É “apenas um jogo”

Ser Vitoriano esta época não é uma tarefa fácil. Passamos da equipa promissora que ficou em quarto lugar no campeonato, chegou à final da Taça de Portugal e estava preparada para conquistar a Europa, para a equipa que conseguiu encontrar quase todas as semanas, uma forma diferente de nos dececionar. Cada derrota consegue doer um pouco mais do que a anterior (e o pior disto tudo meus caros companheiros de luta, é que isto ainda não acabou).

O almoço de domingo ainda não desceu. Há um grito de revolta entalado no peito que ainda me mantém um ser insuportável. Este Domingo a minha Mãe não almoçou com a sua filha: almoçou com um ser irritado e irritante que respondia monocordicamente. Após uma dessas respostas ouvi uma das coisas que mais detesto que me digam após uma derrota: é “apenas um jogo”.

Como assim, é “apenas um jogo”?

O futebol é apenas um jogo. Facto. Tal como qualquer outro desporto. Mas o que queremos dizer quando dizemos é “apenas um jogo”? Que o futebol não é a coisa mais importante na vida, que é ridículo ficar chateada com o resultado de uma competição desportiva entre milionários? Isso é óbvio, mas, no entanto, este mantra é repetido todos os fins-de-semana nos estádios e cafés por todo o país, mesmo entre os adeptos intransigentes (às vezes até entre os treinadores e os próprios jogadores).

Como é que um jogo de futebol do Vitória consegue ser, ao mesmo tempo, tudo e nada: uma obsessão vimaranense, um ponto focal das nossas vidas, e ainda assim tão trivial que se espera que recuperemos de uma derrota no momento em que saímos do estádio ou desligamos a TV?

Para não-adeptos, a resposta é óbvia: o futebol é realmente trivial e um flagelo cultural da nação. Para os adeptos/sócios do Vitória (e dos outros clubes também), a resposta é um pouco mais complicada. “Apenas um jogo” é um analgésico que engolimos para aliviar a dor de perder, mas isso perpetua a noção de que o futebol é verdadeiramente trivial – e, uma vez que aceitamos esse argumento, é difícil não nos sentirmos como completos idiotas por nos preocuparmos demasiado com isso.

Não sou tão louca ao ponto de achar que o que acontece no relvado é tão importante quanto as incontáveis crises de vida e de morte que acontecem todos os dias, mas para mim é difícil compreender por que depreciamos as intensas experiências emocionais que temos como adeptos, quando noutros contextos consideramos essas mesmas emoções – lealdade inabalável, entusiasmo desenfreado – como entre os aspetos mais importantes e profundos de ser humano.

Dizer a um vitoriano desanimado que “é apenas um jogo” é assim tão diferente de dizer que “é apenas arte” para alguém que chora por um ótimo filme ou fica admirado diante de uma pintura magnífica? É realmente assim tão diferente de dizer que “é apenas um relacionamento” para alguém no final de uma relação? Talvez. Ou talvez o futebol não seja apenas um jogo. Talvez o vínculo de um adepto com uma equipa, por mais unidirecional que seja, esteja profundamente enraizado na psique e deva ser respeitado e valorizado da mesma forma que respeitamos e valorizamos outros poderosos laços emocionais. Talvez não exista tal coisa como “apenas” nas questões do coração.

A evidência do poder do vínculo entre os adeptos e a sua equipa de futebol pode ser encontrada não só nos estádios, mas também na literatura científica, que revela que os adeptos experimentam surtos hormonais enquanto assistem a jogos. Mas para o adepto, as origens das emoções não interessam. O que interessa é o sentimento; o sentimento de estar intensamente vivo de uma maneira que poucas outras experiências na vida moderna podem oferecer; a sensação de entrar no estádio e (vi)ver o jogo como se seu próprio destino estivesse conectado ao resultado de cada jogo.

O que quer que esteja a acontecer nos nossos cérebros quando apoiamos o Vitória é real e poderoso e não pode ser aniquilado por uma frase falsa.
Estou a dizer tudo isto porque quero ser levada mais a sério na próxima vez que eu disser que estou chateada porque o Vitória perdeu? Obviamente. Mas é mais do que isso. Eu não quero sentir-me estúpida por valorizar tanto o Vitória. Ser vitoriano hoje já é um sofrimento demasiado forte. Não devemos ter que nos envergonhar do nosso sofrimento.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.