Vitória. Simples assim.

Quarta-feira, 31 de Janeiro. 17h30. Aeroporto do Porto.

Podia ser uma quarta-feira normal como todas as outras, uma tarde de trabalho, seguida de um serão em casa ou um café com os amigos, mas esta foi diferente. Era quarta-feira, tinha sido dia de trabalho, mas eu estava no aeroporto à espera de alguém que tinha feito mais de 2000km com um único objetivo: apoiar o Vitória.

Enquanto esperava (como é óbvio o avião atrasou-se) dei por mim a pensar: afinal porque que é que estava eu ao crepúsculo de uma quarta-feira equipada à Vitória parada no aeroporto do Porto à espera de alguém para seguir viagem para Lisboa?

Há quem lhe chame loucura ou até insanidade mental, mas eu vou chamar-lhe eternamente amor.

Eu podia perfeitamente ter visto o jogo no conforto da minha sala, mas não há nada que substitua a experiência de ver um jogo ao vivo.

 Tu vais mesmo para Lisboa numa quarta-feira à noite ver o Vitória?

Tu sabes que ele vai perder, não sabes?

Tu sabes que vais dormir 2 horas e tens de ir trabalhar no dia seguinte?

O Vitória dá-te alguma coisa? Eles nem sequer querem jogar. Vais para lá fazer essa loucura e eles vão andar a passear em campo… Se fosse a ti não ia…

Todas estas frases proferidas por outras pessoas durante a semana me vieram à cabeça… E dei por mim a questionar-me: afinal, o quê que faz alguém largar tudo para ver o Vitória?

Afinal, o que é que nos faz percorrer 600km (2600km se fores um ser extremamente maluco e obrigado a estar longe do grande amor da tua vida) num único dia para estar 90 minutos a apoiar o Vitória no topo de um estádio e com uma rede à frente (eu posso ter feito muita coisa naquele jogo, mas acho que ver não é algo que eu tenha feito devidamente)?

  1. Nós amámos aquela atmosfera (acho que este é, de facto o elemento principal que nos leva a deixar o conforto das nossas casas e ir para o estádio apoiar). Sentar… levantar… cantar… berrar! Insultar os árbitros quando eles erraram (às vezes mesmo sem errar). Prender a respiração enquanto a bola quase entra na nossa baliza. Paralisar no tempo quando o Douglas faz uma grande defesa evitando o golo. Celebrar os golos como se fossem a coisa mais importante da vida. Estar 90 minutos sem parar de cantar.
  2. Nós amámos o drama e toda a ação que se desenrola no jogo (que se torna viciante) entre as equipas e os árbitros no campo (nós amamos odiar os árbitros também, sejamos sinceros). Nós amamos a adrenalina do perigo de sofremos um ataque cardíaco enquanto vemos o jogo (mas apesar disso, queremos sempre mais – ok, se calhar não é assim tão anormal chamar-lhe doença).
  3. Nós adoramos berrar. O desempenho do jogador mais fraco, a direção e o treinador; tudo serve de motivo para berrarmos. Mesmo quando a equipa está a fazer um bom jogo, nós conseguimos encontrar sempre algo para reclamar e criticar.
  4. Nós precisamos da controvérsia. O que seria deste jogo fantástico se nós não parássemos pelo menos alguns minutos para questionarmos a profissão da mãe do árbitro? Nós gostamos de passar horas a fio a discutir se determinado lance era falta ou não, se devia ter sido penálti ou fora de jogo. Não importa o quão clara é a jogada, haverá sempre margem de dúvida num jogo de futebol. Sejamos honestos, é isto que faz com que se vendam jornais no dia seguinte.
  5. Nós vemos o jogo como algo terapêutico. Dizer toda aquela combinação de palavras impertinentes que nos vêm à cabeça durante um jogo costuma ser libertador. Não importa o quão mal tenha corrido a semana, tudo fica no jogo de domingo. Até saímos mais leves de lá (isto se o nosso maior motivo de irritabilidade não for o estado atual do Vitória – aí provavelmente precisamos de outro tipo de terapia).
  6. Nós somos todos treinadores (nas nossas cabeças) ‘Passa!’ ‘Cruza!’ ‘Sobe!’ Sim, assim que o árbitro apita para o minuto inicial nós convertemo-nos em treinadores (berrar destas coisas para a televisão não nos traria o mesmo nível de satisfação)
  7. Nós somos criaturas de hábitos, nós gostamos de rotina. Nós gostamos de nos sentar sempre no mesmo lugar, junto com as mesmas pessoas. Nós gostamos de criar raízes e de nos sentir parte integrante de algo.
  8. Nós não podemos viver sem o Vitória (esta é a realidade nua e crua). Basta recuarmos um pouco até à pausa de Verão e pensar no quão perdidos nos sentíamos sem jogos do Vitória. Aquela necessidade de ver um jogo de futebol, de cantar, de berrar.
  9. Nós nascemos com isto, está no nosso sangue. Comigo não aconteceu, mas a maioria dos vitorianos é sócio do Vitória mesmo antes de ser registado como cidadão português, os pais contam os dias para os poderem levar pela primeira vez ao estádio do Rei e assim que lá entram (entrámos) estão (estamos) viciados. Depois vamos querer acompanhar o Vitória para o resto das nossas vidas. É simples assim.
  10. Nós amámos o jogo e amámos o Vitória. O Vitória faz-nos felizes, o Vitória faz-nos faz sorrir (geralmente sim)… O Vitória faz-nos colocar todos os nossos problemas em segundo plano. O Vitória irrita-nos, faz-nos chorar, mas ainda assim, nós temos a certeza que continuaremos a apoiá-lo até morrermos (e até depois disso se tivermos algum tipo de intervenção nesse momento).

Este amor pelo Vitória desperta emoções (por vezes irracionais) que atravessam a fronteira entre o amor tribal e o fanatismo. É esta tensão entre amor e fanatismo, que cria em nós este sentimento de pertença que torna os jogos de futebol no estádio tão viciantes. É esta paixão que nos faz sentir necessidade de apoiar o Vitória sem parar. É esta paixão que nos fará estar no Bessa no domingo.

Não importa o que aconteceu dentro das quatro linhas naquela noite fria de quarta-feira em Lisboa, não interessa o que aconteceu esta época, nós estaremos sempre fiéis a apoiar. Sempre juntos. Simples assim.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.