As vitorianas não usam cor-de-rosa

Uma Mulher é Humana.

Ela não é melhor, mais sábia, mais forte, mais inteligente, mais criativa ou mais responsável do que um Homem.

Da mesma forma, ela nunca é menos.

Uma Mulher é Humana”.

– Vera Nazarian

Como em muitos estádios da vida, o futebol sempre foi considerado como pertencente aos homens: é, afinal, um mundo historicamente dominado por jogadores do sexo masculino, dirigentes masculinos, comentadores masculinos e apoiantes masculinos.

Mas isso está a mudar!

Quando o Vitória marca um golo, a multidão explode e a emoção pura inunda o espaço. Os vitorianos celebram ou deprimem juntos numa experiência compartilhada. Os estádios de futebol são espaços excitantes, acolhedores e seguros para todos – não apenas homens, para as mulheres também (este ano ficará para sempre marcado pela primeira vez em que as mulheres da Arábia Saudita puderam assistir a um jogo de futebol ao vivo, por exemplo).

Nesta semana em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, achei que era relevante, tentar entender onde é que, na minha vida, eu perpetuo a desigualdade (todos acabamos por fazê-lo e, na maioria das vezes, sem sequer nos apercebermos). Sendo esta crónica focada no Vitória, tentei entender onde é que, no Vitória, nós perpetuávamos a desigualdade de género. E a constatação foi que no seio vitoriano as coisas não estão assim tão más, mas ainda há muito que podemos melhorar.

Tenho certeza que durante esta semana, muito ouviremos falar em igualdade de género (ou equidade de género, igualdade entre os sexos, entre outras variantes). A expressão estará em todo o lado, mas afinal, ao que se refere?

Igualdade de género é um conceito que define a busca por equivalência social entre homens e mulheres, ou seja, mesmos direitos, mesmos deveres, mesmos privilégios e mesmas oportunidades de desenvolvimento.

A pergunta que vos coloco hoje é: existe igualdade de género no Vitória?

Em várias áreas claramente não.

Basta olharmos para os cartazes que decoram o Toural por uns segundos para nos apercebermos que as listas concorrentes aos órgãos sociais do Vitória têm (cada uma) apenas 3 mulheres na sua composição (num universo de 23 (lista A) e 21 (lista B) elementos); neste momento temos apenas uma mulher nos órgãos sociais do Vitória (nenhuma mulher na Direção do Clube ou na Direção da SAD). A representatividade feminina no universo vitoriano será assim tão pequena? Seremos nós mulheres pouco envolvidas na vida do clube? A resposta a estas duas perguntas é obviamente não.

Mas afinal o quê que está a faltar? Iniciativa? Espaço? Tempo? Oportunidade?

Não tenho as respostas, mas penso que será importante tirarmos algum do nosso tempo esta semana para refletirmos sobre isto.

Se ao olharmos para o Toural neste momento ficamos um pouco desiludidos, basta-nos subir um pouco pelas ruas da nossa maravilhosa cidade e encontraremos Mumadona Dias a olhar orgulhosamente para o Castelo e a servir-nos de eterna inspiração.

Afinal de contas, da mesma maneira que somos o Exército de D. Afonso Henriques, também somos descendentes de Mumadona Dias, a Mulher mais poderosa do Noroeste Peninsular no seu tempo.

  1. Afonso Henriques pode ter sido o Primeiro Rei de Portugal, mas Mumadona Dias foi a fundadora de Guimarães ao mandar erguer o Mosteiro em honra de Santa Maria e o Castelo. Por toda a cidade berço há marcas do seu poder e da sua dedicação a esta nossa pequena pátria. Esta cidade começa com uma Mulher e nós temos o dever de dar continuidade aos seus ensinamentos. No tempo de Mumadona Dias não existiam Hashtags, mas tenho a certeza que se houvessem, #OrgulhosamenteVimaranense #100%Vimaranense e #IgualdadeDeGénero seriam usadas com frequência nas suas redes sociais.

Continuando no Vitória, nenhum dos treinadores das equipas profissionais/seniores é mulher, não temos futebol feminino (aparentemente é algo que vai mudar nos próximos anos – se isto se tornar uma realidade, por favor, dêem-me o prazer de nomear a academia Mumadona Dias), não temos equipas femininas em várias modalidades, não me parece que exista paridade de mulheres e homens entre os funcionários do clube; mas no que diz respeito a adeptos (aquele aspeto do Vitória que sempre me fascinou e continua a fascinar), acredito que podemos dizer que estamos no bom caminho para que aí exista igualdade de género. 

“Tanto os homens como as mulheres devem sentir-se livres de serem sensíveis. Tanto os homens como as mulheres devem sentir-se livres de serem fortes… Está na hora de todos percebermos o género como um espectro e não como dois conjuntos opostos de ideias”

– Emma Watson.

Sinto-me orgulhosa por fazer parte de um clube que consegue perceber e colocar em prática este conceito. Quando estamos a apoiar o Vitória, nenhum Homem se sente mal por mostrar os seus sentimentos e nenhuma Mulher se sente obrigada a cumprir uma série de comportamentos estipulados pela sociedade como “adequados para mulheres” (se eu disser uma palavra impudente durante um jogo, ninguém ficará a olhar para mim como se estivesse a cometer um crime). Ali, nas bancadas do D. Afonso Henriques, não há homens nem mulheres, há vitorianos que apoiam o seu clube incondicionalmente.

As vitorianas não vestem cor-de-rosa, ou pelo menos tal não lhes é constantemente impingido. As camisolas e cachecóis do Vitória são unissexo e os produtos criados para o público feminino focam-se mais no corte diferenciado do que em cores “mais femininas”. O preto e o branco são constantes em todo o merchandising do clube, independentemente da faixa etária ou género a que se destinam.

Os tempos estão a mudar (e para melhor). Esta época, pela primeira vez na história do nosso clube, os lugares anuais tiveram preços iguais para mulheres e homens (em todos os sectores do estádio). Admito que pensei que isso fosse criar algum tipo de contestação, mas foi com agrado que vi esta medida a ser aceite com normalidade por parte dos adeptos vitorianos.

Torna-se agora imperativo que essa realidade seja aplicada às categorias de sócios. Não há nada nos estatutos que estabeleça categorias por géneros (sempre me disseram que sim e esta semana eu reli os estatutos do Vitória mais de 20 vezes em busca de tal informação, mas não há qualquer referência a isso). As atuais categorias de preços de quotas foram definidas em Assembleia Geral e está mais do que na hora de serem revistas (também em Assembleia Geral).

Entendo que noutros tempos o valor de quota mais baixo para as mulheres funcionasse como uma estratégia de marketing para atrair as mulheres ao estádio, mas nós já estamos no estádio. Nós amamos futebol, nós amamos o Vitória, nós apoiamos o Vitória. Igualdade de género não é privilegiar o sexo feminino! Não somos mais, nem menos vitorianas do que os homens, portanto o valor mensal que pagamos para ser sócias do clube que amámos também não devia ser diferente.

A igualdade de direitos entre homens e mulheres ainda não é uma realidade, ainda há muito para fazer nesse sentido, ainda há muitas lutas que as mulheres terão de travar (e os homens – porque, cada vez mais, os homens vêm a luta pela igualdade de género como uma luta que é de todos). As quotas do Vitória não são o caso mais preocupante; a igualdade dos valores das quotas de homens e mulheres no Vitória não vai mudar o mundo, mas é com pequenas atitudes de cada um no seu dia-a-dia que conseguiremos tornar a igualdade de género uma realidade e o Vitória tem o dever de dar o exemplo.

Bom Dia Internacional da Mulher para todos. E lembrem-se de duas coisas: o lugar da mulher é onde ela quiser e igualdade de género não é sinónimo de privilégio; a Mulher não é mais, nem menos do que o Homem, somos todos Humanos!

P.S.: As vitorianas usam cor-de-rosa (e todas as cores que lhes apetecer). O título desta crónica é apenas uma crítica à estranha tendência que os clubes têm de produzir merchandising cor-de-rosa dedicado exclusivamente ao seu público feminino. Desculpem, mas da mesma maneira que eu não preciso de uma caneta especial para mulheres para escrever (modo irónico ligado – sim BIC, ainda estou extremamente agradecida pelo momento em que colocaram uma caneta para mulheres no mercado pois nós mulheres não podíamos continuar a escrever com aquelas canetas masculinas – modo irónico desligado), eu também não preciso de um cachecol cor-de-rosa para torcer pelo Vitória (amo o meu preto e branco)!

P.S.2.: Antes que perguntem, o Dia Internacional do Homem celebra-se a 19 de Novembro. Permitam-me servir-me desta crónica para pedir desculpa por não ter desejado um bom Dia Internacional do Homem nessa altura (para se sentirem um pouco melhores, o Dia Internacional do Homem foi fantástico para todos os vitorianos: nesse dia fomos tão felizes na Vidigueira).

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.