Acabou o tempo de quê?

Os seres humanos são bichos de hábitos. Quando fazemos uma coisa de determinada forma e nos vêm dizer que essa forma está errada, a reacção mais comum é – ainda antes de pensarmos – assumirmos uma posição à defesa e atacarmos os outros.

Tenho acompanhado estes novos movimentos do #metoo e do #timesup. Recuso em absoluto o discurso de homens vs mulheres como o mal contra o bem, assim como o discurso que trata todos os homens como naturais predadores sexuais. É verdade que os dados são assustadores. Não é aceitável a quantidade de histórias que já ouvi e partilhei, não é aceitável que se considere normal que as mulheres possam ser assediadas de diversas formas, mais ou menos agressivas. Não é normal que se considere o assédio, que é um exercício de poder, com o flirt. Não é aceitável que se infantilize os homens e que se tenham pena dos tempos que correm, porque “eles deixam de saber o que fazer”. Sabem sim e sabem bem quando cruzam a linha daquilo que é o respeito pelos outros. Só que acham que não existe mal nenhum em fazê-lo, porque é normal.

Da mesma forma, não é aceitável que se infantilize a mulher, como se a mesma não tivesse direito à expressão da sua sexualidade e que não seja capaz de dizer não. É ridículo pensarmos em criar aplicações para confirmar o consentimento do acto sexual. Não é assim tão complicado. Uma ajuda aqui para aqueles ou aquelas que têm dúvidas. É preciso falar mais abertamente sobre isto, sem a questão elas vs eles. Porque, nestes tempos em que o assunto é amplamente discutodo estarmos a retirar da equação e a ignorar os homens, que são vítimas de abuso sexual quer por parte de mulheres, quer por parte de outros homens, assim como mulheres que são vítimas de abuso sexual por parte de outras mulheres. Ou seja, a questão do assédio não acontece apenas no sentido homem-mulher e toda a discussão pública tem sido centrada nesta heteronormatividade.

Outra coisa que não é aceitável é o julgamento em praça pública, ainda que essa praça pública seja digital. Pessoas com um número de queixas públicas consideráveis, são imediatamente consideradas culpadas, sem que pareça ser necessário formalizar essas mesmas queixas nas instâncias judiciais. E isto não é aceitável porque todos aqueles que durante anos abusaram do seu poder para satisfação sexual, ou exerceram violência sexual sobre outros, merecem ser julgados e condenados. Não é suficiente que percam os seus empregos, muitas vezes com indemnizações milionárias. Isto parece-me demasiado perverso: faz-se uma queixa pública que os media sedentos de likes e shares espalham por toda a parte e divulgam todos os pormenores, por mais escabrosos que sejam. E depois, a nível legal, nada acontece. Se o tempo do silêncio acabou, quando é que o tempo em que estas pessoas responderão pelos seus crimes em tribunal chegará? Quando é que a impunidade acabará? Estou ansiosamente à espera.

Esta mediatização excessiva destas denúncias tem efeitos perversos e assustadores, Não só porque temo que a impunidade continue – esta mediatização gera um efeito catarse e achamos que fazendo uma denúncia numa rede social é suficiente e não é – como também a forma como assumimos que as pessoas são culpadas é leviana. Acredito piamente que a justiça se faz em tribunais e que um dos pilares da nossa democracia é que todo o cidadão ou cidadã são inocentes até prova (em tribunal) do contrário.

Vivemos tempos interessantes, é verdade, vivemos tempos de mudança e, agora, só temos de pensar que futuro queremos criar.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães. É, também, fundadora e presidente da Capivara Azul – Associação Cultural.