Nós merecemos mais!

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive”

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Ontem, nos minutos finais do jogo no Bessa, enquanto os nossos cachecóis estavam elevados e, de uma forma não tão ordenada e sentida como habitual, entoávamos “Força Vitória Allez” apareceu na minha mente este poema de Fernando Pessoa (o meu subconsciente é um lugar muito estranho, penso que a esta altura já perceberam isso).

A felicidade que me tinha acompanhado durante todo o jogo e a crença numa vitória (e na reviravolta no marcador depois de sofrermos o golo) foi substituída por uma tristeza absurda que se apoderou de mim. Os cânticos saíam da minha boca, os meus olhos observavam quase que em câmara lenta aqueles que persistiam em não desistir de apoiar, mas de cada vez que me focava no que se passava no relvado eu só queria que, por algum tipo de intervenção divina, acontecesse uma espécie de Freaky Friday e as mentes dos jogadores pudessem ser substituídas pelas dos adeptos. Que, por uns minutos, aqueles jogadores pudessem sentir o que nós sentimos quando estamos lá em cima a apoiar. Queria que, por uns minutos, eles percebessem o quão doloroso é estar lá em cima totalmente incapacitado de fazer algo mais para que aquela bola entre; fazer algo mais para que não desistam de vencer…

Nós não podemos jogar, a única coisa que podemos fazer é apoiar. Nós vamos apoiar sempre, nós faremos com que sintam sempre que estão a jogar em casa. Aos jogadores, só pedimos que ganhem por nós. Que sejam “todo em cada coisa”, que “[ponham] quanto [são] no mínimo que [fazem]”.

Nós merecemos mais! Nós merecemos melhor! Nós merecemos muito mais do que aquilo que vimos ontem em campo. Nós merecemos muito mais do que aquilo que temos tido esta época.

Embora aqueles que ontem estavam lá em baixo possam conhecer melhor o funcionamento interno do futebol e como treinar melhor do que nós sabemos, eles não sabem (ou pelo menos parecem não querer saber) que os adeptos são o sangue da vida do Vitória e que nós daríamos tudo para ver o Vitória a vencer. Nós daríamos tudo para ver o Vitória no lugar que ele merece, no lugar que lhe pertence.

Até mesmo eu, que me considero uma otimista e eterna crente no que diz respeito ao Vitória, estou infeliz com a forma como as coisas estão a correr. Não há mais um desejo de defender o indefensável. Agora, há uma aceitação relutante de que é assim que as coisas são. Já não estamos otimistas sobre esta época, a possível qualificação para as competições europeias ficou no Bessa (assim como o nosso orgulho). Agora, esperamos apenas que esta época acabe o mais rapidamente possível (que ainda conseguíamos ter alguns momentos de alegria) e que a próxima época seja muito melhor planeada e executada.

Eu entendo que nós não podemos ganhar todos os jogos, eu entendo que às vezes parece que até o universo está contra nós. Eu entendo que a bola não entre. O que eu não entendo é que não façamos tudo o que estiver ao nosso alcance para vencer. Eu já nem quero saber que não sintam o clube como nós sentimos (ah, como eu desejava que o fizessem), neste momento eu já só peço que quando entrem em campo, entrem verdadeiramente em campo. Que deixem tudo de si no relvado, que corram atrás de cada bola, que lutem por cada lance como se a sua vida dependesse disso.

Os vitorianos estão descontentes. Vamo-nos alimentando de cada segundo de bom futebol, cada golo. Cada um destes momentos de glória, por mais minimalistas que sejam, servem de impulsionadores de felicidade. Dão-nos esperança e assim nos vamos mantendo vivos jogo, após jogo, derrota após derrota. Um golo ou uma vitória servem para criar em nós a esperança de que este é o momento em que tudo vai mudar, em que tudo vai correr bem, mas depois, logo depois (demasiado cedo) somos obrigados a cair na triste realidade de que não jogamos nada, não temos plantel, não temos uma ideia de jogo, não temos nada.

Podemos passar o resto da época a culpar o VAR (por esta e por outras derrotas), mas, mais cedo ou mais tarde, vamos ter de acordar e assumir que A CULPA É NOSSA. O VAR pode ter errado ontem, o VAR podia ter alterado o rumo do jogo, mas a responsabilidade do resultado de ontem não está no VAR: a responsabilidade está em nós. Nós é que não jogámos, nós é que não criamos oportunidades, nós é que desperdiçamos as oportunidades que às vezes até caíram do céu.

Este clube, estes adeptos (aqueles que dali de cima não pararam de apoiar um segundo) merecem mais e melhor. Nós merecemos o que nos foi prometido constantemente, uma equipa e um clube que irão e poderão competir com os maiores clubes da Europa (ou pelo menos, num momento inicial, de Portugal). Por qualquer razão (ou uma série de razões que eu espero que estejam a ser bem analisadas e resolvidas para a próxima época), isso não aconteceu. A realidade é que a equipa não está a funcionar. Mudam-se os jogadores, mudam-se as posições, mudam-se as estratégias, mas os erros continuam a repetir-se jogo após jogo.

Desculpou-se com a carga excessiva de jogos, desculpou-se com o investimento dos adversários, desculpou-se com a com a inexperiência dos jogadores, desculpou-se com a arbitragem…

E agora? Agora, o que serve de desculpa? Agora, o quê que nos faz ir ao Bessa e oferecer a vitória a um dos nossos maiores rivais? Agora, o quê que nos faz ir ao Bessa e jogar sem qualquer tipo de lógica de jogo? Agora, o quê que nos faz ir ao Bessa e estar mais inativos do que um urso em período de hibernação?

Eu tentei ser o mais sensata possível. Eu tentei encontrar sempre uma justificação (e aceitar as que me eram dadas). Eu tentei. Juro que tentei, mas ontem no Bessa, no final daquele jogo, eu nem sequer consegui olhar para os jogadores. No final daquele jogo em senti-me envergonhada com o futebol (ou devo dizer o “não-futebol”?) praticado lá em baixo.

Este clube deve tudo o que é aos adeptos. Nós construímos este clube. Nós tornámo-lo uma referência nacional (e até mundial). O Vitória é considerado um grande clube pela sua massa associativa extraordinária que o segue religiosamente independentemente do que que aconteça dentro das quatro linhas. Desde o início até agora é o nosso amor, apoio e dedicação que mantêm o clube vivo. É ótimo vencer nas bancadas, mas nós merecemos muito mais do clube que amámos.

Para nós, isto não é apenas um desporto. É um modo de vida, é algo muito superior a nós. Já sofremos demasiadas humilhações para uma época só (eu sei que dói, mas não tem sido nada lindo). Nós não merecemos isto! Uma vez é aceitável, duas vezes está bem, três vezes já começa a doer, mas isto de jornada após jornada, competição atrás de competição, jogo após jogo é demasiado. Já chega!

Estou a lutar para encontrar palavras que possam destacar tanto quanto necessário o quão humilhante foi assistir aquilo em campo ontem, mas não está fácil…

Eu já não vos peço (a vocês jogadores, equipa técnica, dirigentes) que sintam este clube como nós o sentimos. Já não vos peço que o defendam com unhas e dentes como nós o fizemos, fazemos e faremos sempre. Já não vos peço que deixem TUDO de vocês em cada jogo. Já não vos peço que “comam relva”. Eu já só vos peço que tenham uma ideia de jogo e que a sigam. Que corram atrás da bola e que façam aquilo para que são pagos a preço de ouro: JOGUEM FUTEBOL!

Detesto que isto se tenha tornado num “nós e vós”, desejo que voltemos a ser novamente um só, juntos para elevar cada vez mais o Vitória, mas nós não podemos fazer isto sozinhos. Precisamos que todos queiram e lutem pelo mesmo.

Domingo, frente ao nosso maior rival, na NOSSA CASA, nós voltaremos, como sempre, a estar lá, a apoiar incansavelmente do início ao fim. Nós acreditaremos e lutaremos até ao fim.

E vocês? Serão Conquistadores ou deixarão que o nosso castelo seja conquistado?

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.