10 Memórias e 3 Conclusões

Uma das melhores formas de encarar conscientemente o futuro é relembrando, e respeitando, o passado e dele colhendo os ensinamentos que a qualquer momento e em qualquer oportunidade poderão ser úteis.

E por isso resolvi recordar hoje alguns momentos que me marcaram na minha vida de vitoriano, ao longo de cinco décadas, deixando de lado o momento presente sobre o qual não há falta de pessoas a exprimirem opinião.

Escolhi dez memórias, entre centenas possíveis, para hoje partilhar com os leitores deste jornal digital.

Primeira: Inevitavelmente o primeiro jogo que vi do Vitória, algures no início dos anos 60, ainda no campo da Amorosa naquele que terá sido um dos últimos jogos de campeonato que lá foram disputados antes da inauguração do estádio municipal.

Foi há mais de 50 anos mas ainda recordo as bancadas cheias, o entusiasmo dos espectadores, os jogadores ali tão próximos e o triunfo sobre o Porto.

Ir ao futebol, ver o Vitória jogar, foi o cumprir de um sonho de menino.

Segunda: As manhãs de domingo no campo da Amorosa, a ver jogar os escalões de formação, eram um ritual que preenchia a infância e a juventude de muitos miúdos da minha geração, que quer fizesse chuva quer fizesse sol, ao domingo marcavam presença a partir das nove da manhã para verem os jogos de iniciados, juvenis e juniores.

Ora por trás das balizas, ora ao longo das linhas laterais, era um forma de ver futebol bem diferente da do estádio porque ali os jogadores estavam mesmo à nossa frente e podíamos apreciar todos os pormenores do jogo, as “bocas” entre eles e por aí fora.

Ainda hoje considero que as singularidades daquele campo ajudaram a formar o vitorianismo de sucessivas gerações de vimaranenses.

Terceira: O estádio municipal foi uma grande inovação em relação à Amorosa embora nem sempre totalmente positiva. Relvado, balneários condignos, bancadas mais amplas mas público muito longe dos jogadores e a ter entre o terreno de jogo e as bancadas um fosso que era destinado a levar água mas tal nunca aconteceu.

A única água que lá existia era a da chuva  o que não obstou a que nele, fosso, crescesse abundante vegetação na qual se instalou uma vasta colónia de rãs!

E não deixava de ser pitoresco nalguns momentos mais “mortos” do jogo (recordo que nos anos 60 não havia claques nem cânticos como hoje) ouvir o coaxar das rãs no fosso. Algo que hoje seria totalmente impossível de acontecer.

Quarta: A equipa de 1968/1969 ficará sempre na minha memória, e de todos os vitorianos que a viram jogar, não só como uma das melhores de sempre do nosso clube mas também como aquela que mais perto ficou de ser campeã nacional.

Depois de um campeonato fantástico em que venceu em Guimarães os três do costume e empatou na Luz e Alvalade o Vitória ficou a apenas três pontos do titulo muito por força de alguns empates caseiros e de uma derrota “sistémica” no Restelo da qual o grande beneficiário foi o Benfica que acabaria por se sagrar campeão.

Mas essa equipa provou que o maior sonho dos vitorianos pode ser concretizado. Pena é terem passado quase 50 anos sem o ser.

Quinta: Já tínhamos perdido duas finais com Belenenses e Sporting. Mas a final das Antas com o Boavista, numa tarde em que milhares de vitorianos fizeram do estádio do Porto casa sua, ficará para sempre na nossa pior memória.

Porque fomos a melhor equipa, porque ganhámos claramente nas bancadas (já ouvi isto em qualquer lado…), mas uma arbitragem miserável roubou-nos a Taça e deu-a ao Boavista perante o desespero e a revolta de uma enorme massa adepta.

Sexta: O primeiro treino de José Maria Pedroto no Vitória despertou um entusiasmo inimaginável até então. Acorreram ao estádio milhares de vitorianos encantados com a contratação do carismático treinador cuja vinda para Guimarães abriu, não tenho qualquer dúvida, um novo e estimulante ciclo na vida do clube.

Da ambição desportiva às infra-estruturas.

Nestas registam-se as primeiras obras de melhoramento e ampliação nas bancadas enquanto em termos desportivos bastará recordar que o primeiro jogo de Pedroto foi face ao Braga e ao intervalo o Vitória já vencia por 4-0 depois de um dos maiores vendavais de futebol ofensivo que vi naqueles estádio.

Sétima: Mas pese embora outras grandes equipas do passado talvez nenhuma tenha povoado o universo vitoriano de tantos sonhos como a das épocas de 1985/1986 e 1986/1987 treinadas por António Morais e depois Marinho Peres.

Grandes jogadores, grandes exibições, um entusiasmo desmedido nos adeptos e a conquista de um quarto e um terceiro lugar que souberam a muito pouco face à valia da equipa e à ambição que transmitia às bancadas.

Em ambas as épocas ,os do “costume”, não nos deixaram ir mais longe com alguns valentes roubos de igreja que falsearam a  verdade desportiva desses campeonatos.

Mas voltou a provar-se que era possível sonhar alto.

Oitava: A conquista da supertaça em 1989, única em quatro finais disputadas, foi a primeira grande conquista do Vitória. Depois de uma época anterior em que correra o risco de descer e apenas a ida ao Jamor salvara a temporada da completa frustração (pese embora a derrota) a final da supertaça disputada em duas mãos constituiu um momento de exaltação vitoriana.

Triunfo em Guimarães por 2-0 e depois nas Antas uma noite mágica de Neno, defendendo literalmente tudo, garantiu a conquista do troféu com um empate a zero golos.

Nona: O Vitória não tem um grande palmarés europeu como é sabido. Para lá dos quartos de final da taça Uefa em 1986/1987 pouco mais há a assinalar que mereça grande destaque.

Mas a eliminação do Parma em 1996 foi um dos  momentos que mais fez vibrar os vitorianos pela surpresa que constituiu em termos europeus.

O Parma era então uma das mais fortes equipas de Itália (Buffon, Thuram, Dino Baggio, Sensini, Cannavaro, Zola, Chiesa, Melli) enquanto o Vitória tinha uma boa equipa mas nada que se assemelhasse o que não impediu que,depois de uma derrota tangencial em Itália por 1-2, uma “noite mágica” no D. Afonso Henriques permitisse um triunfo por 2-0 e o consequente apuramento.

Foi uma daquelas vezes em que o “gigante adormecido” acordou. Infelizmente adormece com muita frequência…

Décima: A mais bela tarde vitoriana, no Jamor em vinte e seis de Maio de 2013, é uma memória recente mas que me acompanhará para sempre pela importância que teve para o nosso clube. Primeira taça, à sexta tentativa, conquistada por um plantel sem vedetas mas com talentos sólidos e comandada por uma equipa técnica de grande qualidade.

Apoiada nas bancadas por uma multidão vitoriana que foi outro espectáculo dentro do próprio espectáculo e que mostrou bem quanto ambição e desejo de conquista existe nos nossos adeptos.

Estas dez memórias, que como disse atrás foram escolhidas entre centenas de outras, permitem-me tirar três conclusões:

Primeira: Sinto-me muito feliz, e também orgulhoso, de toda a minha vida ter sido, continuar a ser e ter a certeza de que serei sempre apenas e só adepto do Vitória.

Segunda: Ter dificuldade em entender, ou não entender mesmo, aqueles vimaranenses que se dizem vitorianos mas depois em questões de títulos e não só admitirem a sua simpatiazinha por um dos três estarolas. Ou, pior ainda, aqueles que sendo simpatizantes desses clubes se dizem vitorianos quando lhes dá jeito.

Terceira: Olhar com a comiseração que merecem aqueles vimaranenses que nunca ligaram ao Vitória para nada, nunca foram vistos no estádio ou no pavilhão e menos ainda nos jogos fora de casa (excepto finais de Taça…), apareçam em alturas para eles estratégicas a afirmarem-se vitorianos ao sabor dos seus interesses políticos, económicos, sociais ou quaisquer outros.

O Vitória é de todos os vitorianos.

Mas apenas podem ser considerados vitorianos aqueles que são sempre e só pelo Vitória sem aceitarem misturar o preto e branco com outras cores nem fazerem do clube trampolim para carreiras em áreas com as quais o clube nada tem a ver.

P.S. Uma nota final para dizer que toda a minha vida coloquei sempre o interesse do Vitória acima do interesse do meu partido.

Tenho pena que alguns agora se deixem “emoldurar” pela razão exactamente inversa.

Luís Cirilo Carvalho, 58 anos, é deputado municipal eleito pelas listas do PSD. Já liderou a concelhia do partido e foi deputado à Assembleia da República 1999 e 2005 na bancada social-democrata. Foi governador civil entre 2002 e 2003. Passou pelo Vitória Sport Clube como dirigente.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.