As crianças são delas próprias

Dar um significado à Existência é um desafio permanente imposto ao Ser Humano. Ter um propósito afigura-se como a âncora fundamental para manter um indivíduo atracado à vida com deleite. Assim se evita o confronto consciente constante e potencialmente devastador, que de outra forma ocorreria, com a inevitável mortalidade. O(s) objectivo(s) da vida é(são) algo de muito idiossincrático, podendo, portanto, ser(em) construído(s), revelado(s) ou encontrado(s) de inúmeras formas. A relevância de um estilo ou ideologia de vida é relativa e dependente de quem a adopta. São inúmeras as possibilidades.

Por exemplo, a religião, que para uns, como Philip Larkin, não é mais do que uma estratégia para fazer de conta que a morte não existe, é reconhecidamente importante na forma como preenche existencialmente a vida de muitos outros. Outro exemplo comum de um propósito para a Existência é a parentalidade. Para além da “pressão” biológica dirigida à perpetuação da espécie, os Seres Humanos, dotados de uma complexidade emocional e intelectual ímpar, assumem o desejo da parentalidade como uma forma de dotar de significado a sua Existência. Porém, a decisão de procriar para atingir esse fim não deve, idealmente, ser tomada de ânimo leve. Ser pai ou mãe é muito diferente de ser simplesmente um progenitor, pelo que a “filiação genética” não deveria em nenhuma circunstância conferir por si só o direito inalienável de um procriador negligente e/ou ausente poder reclamar o privilégio da parentalidade. Por outro lado, ser pai ou mãe não determina um direito absoluto de propriedade sobre uma criança, cuja dignidade deve ser sempre acautelada por uma sociedade vigilante e por instrumentos de justiça adequados. Dizer-se “o meu filho” ou “a minha esposa”, pese embora o uso de um pronome possessivo, não consente uma determinação legal de plena posse sobre outrem. Ao “meu relógio” posso fazer o que bem quiser, até quebrá-lo se com isso não magoar fisicamente alguém ou destruir propriedade alheia. Com um filho não, não posso fazer ou deixar que lhe façam tudo aquilo que eu ache que não tem mal nenhum. De outra forma, um filho é como um relógio…

As crianças são delas próprias, mesmo quando ainda não têm capacidade para o serem…

Luís Fonseca, nascido em 1978, é Licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e especialista em Psiquiatria. Exerce a sua actividade profissional em funções públicas no Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital da Senhora da Oliveira em Guimarães. Imbuído de uma veia artística ecléctica desde tenra idade, tem-se dedicado à escrita e à música, tendo já editado vários trabalhos nestas áreas (PáginaWebLuísFonseca).