Ainda a pretexto da vitória de Rui Rio

Em recente artigo de opinião afirmei não ter dúvidas sobre o estado comatoso da conduta dos partidos políticos, em Portugal, que afastam os cidadãos do interesse que a política deveria merecer de todos. Enfatizei ainda as frases que me pareceram mais marcantes da campanha de Rui Rio, que na sua essência encerram um propósito louvável. Ao ler as diferentes e várias notícias sobre os métodos utilizados pela máquina partidária que apoiou a sua candidatura, o (bom) propósito que li naquelas frases caiu por terra.  Quem tais métodos usa fica refém de todos quantos cederam a lógicas promíscuas tendentes a alcançar o poder. Não significa isto que o seu adversário, Pedro Santana Lopes, não possa ter utilizado os mesmos métodos. O elevado número de militantes (cerca de 20 mil) que, à última hora, regularizou condições para poder votar, pode significar que as duas candidaturas se “mobilizaram” para o processo eleitoral.

Rui Rio mereceu maior destaque e investigação por parte dos media pelo simples facto de ter sido o vencedor. Aqui, aplica-se o ditado popular “Dos mortos ninguém cuida”. A importância que se atribui à vitória de Rui Rio levou ao esmiuçar dos procedimentos utilizados na sua campanha eleitoral. O enfoque dado pelas notícias não foi na sua mensagem, nomeadamente naquela que diz “o PSD não foi fundado para ser uma agremiação de interesses individuais ou de grupo”, mas antes nos métodos dúbios utilizados para chegar à liderança do seu partido. As notícias vindas a lume, com o que de negativo demonstram de todo o processo, aniquilam as intenções das promessas feitas.

Noutro artigo pus em causa métodos similares utilizados pelo PS nas últimas eleições autárquicas. Os autores dos processos ínvios que marcaram essas eleições e a estrondosa derrota do Partido Socialista, no distrito de Braga, não desistiram nem dos processos nem do protagonismo que querem para si. Não assumiram a derrota, muito menos a falta de ética que revelaram e, mais escandaloso ainda, preparam-se, com o recurso ao caciquismo e aos sindicatos de voto, para ser de novo os protagonistas na liderança do partido a nível distrital.

Em entrevista que na semana passada o Dr. Jorge Sampaio deu ao semanário Expresso, com a autoridade que se lhe reconhece, diz que “a democracia representativa enfrenta sérias crises: de credibilidade, em relação à opinião pública, em relação aos cidadãos, ao afastamento dos cidadãos da política”, e conclui “não podemos ignorar isto”.  De facto, já não são os melhores, os mais capazes, que acedem aos mais altos lugares de decisão. É que esses não estão disponíveis para a “carnificina” interna, a bajulação impositiva para integrar um grupo que tem de obedecer, acriticamente, a um chefe a quem não se lhe reconhece estatuto nem qualidades éticas e intelectuais para tal. Aqueles que ousam pensar pela sua própria cabeça e a expressar as suas ideias sujeitam-se à ostracização partidária e a uma espécie de bullying exercida pelos líderes de ocasião e por aqueles que os servem. E serão lançados à alcateia que deixou de ser família. Resistem e combatem aqueles a quem lhes sobra uma grande convicção e uma inabalável força interior.

Para aqueles resistentes, a frase do Dr. Jorge Sampaio que se pode ler na mesma entrevista serve-nos de mote para continuar a resistir “Não gosto que me ponham num canto. Saio de lá ao pontapé se for preciso.”.

Os partidos estão doentes. E com eles está doente a democracia.

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).