O mediatismo e os casos da semana

Em regra, hoje, os órgãos de comunicação social enfatizam assuntos menores que não justificam os títulos que, com certo realce, lhes dedicam. Aliado a isto põem em prática uma outra estratégia. Alimentam até à exaustão o tema menor que escolheram, até que surja outro caso que transformam em notícia e que servem para segurar as audiências, matéria sempre na linha da frente das suas preocupações. Nem toda a comunicação social segue tal metodologia, mas, agora, acossada pela concorrência e pelas redes sociais, uns quantos trabalham neste registo, na tentativa de manter a procura sempre em alta. Quando se entra numa biblioteca pública, no espaço dedicado à imprensa, apercebemo-nos desta realidade. O jornal mais ”persuasivo”, o mais chamativo, na linguagem, no design e na cor, é o mais requisitado e disputado. Em suma, o que melhor e mais vende.

Os programas televisivos, ainda que com outros recursos de persuasão, trilham o mesmo caminho, precisamente com os mesmos objetivos, na larga maioria da programação que nos “oferecem”. Já lá vai o tempo em que se podia ver programas educativos e culturais na televisão. Estes foram, há muito, substituídos por reality shows, por programas de devassa da vida humana, ou por violentos, longos e fúteis debates sobre futebol.

Esta semana, dois temas muito badalados que não se enquadram no modelo acima referenciado conseguiram dominar o espaço mediático. Em primeiro lugar, a confusão que se vive nas urgências hospitalares face ao pico de gripe que nos está a atingir. Fez-se e faz-se ainda alguma demagogia, sobretudo político partidária, mas, apesar de tudo, é tema de notícia dadas as proporções que a situação está a tomar. Mais do que isso significa um alerta e exigência aos responsáveis para que se reponha, na medida do possível, a qualidade do serviço de saúde. Ao contrário de outras notícias, esta é também um serviço público que a comunicação social presta.

A degradação a que chegou o serviço público que os CTT, hoje privado, oferecem é um outro assunto que a comunicação social tem noticiado com o profissionalismo e a acuidade que o tema merece. Perante o que agora se passa é difícil aceitar, e ainda menos compreender, a inoperância de um serviço que durante tantas décadas mereceu o respeito dos portugueses pela competência e qualidade que evidenciavam. O que passa hoje é uma realidade bem diferente e quase ultrajante para quem necessita de a ele recorrer. Então, o que se passa? Quem e como se explica tão vergonhosa mudança? Onde mora o lucro de tantos milhões? O que levou a tal descalabro após a privatização? Como justificar a perda da qualidade de que antes era a sua imagem de marca?

Sabemo-lo todos, com maior ou menor minúcia. O objetivo último do Fundo que detém os CTT nada tem a ver com a qualidade de um serviço público prestado à comunidade. Dá lucro? Não se melhoram os serviços. Distribuem-se os dividendos. Se tal lucro não satisfaz ainda a ganância dos accionistas encerram-se uns quantos balcões e despedem-se os trabalhadores que for necessário para desnatar ainda mais a empresa. Tratam os cidadãos e os trabalhadores como uma coutada privada sua, sem direitos e sem prestação de contas. E, com arrogância e sobranceria, não cuidam de cumprir as parcas obrigações a que se obrigaram.

A deterioração que os CTT atingiram não tem a ver apenas com o encerramento de balcões, medida que está a originar manifestações de forte discordância e contestação das populações, mas também com a que se assiste nos balcões ainda em funcionamento. Quando é preciso esperar cerca de duas horas e meia para enviar uma carta registada a uma entidade pública que a tal nos obriga, não parece ser necessário mais argumentos para condenar com veemência todos quantos nos conduziram a tão vergonhoso serviço.  Tal não se compagina com a Europa do século XXI.

Desconheço as limitações que o governo tem para reverter a privatização. Todavia, se a má qualidade do serviço prestado continuar, como facilmente se prevê, não se vislumbra outra alternativa se quisermos ter uns correios que correspondam às legítimas pretensões da larga maioria dos Portugueses.

A maior lição a tirar deste péssimo exemplo é simples: as empresas de áreas estratégias, coluna vertebral num país, não podem depender de privados, sob pena de se atentar contra o coração da nossa soberania.

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).