE | Nelson Xize

Por César Elias

Nelson Xize. Se vos dissesse que é um antidepressivo em forma de gente provavelmente não acreditariam. Lamento. É nítida realidade.

Antes que se atirem a refletir sobre os desejos do novo ano e a desenterrar coisas menos boas do ano que vão sepultar, apresento-vos uma das mentes mais enérgicas e peculiarmente criativas de Guimarães. Com os membros em constante alvoroço, como se carregasse um estojo repleto de seringas a esbordar de felicidade e prontas a serem injetadas no pescoço de quem ousar ser infeliz, como se fosse um veterano da criação (sendo-o…) a impor questões artísticas aos que o rodeiam, a incentivar o trabalho, a clamar por mais arte, a perscrutar a criação do vizinho artista, a oferecer memórias valiosas, dispara ainda fantásticas gargalhadas suscetíveis de serem, ou não, acompanhadas com meia dúzia de salpicos de tinta. Xize é mesmo assim. Um colosso, um furacão da criação surrealista

Nascido no brilho dos anos oitenta, bem no tempo em que no lugar do “GuimarãeShopping” jazia uma central de camionetas e ferro-velho a céu aberto, o nosso convidado de hoje, licenciado em Artes e Desenho, pela ESAP – G (Escola Superior Artística do Porto-Guimarães) traz na bagagem, já desde 2003, lavoura que chegue em exposições coletivas e individuais, formações/workshops, peças de teatro e outros eventos pontuais.

E como um artista não se nutre de ar e vento, nem de sandes de paletas, Nelson é um incrível exemplo de que é possível ser um artista, ser um profissional, e ainda assim conseguir a proeza de sobreviver! Parece fácil, mas não é. E o próprio explica: Não procurem a ‘pseudo-fama fictícia, porque quem a quer atingir, abstrai-se do seu real propósito de vida e depois cai no erro de ‘só fazer, para fazer ver,’ sem qualquer essência no seu caroço. Não pensem assim, pois chegarão ao dia em que não terão nada de interessante para dizer e ao olhar à vossa volta, estarão sozinhos. Será que vale o esforço?”

Artista freelancer, ilustrador/designer gráfico, professor de artes visuais, ator de teatro, membro/fundador dos recentes projetos de animação teatral/musical – “Trupe Sei” e Teatro Infantil de Fantoches – “FunnyToches”, Nelson Xize mergulhou inicialmente na aventura de se tornar num profissional na área das artes gráficas, mais concretamente em ilustração digital. Ora, claro está, como mente brilhante que se preze, seria inevitável que não se adaptasse a qualquer tipo de formato dentro do mundo artístico, exibindo um registo polivalente; pintura, desenho, ilustração, design gráfico, teatro, cenografia, música, educação/formação.

Ainda assim, deste vulto irrequieto nascem obras! E isso sim, impressiona. Imponentes pinturas e desenhos que explodem cores, que jorram tons meticulosos e açambarcados por um potente grafismo, e ainda com linhas que nos comovem até à ilustração que, vá-se lá saber como, tão bem ali foram parar. O universo das criações deste nosso artista, nosso por direito, arremessa-nos boquiabertos para a seriedade das histórias verdadeiras em uníssono com os mundos e dimensões do imaginário e do sonho. Arrepiante.

Ele é o artista que absorve tudo de todas as formas, um canal de criatividade e arte, um estandarte da cultura vimaranense, uma prova de que o que é nacional é muto bom e incomparável. Ele é o nosso convidado da rubrica “Gente Vigente” deste mês, Nelson Xize.

GENTE VIGENTE: Defines-te como artista. Vives para criar. Existe um Nelson que poucos conhecem e que sobrevive por detrás do pano da arte?

NELSON XIZE: Posso dizer que existe um Nelson Xize que vive e respira arte todos os dias. Tenho o privilégio de ter a oportunidade de cada dia ser diferente e rico, pelas experiências que passo, pelo estilo de vida que vivo e que me propus nestes últimos anos. Vivo a vida nesse sentido, simplesmente de fazer o que mais amo, acreditando sempre no potencial do meu trabalho como contributo positivo para todos. Tenho a oportunidade de ensinar e aprender com o mundo artístico, o que permite ter vontade de dizer ou criar, refletindo-se nas minhas pinturas, desenhos, música, teatro etc. Exprimo-me e opto por diferentes formatos, pois para mim, são o melhor veículo para mostrar como penso, vejo e absorvo do mundo.

Felizmente, já passei por muitas e diversificadas experiências profissionais, umas boas, outras más, e aprendi que todas me ajudam a melhorar e evoluir constantemente, passo a passo.

Sou um artista freelancer assumido e tenho plena noção da opção que tomei para a minha vida. É possível viver das artes sendo tu mesmo, genuíno, dedicado, humilde e com muito sentido de responsabilidade, para mim ingredientes necessários para o reconhecimento/retorno do meu trabalho.

GENTE VIGENTE: O teu trabalho é extremamente peculiar e com uma identidade muito vincada. Como imaginas o futuro do que fazes?

 NELSON XIZE: No futuro, tenho ideia que terei um trabalho e uma linha mais maturada e definida, porque agora no presente, e o mais importante, sei essencialmente o que não quero para mim. Considero importante experimentar/vivenciar vários terrenos artísticos, pois neles descubro outra visão sobre as coisas, novas soluções que se adaptam ao tipo de mensagem que quero transmitir. Não necessito pintar todos os dias ou desenhar, pois tenho a possibilidade de hoje pintar, amanhã participar num projeto teatral, etc. os meus dias de facto são assim, diversificados e eu gosto disso. Imagino assim um futuro risonho, porque ao adorar o que faço e ao acreditar muito nisso, basicamente será colher das boas sementes que tenho semeado. Sinto-me extremamente contente da boa fase que estou a passar, a todos os níveis, desde o emocional, profissional e sobretudo na saúde, o que nos permite andar para a frente, sem quaisquer limitações. Esta fase atual, é sobretudo uma fase que está a ser marcada pelo experimentalismo, pelos diferentes resultados que obtenho, alguns muito interessantes até, que merecem a minha atenção e dedicação num futuro. Dou aulas particulares e em instituições, workshops, faço teatro profissional e por vezes colaboro com associações de cariz amador, com participações teatrais/musicais, nas quais tenho todo o gosto em dar o meu contributo. Revelo assim, boas capacidades de cooperar com diferentes pessoas, e isso é caso de louvar, pois sou um artista que não me fecho em quatro paredes, aliás, procuro sempre encontrar pessoas que possam contribuir para minha felicidade e para melhorar todo o meu processo de trabalho e, acima de tudo, respeitando a sua sabedoria, quando sinto que é reciproco. Só quem me conhece muito bem é que realmente entende a forma intensa e verdadeira de eu viver as coisas, não me acomodo, de todo, e procuro sempre mais e mais. Eu chamo-lhe evolução, sempre com saudável ambição.

Resumo dizendo que do futuro nada sabemos, por isso prefiro viver intensamente o presente, nunca perdendo o meu foco, com esforços diários mas necessários para um futuro mais definido, realizado e feliz. O que hoje é amarelo, amanhã é verde. Devemos assim, prepararmo-nos e adaptarmo-nos para as mutações rápidas que a vida nos impõe, caso contrário fracassamos e eu não quero de maneira nenhuma isso.

GENTE VIGENTE: Crês que o teu trabalho pode dizer algo para o mundo de hoje? Poderá ser um exemplo? Uma inspiração?

 NELSON XIZE: É claro que sim, senão não faria sentido a grande missão que tenho a cumprir. Eu sinto que tenho uma missão de facto. Aliás o que me move a criar e a ter que dizer, é sobretudo fruto e espelho deste mundo e a meu ver, acreditem que não caminhamos para a dita ‘evolução’. Vivemos num mundo cada vez mais de aparências, falso, de capas vestidas, neste sentido quando crio, penso muito nisso, não na verdade, mas na mentira das coisas que vivemos. Tenho várias vertentes criativas no meu trabalho, desde a resposta à necessidade dos meus clientes, com um desenho realista, um cartoon, ilustração, etc., até ao trabalho criativo mais livre, onde aí, satirizo, critico e reflito sobre tudo o que se passa em meu redor, sempre em tons muito camuflados e coloridos, pois a verdade doí e um trabalho que fala sobre a verdade das coisas, pelo menos acredito nisso, doí ontem hoje e amanhã e só provocando é que acordamos do sono quotidiano. Adoro provocar e isso faz-me sentir que não sou mais uma ‘ovelhinha’ adormecida num grande rebanho, por isso, penso que acima do meu trabalho, o meu modo de ver as coisas e a forma como vivo a vida, é uma inspiração para muitos. Os meus trabalhos são somente uma projeção da pessoa que sou e espero que hoje e no futuro, continuem a ser inspiradores.

 GENTE VIGENTE:  O que é ser um artista da nossa cidade?

 NELSON XIZE: Ora bem, não serei brando nesta questão, apesar de já ter tido mais razões de descontentamento.

Ser um artista nesta cidade, é para mim como um salmão sem barbatanas laterais a tentar subir um grande rio de fortes e densas correntes adversas, por isso, imaginem só o esforço. É algo que não mudará tão cedo muito sinceramente. Tenho muitos clientes de Guimarães, mas a maioria são mesmo de outras cidades/países, o que é muito bom. Tenho também a oportunidade de trabalhar  fora da cidade, um fator importante para mim, pois traduz a valorização do meu trabalho além muralhas. Tenho como experiência que, normalmente, só se dá valor aos de fora e não se reconhece o bom que temos em Guimarães. Há também um conjunto de artistas do moralismo, que só o que é feito nas grandes superfícies artísticas é que é bom e merece respeito ou voz. Sou um artista muito feliz nesta cidade e tenho ganho o meu espaço de forma legítima, onde me sinto perfeitamente autónomo e capaz de escolher o melhor caminho a seguir, para bem da minha dignidade e consciência.

Infelizmente existem muitas pessoas a apontar o dedo e a serem chefes entendidos do intelecto iluminado, frustrados na sua moral, em vez de bons e verdadeiros líderes, que te ajudam a subir degrau a degrau.

Em Guimarães, penso que são muitos os que ficam felizes com o meu sucesso. Aos que ficam à espera de um tropeçar, de um tombo meu, dou um belo nome a isso, que é a famosa ‘Lenda das duas caras’, que espreita em todo o lado. Acho esta atitude geral, muito típica portuguesa, não se valoriza o que é nosso e olha-se com certo desdém para quem se dá bem e tem ‘sucesso’, para quem dá provas mais que concretas que consegue viver do que mais gosta de fazer, que é esse o meu caso.

Em suma, sou um artista sobretudo muito feliz e darei sempre o meu contributo para a evolução desta linda cidade, que é nossa e merece, e uma coisa garanto: serei sempre fiel a mim e aos meus ideais enquanto pessoa/artista.

 GENTE VIGENTE: Uma mensagem que deixarias a todos os artistas e vimaranenses?

NELSON XIZE: A todos os artistas das mais variadas fações, digo que continuem sempre a fazer o que mais gostam, na procura de se sentirem realizados e úteis nesta sociedade. Acrescentem à sociedade com as vossas criações e não se queiram esbarrar em protagonismos. Não procurem a ‘pseudo-fama’ fictícia, porque quem a quer atingir, abstrai-se do seu real propósito de vida e depois cai no erro de ‘só fazer, para fazer ver,’ sem qualquer essência no seu caroço. Não pensem assim, pois chegarão ao dia em que não terão nada de interessante para dizer e ao olhar à vossa volta, estarão sozinhos. Será que vale o esforço? Ficam assim, apenas por ‘showoffs’ artísticos, abertos a uma competitividade sem escrúpulos, onde não há melhores nem piores e os ‘Velhos do Restelo’, contributivos para esta triste realidade deveriam sim, dar o bom exemplo.

A todos os Vimaranenses, tenho de referir, elevar e louvar o nosso bairrismo, porque está-nos no sangue e na nossa história, o verdadeiro espírito nortenho e conquistador. Temos todos muito a evoluir, e essa evolução pretendida, só fará sentido, se todos juntos lutarmos positivamente pela nossa cidade.

Fico eternamente grato aos bons vimaranenses, clientes e amigos, principalmente pelo seu apoio, ao se sentirem orgulhosos e preenchidos, pelo que faço e pelo que sou. Esse é o meu objetivo primordial, é isso que me motiva a ser melhor todos os dias.

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