Muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa

Nós já falhámos quando nos tratámos como inimigos

Acho que todos concordarão que o ambiente das redes sociais se tornou tóxico no que se refere ao Vitória (e que as probabilidades de até Março isto piorar e ir muito além das redes sociais são bastante elevadas)…

Muitos desistiram, evitando falar do Vitória de todo – ou pelo menos no aspeto “político” dele. Aqueles que são corajosos o suficiente para articular as suas opiniões são automaticamente bombardeados com comentários extremistas e medições de vitorianismo por aqueles que têm opiniões discordantes.

À luz da natureza divisória e fraturada das redes sociais na atualidade, como podemos continuar a discutir o estado atual e o futuro do Vitória? Como podemos avançar para uma conversa baseada em questões e opiniões que irão realmente fortalecer o Vitória?

Não sei muito bem como chegamos aqui, mas hoje sinto que não temos um Vitória unido. Temos uma espécie de dois Vitórias: o daqueles que apoiam a atual direção e o daqueles que a criticam, sem qualquer espaço para posições intermédias.

Sinto que é como se estivéssemos obrigados a escolher uma cor, como se tivéssemos de escolher entre o preto e o branco e depois lutar, pensando que estamos muito longe de nos podermos entender. O que é triste porque o vitoriano crítico e o vitoriano positivo podem realmente coexistir. O que é triste porque “muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa”, já o cantava o Rui Veloso.

O período eleitoral pode e deve ser utilizado para se discutir o futuro do clube e encontrar soluções para resolver os problemas atuais, mas para isso temos de ter sempre em mente que o mais importante aqui é o Vitória.

Antes de tudo, precisamos parar de generalizar as opiniões das pessoas – e evitar cair na armadilha mental das falsas dicotomias.

J.R.R. Tolkien fornece-nos um modelo de pensamento que poderá ajudar nesta não generalização de opiniões quando Gandalf diz ao Frodo: “Nem todos aqueles que vagueiam estão perdidos”. Para o qual posso acrescentar: nem todos os que continuam a acreditar que no jogo seguinte as coisas vão correr melhor apoiam a atual direção. Nem todos aqueles que criticam esta má época estão contra a atual direção. Nem todos os que aplaudem a estabilidade financeira apoiam a atual direção. Se estivermos dispostos a aceitar a complexidade das pessoas e das suas visões do Vitória, isto já será um grande avanço.

Em segundo lugar, precisamos de parar com os chamados ataques ad hominem (argumento contra a pessoa). No mínimo, precisamos de ouvir as opiniões uns dos outros e tentar entender de onde elas vêm – não interessa o quão irracional estas sejam para nós. Agora, mais do que nunca, precisamos de manter o espírito da Evelyn Hall, que uma vez escreveu: “Eu desaprovo o que tu dizes, mas eu defenderei até à morte o teu direito de dizer isso”.

Em terceiro lugar, devemos (todos) mostrar algum respeito pelos factos – quer eles nos favoreçam ou não.

Claro que é muito mais fácil dizer do que fazer isto porque a nossa epistemologia – a nossa maneira de conhecer a verdade – depende da confiança (ou seja, quem ou em que acreditamos? Medias locais? Redes socias? Blogs anónimos?).

Em quarto lugar, precisamos de nos esforçar para encontrar terreno comum, não apenas para fazermos declarações de amor (todos podemos dizer com orgulho “Eu amo o Vitória!”), mas para promovermos posições compartilhadas sobre as questões que realmente importam neste momento.

Este é, de todos, o ponto mais complexo, porque, como as conversas que vamos mantendo nas redes sociais revelam, até os nossos princípios fundamentais divergem, mas às vezes, os nossos desentendimentos são em grande parte semânticos.

Infelizmente, neste momento até palavras como “união” estão a receber uma má reputação, mas eu continuo a acreditar que o respeto sa kapwa (respeito pelos outros) ainda pode resistir com a maioria.

Finalmente, devemos ter a humildade de reconhecer que podemos estar errados. Como podemos debater quando não estamos preparados para aceitar a derrota? O orgulho de nos termos colocado ao lado de alguém não nos deve fazer concordar com eles quando estes estão claramente errados, e também não devemos ter vergonha de concordar com as pessoas que atacamos no passado, quando elas têm realmente razão.

Não dá para esconder, não dá para ignorar: o Vitória está dividido. Espero que quem quer que ganhe estas eleições consiga liderar o Vitória no caminho da união. Será precisa muita coragem: infelizmente, ao tentar construir pontes corre o risco de ser odiado por ambos os lados e haverá sempre trolls que tentarão minar os seus esforços.

Março vai demorar demasiado tempo a chegar e só depende de nós a forma como usámos este tempo. Podemos desperdiça-lo e perdermo-nos em guerrinhas absurdas ou podemos aproveitá-lo para juntos discutir ideias e traçar o caminho a seguir para elevar o Vitória ao lugar que ele pertence.

Não importa de onde viemos, não importa aquilo que discordamos. Lutemos juntos por aquilo que concordamos: pelo preto e pelo branco, uma só bandeira que sela a nossa irmandade. Unámos as nossas vozes para elevar este clube sempre mais alto porque “muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa”. Juntos somos muito mais fortes! VITÓRIA SEMPRE!

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.