Populismo vs Democracia

As mais recentes notícias sobre Mário Centeno, e as suas possíveis ligações com uma instituição desportiva por via de um pedido de convites para um jogo de futebol, são o último exemplo de um novo tempo da sociedade e em especial da política.

Para além da ausência de grandes referências, no que ao debate político elevado diz respeito, e de capas de jornais em tornos de grandes temas e de trabalhos de fundo sobre os mesmos, cá vamos caminhando entre casos menores e factos criados para manter a chama acesa.

O tempo das redes sociais é dado a títulos chamativos, a notícias fabricadas e reduzidas a meia-dúzia de caracteres apelativos, e à cedência geral a um novo pensamento vazio ideologicamente e cheio de ideias pré-concebidas e aceites com facilidade pela maioria. O populismo é o novo “ismo” que veio para, definitivamente, fazer desaparecer os que lhe sucederam.

Se há menos de uma dúzia de anos discutíamos a capitulação do socialismo perante o capitalismo, e à terceira via batizada de social-democracia, sem o ser, hoje o cenário parece-me de longe mais preocupante. É que enquanto o debate e a medição de forças se faz entre dois pensamentos filosoficamente sustentados, economicamente estudados e cientificamente explorados, hoje o combate é de uma mescla de ideias da vários quadrantes do pensamento político, numa ideia única assente essencialmente em preconceitos antissistema.

A vitória definitiva deste tipo de pensamento único generalizado, vazio e assente em chavões está a dar-se essencialmente através destas várias questões menores, normalmente alinhadas para atacar de forma ad hominem os titulares de cargos públicos e faces visíveis de um sistema democrático que se pretende destruir.

Infelizmente este comportamento está a disseminar-se como uma doença, e qualquer vídeo “mal amanhado” em torno de uma questão menor, ganha escala de caso e sobrepõe-se às discussões essenciais. Desde os EUA, onde continuamos todos preocupados com Donald Trump, até à escala mais local possível.

Alguém acredita que um Ministro se corrompe por um bilhete? Alguém acredita que uma geração se conquista por um verso? Claro que não. Mas à falta de debate em torno de questões fundamentais, cá vamos tentando destronar o outro através do seu lado pessoal, mesmo que ao fazê-lo estejamos a por em causa todo o sistema e a alinhar com os populistas adversários dos estados democráticos.

Não acredito na impunidade perante a falha. Mas mais do que isso, não acredito na vitória do acessório perante o essencial, e do populismo perante o enriquecedor debate democrático.

É que afinal de contas o nosso sistema político continua a ser o pior de todos… à exceção de todos os outros. E o maior combate que ele enfrente neste momento é o do populismo e o dos pseudo factos ou “fake news”, como imortalizado por um dos seus principais protagonistas.

Paulo Lopes Silva, 30 anos, é Adjunto para a Cultura da Vice-Presidente da Câmara de Guimarães. Membro da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Foi membro da comissão de acompanhamento da Capital Europeia da Cultura na Assembleia Municipal. Licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.