Hino(centes)

Fomos confrontados, nos últimos dias, com declarações, no mínimo, lamentáveis, proferidas pelo antigo presidente da confederação dos industriais e, actualmente, presidente do fórum para a competitividade.

“As empresas têm dificuldade em contratar, porque o Portugueses não querem trabalhar”, foi a frase de quem se sente no direito de dizer coisas. O senhor Costa sabe (tem obrigação de saber) que, os trabalhadores Portugueses, por essa Europa fora, são considerados dos, senão os melhores. Porquê? Perguntará o senhor Ferraz.

Porque, salvo raras excepções, as empresas já aprenderam, há muitos anos, que trabalhador feliz trabalha com gosto e produz mais. Enquanto os empresários não colocarem a sustentabilidade da empresa, remuneração e condições de trabalho dignas, em primeiro lugar, terá dificuldade em contratar. Está nos livros!

Empresários de mentalidade balofa, vindos das profundezas da ditadura e acolitados por capatazes, tão corruptos como eles próprios, que vêem no trabalhador um escravo, nunca serão o futuro, seja em que área for.

No entanto, para que esta espécie subsista, tem de ter chão, ou seja, tem de ter quem se submeta às condições impostas, através de políticos e políticas e em conivência com bancos e banqueiros da mesma índole.

É confrangedor assistir à inércia e passividade dos trabalhadores, perante a humilhação a que são sujeitos, preferindo trabalhar mais horas ou arranjar um segundo emprego, do que reivindicar um salário justo. Os mesmos trabalhadores que, em diversas “frentes”, são instigados a idolatrar figuras e figurões, feitos de barro ou ferro, montados em pedestais e colocados em locais estratégicos.

A ofensa, porque foi isso mesmo, o que o senhor Ferraz da Costa proferiu, não passaria incólume, se houvesse um pingo de dignidade, no seio dos ofendidos.

Os cânticos, as bandeiras e os emblemas, cantados e exibidos em grupo, tem o condão de inibir o pensamento e, consequentemente, levar à passividade com que “engolem”, tudo o que lhes ministram.

Individualmente, Ferraz da Costa não passa de mais um sujeito como outro qualquer.

O problema está na comandita a que ele deu voz, na seita muito bem organizada, que vai tendo espaço de manobra, perante um povo que se deixa empolgar, apenas com adulações tão fúteis como inúteis.

É tempo de acordar!

Joaquim Teixeira é militante do Bloco de Esquerda e é sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.