Movimento #MeToo

No início de fevereiro, uma mulher paquistanesa publicou nas redes sociais um relato de assédio sexual de que fora vítima durante o Hadj, peregrinação à Meca que leva dois milhões de fiéis de todo o mundo àquela cidade da Arábia Saudita. Mais tarde, acabou por retirar a publicação, pressionada pelas reações negativas. Antes, ainda teve tempo para receber as respostas de outras mulheres que admitiram terem sido assediadas durante o ritual religioso que consiste em dar sete voltas na Caaba, edifício de culto religioso considerado o lugar mais sagrado do mundo muçulmano. De acordo com o jornal francês Le Monde, metade dos peregrinos em 2017 era composta por mulheres.

No dia 6 de fevereiro de 2018, uma jornalista americana, Mona Eltahawy, de origem egípcia, muçulmana e feminista, passa, então, a usar, pela primeira vez, a hashtag #MosqueMeToo (MesquitaEuTambém) para incentivar outras mulheres a falarem publicamente sobre o assédio no contexto religioso. O nome da campanha aí lançada inspira-se no movimento #MeToo lançado por mulheres americanas em 2017. Milhares de muçulmanas já aderiram à hashtag e publicaram as suas histórias de importunação, em turco, inglês e outros idiomas, no contexto religioso, onde, em nome de um bem maior, pede-se que elas se calem.

O movimento #MeToo que pôs mulheres a revelar que tinham sido assediadas tem suscitado muitas e diversas reações, como a carta da atriz francesa Catherine Deneuve que reivindica o direito de ser importunada a bem da liberdade sexual. A atriz francesa e as noventa e nove mulheres que subscrevem a carta insurgem-se contra a campanha por representar o homem odioso e reclamam o direito do homem seduzir e o da mulher ser seduzida.

Entre os comentários ao artigo publicado no Le Monde sobre a carta da Catherine Deneuve retém-se um, em especial, de um indivíduo que defende não haver mal na sua mão pousada no joelho de uma desconhecida, durante uma viagem de metro: se ela se sentir importunada, pode sempre retirar ou pedir para retirar a mão, rejeitando a investida. A  ponderar no contexto cultural da França da liberdade sexual.

Outro facto de relevo na campanha #MeToo que se tornou viral nas redes socias em 2017, considerada personalidade do ano pela revista Time, foi ter permitido denunciar os comportamentos inapropriados de homens poderosos e ricos, apresentando, assim, o assédio no quadro de uma relação desigual e profissional. E se, por um lado, se suspeita, mesmo que em jeito de fantasia, a possibilidade com certa probabilidade da atriz em início de carreira se ver obrigada a ceder favores ao realizador, por outro não há dúvida que todos são presumíveis inocentes até prova em contrário.

Pondo de parte as discussões semânticas que procuram definir os limites da sedução e do assédio, o movimento de cariz feminista assenta, em suma, na luta pela igualdade de géneros em contextos específicos, profissionais, sociais e até religiosos como se viu, no desenvolvimento das relações fora do ambiente mais íntimo que emerge do comum acordo.

O movimento #MeToo “partiu a loiça” e junta-se a outros movimentos globais de mulheres. Uma vez ultrapassado, pelo menos entre nós, o cliché da emancipação da mulher vítima do homem diabólico, trata-se, então, de convencer metade da humanidade (e não só) composta por mulheres que podem influenciar e concorrer ao poder de decisão sobre todas as matérias, desde as mais quotidianas até às mais estratégicas e globais: nos Estados Unidos, em contestação contra as políticas de Trump, na América Latina, na Alemanha, pelos direitos dos migrantes, no Irão contra o véu obrigatório, no mundo muçulmano pela dignidade no culto religioso, etc. Hoje, esses movimentos, que vão além da defesa dos direitos das mulheres, contam com a ajuda das redes sociais, aceleradoras e intensificadoras da mensagem e, muito provavelmente, das transformações.

Paula Magalhães, licenciada em Ciências Económicas e Empresariais, contabilista, professora e formadora para as áreas de formação de Economia e Contabilidade, foi, entre outras intervenções políticas, deputada municipal na Assembleia Municipal de Guimarães, colaborou na redação do jornal O Povo de Guimarães, desde 1989 até ao seu desaparecimento, foi ainda diretora e presidente da direção da cooperativa, já extinta, O Povo de Guimarães, CRL.