“Fronteiras”

Portugal, geograficamente falando, é um país de média dimensão que, se comparado com a Bélgica, Holanda ou Suíça, é grande, mas torna-se pequeno, quando olhamos para Espanha, Alemanha ou Itália. Antigamente até se dizia que “Portugal é um ovo, Espanha uma peneira e França uma eira”.

Pode ser percorrido com facilidade, seja qual for a direcção que se tome, mesmo fazendo a tradicional ligação mais longa, Melgaço-Albufeira.

Quem o fizer, não andará muitos quilómetros, para começar a encontrar diferenças entre Minho e Trás-os-Montes, com aquela encosta que nos leva à Mesa Ibérica. Entre a Beira litoral, com terrenos típicos para os arrozais, e a Beira Alta e Baixa, onde pontua a Serra da Estrela, integrando o “Maciço Central” ou, ainda, as diferenças entre a Lezíria Ribatejana, o Alentejo e o Algarve, sem esquecer os arquipélagos.

As pronúncias, os trajes das profissões, mais os usos e costumes marcaram, ao longo dos séculos, as diferenças entre as diversas “províncias”.

Os vários regimes, que foram predominando em Portugal, exerceram o poder a partir de Lisboa, desvalorizando o resto do país, especialmente o interior, dando origem a uma, cada vez mais acentuada, desertificação.

Com o derrube da ditadura salazarista e a sequente implantação do regime democrático, através da criação da nova constituição, nasceram e renasceram novos e velhos ideais, entre eles, no artigo 255º, o da regionalização.

Os tiques do passado ou a ânsia de manter o poder centralizado e nas mãos de meia-dúzia de famílias, económicas e/ou políticas, levam a que, quarenta anos depois, a directiva daquela carta, seja um sonho por realizar, para milhões de Portugueses.

O referendo, realizado em 1998, foi um atirar de areia, para os olhos dos Portugueses.

À direita conservadora juntou-se um Partido Socialista que, à época e mais do que nunca, jogava com “pau-de-dois-bicos”.

Desenhou uma espécie de mapa das regiões que nada tinha a ver, com a realidade e aspirações dos povos.

Tudo o que se fizer, ou tentar fazer, fora da realidade de cada povo e as suas características, será injusto e destinado ao fracasso, tal como está a ser a medíocre e antidemocrática “lei Relvas”.

Minho, Trás-os-Montes, Douro, Beira Interior, Beira Litoral, Estremadura, Vale do Tejo, Alto Alentejo e Algarve, parece-me uma proposta razoável, com possíveis ajustes que não desvirtuem a realidade de cada região.

Aquando do referendo, houve quem propusesse cinco grandes regiões, “para evitar gastos com governos e parlamentos”, diziam.

Essa é mais uma hipocrisia da direita, facilmente rebatida com o exemplo da Suíça que, com menos de metade da nossa área, constitui uma confederação com vinte e seis estados autónomos.

Com os acordos feitos à esquerda, renasce a esperança de que, os povos de Portugal, alcancem a sua autonomia, tal como aconteceu nos Açores e Madeira.

Haja quem tenha a capacidade e coragem de congregar forças, que dêem corpo a um movimento regionalista.

Joaquim Teixeira é militante do Bloco de Esquerda e é sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.