Não pode ser fado, nem destino.

Passado o pior momento da crise que assolou o mundo, a Europa e de forma violenta o nosso país, apesar da euforia dos políticos, os estudos e os números dão-nos conta de uma realidade diferente. A crise veio agravar desigualdades que já eram uma marca de Portugal porque o Estado não fiscalizou o sistema financeiro, as instituições e os sinais exteriores de riqueza. Um Estado que tem deixado que alguns enriqueçam, enquanto as novas gerações ficam comprometidas a lutar contra a precariedade e os idosos não são recompensados por uma vida de sacrifícios.

O Observatório Português dos Sistemas de Saúde aponta o descontentamento dos profissionais e as dificuldades de acesso dos portugueses a um sistema de saúde com custos incomportáveis. As desigualdades no acesso são de natureza muito diversa: territorial, de género, de estatuto socioeconómico, geracional.

Os professores estão envelhecidos, desmotivados e descontentes com o rumo das suas carreiras. Uma boa parte dos alunos não reconhece a importância de estarem na escola, acabam a escolaridade obrigatória sem desenvolverem as competências que hoje são necessárias para enfrentar a vida, para a gerir e para se integrarem num mercado de trabalho cada vez mais exigente e competitivo.

Os jovens emigrantes são mais jovens, mais qualificados e com maior taxa de emprego do que a população residente em Portugal. Embora seja uma realidade que estão espalhados pelo mundo, a sua presença na Europa é muito forte e distribui-se por todo o tipo de países. Por muita saudade que tenham, o mais certo é que não irão regressar definitivamente a um país que mal conhecem.

É muito triste constatar que os jovens portugueses tem expetativas e viajam mais para fora do que no nosso país. É inegável a influencia que o Erasmus+ e os programas que o antecederam, bem como o low cost, trouxeram para a mobilidade juvenil e não só. Estas oportunidades são verdadeiras para os portugueses, como para os restantes jovens que escolhem o nosso país para estudar, fazer voluntariado ou intercâmbios.

Com uma experiência de sucesso como esta só falta transpô-la para a realidade interna do país. Uma grande maioria dos jovens portugueses nunca visitou Lisboa. As raízes falam mais alto quanto mais se conhece e se ama o país onde se nasceu. Este é o esforço que é preciso fazer com os jovens que ainda estão na escola, inventando novos programas de intercambio entre escolas, rentabilizando os recursos que existem espalhados pelo país, recuperando outros que podem vir a ser fundamentais para travar este movimento para o litoral e para as grandes cidades.

O Núcleo de Observação Social da Cáritas Portuguesa divulgou, esta semana, as conclusões do estudo europeu “Os Jovens na Europa Precisam de um Futuro” onde são evidenciadas as dificuldades dos jovens portugueses transitarem para uma vida adulta autónoma, com salários que lhes permitam ter o seu próprio espaço para viver. Esta é também uma geração que corre maior risco de pobreza e que, mesmo entre ao mais qualificados, não tem rendimentos para constituir família com todos os custos que daí decorrem.

O Observatório das Desigualdades acrescenta outras franjas da população cuja situação se agravou: os desempregados, os imigrantes, os poucos escolarizados, as mulheres.

No mais recente Relatório publicado pela Comissão para a Igualdade de Género há números que nos devem deixar seriamente preocupados: em cada 100 pessoas sem nenhum nível de escolaridade, 71 são mulheres e 29 são homens, as mulheres trabalham mais horas e têm salários mais baixos.

A maior diferença verifica-se na presença e na conclusão do ensino superior mas é uma minoria que lá chega. Todas as outras as que não têm a escolaridade obrigatória muito dificilmente conseguirão ultrapassar esta desvantagem que as vai acompanhar ao longo da sua vida porque a partilha de responsabilidades parentais e a disponibilidade para a formação lhe estão vedadas. Este cenário não nos pode deixar indiferente.

Uma mudança de atitude em todos os domínios da vida em sociedade tem que ser estimulada. Os decisores não podem adiar politicas e medidas, os cidadãos não podem continuar a ser mero recetáculo das mesmas ou agir por meros interesses corporativos. Exige-se uma consciência nacional despudorada e interveniente, que seja uma verdadeira alavanca para nos tirar desta cauda em que nos habituamos e acomodamos a estar. Não pode ser fado, nem destino.

Luísa Oliveira, licenciada em Serviço Social , formadora e consultora. Presidente da Cooperativa Desincoop – Desenvolvimento Económico, Social e Cultural, CRL da qual é fundadora, iniciou  a sua intervenção politica como deputada municipal e anos mais tarde como vereadora da Câmara Municipal de Guimarães.