Alarmismo versus Protecção

Depois de muitas negociações, de muitos textos de opinião, de alguns estudos e sobretudo de anos e anos de má experiência nos fogos florestais, 2018 acorda com a necessidade imperiosa de se limpar a floresta. Ouvimos todos os dias nas nossas televisões a obrigação de se proceder à gestão de combustível. Até o primeiro ministro António Costa se ofereceu para ir para o terreno limpar as matas por ser a única forma de minimizar a possibilidade de incêndios no Verão que se aproxima.

A lei de 2006 que ficou esquecida, pelos diferentes governos, entre os quais aquele de que António Costa fez parte e o actual, é agora vista como a solução para colocar o país a prevenir os incêndios. Da noite para o dia começamos todos a questionarmo-nos se teriamos um pedacinho de terra em alguma aldeia de Portugal, com medo que as multas nos cheguem. Da noite para o dia começamos a olhar para os nossos jardins e hortas e forma diferente, talvez possam ser um problema!

Alarmou-se a população, enviando mensagens com ameaças de coimas caso não se cumpra a limpeza exigida. E este ano são a dobrar,  dizem-nos!

Por isso, toca a cortar tudo. Toca também a aumentar os preços deste serviço porque não há mãos para chegar a todos os fregueses e a data limite é curta.

Assim, o alarme que se esperava com uma roupagem mais parecida com a consciencialização de como proteger floresta, casas e bens, apareceu como uma arma apontada à cabeça de todos os portugueses, esses prevaricadores que não souberam cuidar dos seus terrenos.

Ora, esta não é solução para que as populações sejam capazes de aprender a lidar com o fogo quando ele chega. Não é solução explicar que se deve limpar a 10 metros das casas e que se deve evitar ter vegetação muito inflamável ou que se queime com facilidade, entre outras.

É urgente, isso sim, a ligação dos responsáveis com as populações, principalmente as populações rurais que residem em zonas prioritárias e que necessitam de ser apoiadas não só financeiramente mas também no esclarecimento das possibilidades económicas que a floresta pode gerar. Explicar que uma floresta autóctone é mais resistente ao fogo e que pode ser até uma fonte de rendimento de maior qualidade.

Passamos para o desespero da solução imediata com a ameaça da coima. O medo leva as pessoas a actuarem de forma irrefletida e o que temos assistido é ao corte cego de árvores, sem fiscalização, sem ponderação só para responder ao alarme custando a sustentabilidade à volta das suas casas e das suas aldeias.

Não vos digo que não é necessário limpar as florestas, responsabilizar os proprietários, acordar todos para as questões da floresta, mas é também responsabilidade do governo resolver o vazio que foi sendo alimentado ao longo dos anos, no que diz respeito, à floresta.

Os incêndios de 2017 foram assustadores. Arderam centenas de milhar de hectares de terreno, perderam-se vidas, muitas vidas, e porque 600 ignições num só dia é uma imagem assustadora de um país a arder.

Não é necessário cortar todas as árvores e vegetação perto das nossas casas, não é necessário esvaziar o jardim para evitar o fogo, até porque as fagulhas que se instalam nas telhas são as maiores responsáveis pelos incêndios nas habitações. E os emails ou as SMS que a Autoridade Tributária andou a enviar aleatoriamente não passam de um alarmismo desnecessário e sem qualquer responsabilidade pedagógica.

O governo responsabiliza, hoje, os municípios e os proprietários sem dar instrumentos para que se evolua nesta questão das florestas e para que se consigam combater definitivamente os frequentes fogos florestais de Verão.

A limpeza tem que ser feita com respeito pela natureza. Não cortar as espécies autóctones, não cortar espécies protegidas, como por exemplo os sobreiros, não cortar espécies com valor patrimonial, nem cortar árvores de frutas.

Defendamos a floresta. Toda. E todos!

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.