Nada os teus problemas para longe.

Poucas coisas são melhores do que mergulhar numa piscina aquecida. Abaixo da linha de água e no meio de uma substância quentinha que nos sustêm, estamos em silêncio e connosco mesmo. Poder-lhe-ia chamar a insustentável leveza do ser, porque por muito que não queiramos temos sempre de voltar à superfície.

Aqui nos países que se dizem civilizados e onde vivemos em paz podemos nadar os nossos problemas para longe e cansarmo-nos até que a única coisa que ocupe a nossa cabeça seja realmente a atenção à respiração. Podemos fazer posts no Facebook a dizer que uma segunda-feira é semanalmente uma tragédia e dançarmos de felicidade por chegarmos à sexta-feira, e por dois dias, não estamos preocupados em produzir mas apenas em desfrutar.

Há pessoas que, tendo nascido humanos, como nós, não pode reclamar de ir ter de ir trabalhar à segunda-feira. Há pessoas que adoravam ter ir trabalhar à segunda-feira.

Há pessoas que adoravam poder reclamar. É daquelas coisas que tem muito que se lhe diga, a liberdade. Há quem diga que é como a saúde, só lhe damos valor quando ficamos sem ela.

Neste momento, noutras latitudes há pessoas, humanas como nós, e a quem deveriam ser garantidos os Direitos Universais, quem vivem em experiências bizarras como a Coreia de Norte ou em permanente ocupação como a Palestina, aos olhos do resto do mundo. Ghoutta, na Síria, tem sido palco de bombardeamentos constantes e a sua população vítima de gás Sarin. Espera, deixa-me mudar de canal que isto está a estragar-me a minha vibe.

É uma pena que os sírios não possam pegar num comando e mudarem de canal, mas também não são bem pessoas – num outro universos paralelo são apenas peões de uma partida interminável de Risco na comunidade política internacional, que se entretêm a discutir estratégias de geopolítica.

Pessoas, como nós, reféns do local onde nasceram e da situação política em que se encontram. Pessoas, como nós, que se ousam tentar fugir do país onde nasceram são tratados como criminosos.

O ser humano é a maior força destrutiva existente. Se pudesse falar com alguma entidade divina, pedia-lhe que, por favor, que se desse um processo de “desevolução”, e voltamos-se a ser bactérias que vivem no fundo do mar – e a paz voltaria ao planeta Terra.

Luísa Alvão, 33 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha como programadora e produtora do Shortcutz Guimarães. É também fundadora e presidente da Capivara Azul – Associação Cultural.