A noite em que o Castelo do Rei foi tomado de assalto…

“A noite é escura e cheia de terrores”.
– Melisandre, Guerra dos Tronos

A longa noite chega finalmente ao fim, o sol começa a aparecer por entre as nuvens, os pássaros começam a cantar, o fluxo de carros vai aumentando lá fora…

A cidade acorda em euforia, uma felicidade abundante que se sente em cada carro que oiço, em cada mínimo barulho que vai ecoando pelas paredes.

Esta será eternamente uma noite épica, daquelas que serão partilhadas ao longo dos anos como um dos grandes feitos da humanidade. Uma daquelas noites que os pais contarão aos filhos, os avós contarão aos netos, sem deixar escapar um único pormenor e acrescentando sempre algo excitante de cada vez que a sua história for contada. Todos terão prazer de dizer que estavam lá.

A história da noite de ontem fará para sempre parte desta cidade, a história da noite de ontem mudou os nossos rumos para sempre. Eles sabem, nós sabemos… Eu sei…

O que eles não sabem– aqueles que hoje acordam submersos numa felicidade que nem sequer sabem o que é – é que aquela noite; aquela noite que aqueles que agora me rodeiam lembrarão para sempre como épica, será para mim (o ser que nunca aqui pertencerá) uma das piores noites da minha vida.

A vida é algo absolutamente incrível, não é? Já alguma vez pararam para pensar que o melhor dia das vossas vidas pode ser o pior dia de sempre para alguém? Nunca o tinha feito até este momento. Até ao momento em que estou perdida no meio da escuridão focando o meu olhar no local exato onde sei que se encontra a bandeira do Vitória. Aquela bandeira que dizia eu no final do Jamor que significava tudo aquilo que era ser vitoriano: a garra, a paixão, a resiliência, a lealdade; o lutar até ao fim, o honrar aquele emblema acima de tudo.

O Jamor está tão longe, a felicidade que nos acompanhou na época passada parece ter sido lavada pela chuva que persistia em cair torrencialmente em cima de nós. Fecho os olhos e estou lá novamente, no meio dos meus, a cantar debaixo daquela chuva e a sentir-me a pessoa mais sortuda do mundo por estar a fazê-lo. Estamos na primeira parte do jogo, a chuva cai, ainda existe em nós toda a esperança do mundo e eu consigo lembrar-me do quão feliz eu estava naquele momento. Aquela primeira parte foi tudo aquilo que eu digo que o Vitória é. Aquela primeira parte foi aquilo que há mais de uma década me fez apaixonar por este clube. Este amor incondicional, esta lealdade pura e cega, esta crença sem motivo, este desejo de vitória e de glória, esta garra de vencer.

Tão longe como o Jamor (ou até mais) ficam estas memórias… A noite escura volta a assombrar a minha mente… A noite escura que parece não ter fim. A noite escura que persiste em continuar mesmo que eu lhe implore que acabe… O sol está a voltar, a noite está a chegar ao fim… Ali, existo só eu e a tristeza que se apoderou de mim de uma forma como eu não tenho lembrança de acontecer…

Vitoriano sofre, vitoriano reclama, vitoriano apoia incondicionalmente… Isso sempre foi normal. Se eu quisesse ser feliz todas as semanas, todos os jogos, eu poderia ter ido pelo caminho mais fácil, eu podia ter escolhido apoiar um dos ditos grandes, eu podia festejar as constantes conquistas de um clube distante que não me pertence apenas porque queria uma felicidade imediata. Nunca ninguém me prometeu que ia ser fácil ser deste clube, nunca ninguém me prometeu que iriamos vencer todos os jogos. Muito pelo contrário, até as nossas músicas dizem “eu sei que dói, mas eu sei que é lindo”. E é esse “lindo”, esse sentimento especial, esta sensação extraordinária de ser parte integrante de algo muito superior a nós que sempre fez todo este sofrimento desaparecer. Foi este amor incondicional, esta união inquebrável que nos fez acreditar sempre. Independentemente de tudo, nós estávamos sempre lá. Nós estávamos unidos a uma só voz a apoiar o grande amor da nossa vida. Foi isso que nos tirou da segunda divisão, foi isso que nos fez levantar após a derrota no clube-cujo-nome-não-deve-ser-pronunciado, foi isso que nos libertou de uma gestão pérfida que quase nos destrui…

Mas ontem, o nosso castelo foi tomado de assalto e o que me entristece mais é que a mão cheia de golos que entrarou na nossa baliza é a coisa menos dolorosa de toda aquela noite. O Vitória (o NOSSO VITÓRIA – eu recuso-me a parar de lutar por ele) sofreu uma humilhante derrota frente ao seu maior rival (a maior de sempre) na nossa casa. Naquela que devia ser a nossa fortaleza, o nosso Castelo.

A noite começou bem. O D. Afonso Henriques estava cheio (como sempre devia estar), os cachecóis ergueram-se, as nossas vozes uniram-se e berramos bem alto com orgulho quem eramos, declaramos a vontade de ir em frente, de seguir Afonso campo fora, de rasgar o tempo e de matar a sede de vencer que nos tem atormentado toda a época. Entramos com peito em riste, com a força e o querer, mas como o sol de pouca dura, 10 minutos depois estávamos a permitir que o nosso maior rival invadisse o nosso Castelo. Mais do que isso, estávamos a estender-lhe o tapete vermelho para que entrasse em nossa casa, a atacasse, a usurpasse e fizesse connosco tudo aquilo que quisesse. Enquanto das bancadas se ouviam gritos de apoio que mais soavam a rogos de misericórdia para que os jogadores e equipa técnica percebessem que era a hora de acordar, de encontrar todas as forças que em si existissem e lutar com bravura, lá em baixo, no palco do Rei, só víamos calma e uma incapacidade tremenda de combater.

Este é o ESTÁDIO DO REI. Vocês são o EXÉRCITO DO REI. Sintam-no. Honrem-no. Protejam-no. Este é nosso castelo e vocês estão a deixá-lo ser tomado de assalto sem sequer tentarem lutar por ele.

Ontem, pela primeira vez na minha vida eu berrei com jogadores que envergavam a camisola do Rei. Eu nunca implorei tanto a alguém para fazer algo na vida e eles continuavam tipo baratas tontas sem saber o que fazer. O mais absurdo disto tudo é que eles não sabiam. Aqueles seres que estavam ali em baixo não sabiam mais o que fazer (acho que no final do jogo eles já nem sequer tinham consciência de que aquela coisa redonda que lhes tocava os pés era uma bola e o que era suposto fazerem com ela).

Enquanto isso, nas bancadas (aquele sítio onde sempre vencemos, onde somos os maiores, onde nos tornamos imortais), na minha tão amada mítica nascente (não sei se isto se estendeu pelas outras bancadas) eu via algo que jamais pensei vir a acontecer. Um constante frenesim, um clima de ódio, um pertinaz aparecimento de brigas em vários pontos da bancada… Vitorianos contra vitorianos. Eu só conseguia implorar que parassem, mas à medida que o jogo avançava, à medida que a diferença no marcador ia aumentando, este clima só foi piorando. Os pontos de discussão multiplicavam-se, as palavras trocadas iam ficando mais agressivas, o tom de voz ia aumentando… As acusações, as palavras, o ódio… Todo aquele ódio… Como é que alguém pode ter tanto ódio dentro de si? Como é que este amor tão profundo, tão especial, tão único, tão nosso, se transformou numa coisa tão feia, tão dolorosa de ver…

Ao mesmo tempo, enquanto em vez de apoiar a equipa nós nos perdíamos no meio das nossas guerrinhas internas, aconteceu o impensável: pela primeira vez na minha vida, pela primeira vez na nossa CASA eu consegui ouvir braguistas. Eu consegui ouvi-los unidos a torcer pelo seu clube. A determinada altura do jogo dei por mim levantada a insultá-los vergonhosamente, mas o mais vergonhoso daquilo tudo é que pela primeira vez na minha vida eu não os estava a insultar porque eles eram uma vergonha e não apoiavam devidamente o clube da sua terra, mas porque estava a sentir inveja deles. Não só daquilo que estavam a conseguir fazer em campo, mas principalmente (e isto é que dói) da união e da força que existia naquela bancada em detrimento das nossas.

Como é que isto aconteceu? Como é que nos tornámos neste clube? Como é que nos tornámos numa equipa sem garra, sem entrega, sem paixão no relvado? Como é que nos tornámos numa bancada sem poder suficiente para calar o nosso maior rival na NOSSA CASA? Nós estávamos ali, NA NOSSA CASA, a ser humilhados por eles até na bancada…

O VAR falhou. O VAR falha sempre connosco. O limite do ridículo há muito que já foi ultrapassado, mas tal como na semana passada, eu recuso-me a responsabilizar a má arbitragem (que, mais uma vez esta época nos penalizou vergonhosamente) pelo desaire da noite passada. A culpa foi nossa. Nós é que não lutamos, nós é que não acreditamos, nós é que NÃO JOGÁMOS.

Quando o árbitro apitou e pôs um término a todo aquele sofrimento, a toda aquela noite que parecia não ter fim, parte de mim pensou com alivio “terminou”, mas eu sabia que aquele final seria apenas temporário. Aquela noite ainda não tinha chegado ao fim e só havia um desfecho possível… Esse desfecho chegou pouco depois: “Queria informar os vitorianos que o mister Pedro Martins já não é mais treinador deste clube”, informou Júlio Mendes, Presidente do Vitória, numa conferência de imprensa onde visou ainda a arbitragem do dérbi minhoto e o episódio vergonhoso de Júnior Tallo no final do jogo.

Depois de uma semana de atos racistas, de lutas constantes nas redes sociais, de duas derrotas com os nossos rivais, de momentos vergonhosos no D. Afonso Henriques, o silêncio apoderou-se de mim…

Eu sabia que ia ouvir aquelas palavras, eu tinha consciência de que era o único desfecho possível para aquela noite fatídica, mas eu não estava preparada para o ouvir. Eu não estava preparada para que aquela “cadeira de sonho” fosse deixada vazia desta forma. Eu não estava preparada para que as “páginas bonitas” parassem de ser escritas tão abruptamente.

Aquela pessoa a quem o ano passado eu me declarava eternamente agradecida por nos ter devolvido o nosso Vitória não merecia ser retirado abruptamente desta história (não desta forma).

Se calhar o grande erro foi que este capítulo não tivesse terminado quando eramos todos felizes; se calhar o grande erro foi acharmos que conseguíamos repetir a felicidade dois anos seguidos; se calhar o grande erro foi continuarmos a acreditar que tudo iria ficar melhor no jogo seguinte; se calhar o grande erro foi não termos coragem de dizer que não estava tudo bem, mas a verdade é que independentemente de todos os erros desta época (cometidos por Pedro Martins e não só – ele pode ter sido o “elo mais fraco” e aquele que teve de cair para um bem (que esperamos que seja) maior, mas a responsabilidade desta má época continua a ter de ser, na minha opinião, tripartida: direção, equipa técnica e jogadores), Pedro Martins ficará sempre na história deste clube como um grande timoneiro. O treinador que voltou a acordar este monstro que estava quase em hibernação. O treinador que nos fez acreditar. O treinador que nos fez sonhar. O treinador que nos fez voltar a ser felizes a apoiar o Vitória. Acima de tudo (e por mais que me queiram fazer recordar os desaires desta época), Pedro Martins será a pessoa que criou a simbiose perfeita entre jogadores e adeptos, a pessoa que nos fez voltar a sentir parte integrante de algo muito superior a nós. A pessoa que nos deu o nosso Vitória de volta.

Por isso hoje, enquanto sol se atreve a aparecer por entre as nuvens e a alvorada promete pôr um fim a esta noite longa, escura e cheia de terrores, eu vou ter de terminar esta crónica da mesma forma que terminei o dia no Jamor. A dizer a Pedro Martins Obrigada. Obrigada por nos ter dado o nosso Vitória de volta. Para mim, o eterno não tem data de limite e não está condicionado pelos episódios posteriores a tal afirmação. O agradecimento é eterno e Pedro Martins será sempre assim lembrado por mim (e tenho a certeza que por muitos vitorianos).

 

P.S.:. Quanto a nós, aqueles que estão na bancada, aqueles que me fizeram sentir a pessoa mais feliz do mundo por estar a cantar 5 horas debaixo de chuva na sua companhia, aqueles que, pela primeira vez na minha vida, me fizeram sentir parte integrante de algo, me fizeram sentir que eu pertencia em algum lado (naquela bancada): podemos, por favor, voltar a ser uma família e UNIDOS elevar o Vitória (o grande amor da nossa vida) sempre e mais alto?

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.