NARRATIVIZANDO

 

Gosto de histórias. De contar e de que me contem histórias. Gosto de histórias de ficção e de histórias reais e do que eu gosto mesmo são das histórias que descobrimos quando observamos aquilo que pode ser chamado de “condição humana”.

Sempre fui muito curiosa por este termo e lembro-me que a primeira vez que prestei atenção seriamente a esta expressão, foi a propósito de uma peça de teatro cujo tema era a “condição humana”.

Ora, até hoje, para aí 20 anos volvidos, continuo a ser uma curiosa da condição humana. Ainda não sei bem o que isto significa, mas entendi uma coisa. A narrativa faz parte dessa mesmo condição humana. Todos os dias contamos histórias sobre nós e sobre os outros e ouvimos histórias, seja sobre o nosso interlocutor ou interlocutores, terceiros ou às vezes nós próprios. Todos nós também construímos e contamos uma história a nós próprios sobre aquilo que nos rodeia de forma a dar alguém sentido ao caos exterior e a justificar o injustificável.

Eu, assumidamente curiosa e fantasiosa, confesso que passo muito tempo em introspecção a construir/desconstruir estas narrativas, fazendo o exercício constante de desconstruir as minhas próprias narrativas, na tentativa se separar o trigo do joio e tentar ser o mais honesta possível comigo mesma.

Por todo este tempo que perco dentro da minha cabeça, presto especial atenção às narrativas dos outros, à forma como as pessoas contam as suas próprias histórias e, não raras vezes surpreendo-me com aquilo que ouço e pergunto-me se as pessoas ouvem aquilo que de facto estão a dizer a si próprias e sobre si próprias. Não menos curioso é que as narrativas que as pessoas fazem sobre os outros contam-nos muito mais sobre elas próprias, do que aquilo que as mesmas gostariam.

Vivemos, de facto, tempos de grande alienação, em que a narrativa é tudo. Desde a roupa que vestimos, os nossos hábitos diários e as cronologias das nossas redes sociais, tudo ajuda a contar uma história sobre nós. Importa tão mais saber contar muito esta história, do que aquilo que, de facto, somos.

O ser humano não existe um sem o outro, é um ser social e existe nas relações que se estabelecem em sociedade. A empatia é sentimento essencial para a vida em sociedade, a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. Podemos contar as histórias que quisermos sobre nós, mas sem de facto mostrarmos quem somos e mostrarmos as nossas vulnerabilidades, não nos ligamos verdadeiramente a ninguém. Numa era em que mostrar é mais importante do que ser, isto pode ajudar a explicar porque é que apesar de termos cada vez mais canais de ligação ao outro, nos sentimos cada vez mais sozinhos.

Talvez a condição humana resida numa coisa tão básica como este eterno conflito entre aquilo que somos e a narrativa que construímos sobre nós.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães. É, também, fundadora e presidente da Capivara Azul – Associação Cultural.