Bipolarizar

Com a realização do congresso do CDS, depois de o PSD ter feito o mesmo, verifica-se uma clara tendência de limpar o passado recente, por parte dos dois partidos, num tácito e envergonhado reconhecimento, dos excessos praticados no anterior governo.

Os “social-democratas”, depois de em 2015 terem perdido a possibilidade de formar governo, ficaram baralhados com a candidatura de Assunção Cristas, à Câmara de Lisboa e mais estonteados ficaram, com a humilhante derrota infligida, não só pela esquerda, mas pela própria ex-companheira de governo, numa descarada declaração de divórcio.

No PPD-PSD, o candidato Santana Lopes, durante a campanha e mesmo depois de mais uma derrota, continua a encher a boca com Sá Carneiro. Provavelmente, com o passar do tempo, esqueceu a origem política do seu ídolo. Fazia parte da União Nacional e por parte dele, ainda estaríamos debaixo da ditadura.

Rui Rio tenta distanciar-se do que foi a acção política, do governo de Passos Coelho mas, desde o congresso, não pára de levar pancada, ora por parte da equipa que escolheu, ora pela titubeante aproximação ao PS.

O objectivo é, manifestamente, voltar a um passado de má memória, em que os dois partidos foram responsáveis, pela situação que hoje vivemos.

Com a cumplicidade do CDS, um partido que sempre se disponibilizou para rapar tachos, fosse com quem fosse, aqueles partidos passaram cerca de quarenta anos a repartir, pelos seus sequazes, a pilhagem que hoje se vai conhecendo.

Portanto, esta tentativa de aproximação, não é inocente e tem como principal objectivo, a restauração do chamado “arco do poder” e, consequentemente, afastar o PS da esquerda, comprometendo-o com políticas de direita.

No seio do PS, não falta gente infiltrada que está, definitivamente, no lado errado da barricada. Ao apresentar-se ao eleitorado, nas legislativas de 2019, António Costa não o pode fazer, apenas por uma questão de sobrevivência política.

Os acordos à esquerda, assinados em 2015, tem de ir mais além, serem mais abrangentes e mais exigentes com toda a sociedade, mudando de rumo relativamente ao bem-estar dos Portugueses.

O combate à corrupção, esteja onde estiver; a devolução da dignidade ao trabalho e a quem o executa; Combater as desigualdades sociais, onde uns são filhos e outros enteados.

A pressão, vinda de sectores do próprio PS e da extrema-direita, será feroz e tudo fará, recorrendo a todos os meios para denegrir o trabalho feito.

Também em Guimarães, vão-se realizando eleições para algumas concelhias e notam-se alguns sinais que, mesmo ao de leve, podem tornar-se preocupantes. Aguardemos a definição desses sinais! 

Joaquim Teixeira é militante do Bloco de Esquerda e é sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.