As sequelas das guerras coloniais

comercio de Guimaraes FAUma notícia recente dava-nos conta do voluntarismo de um português, ex militar a viver em Angola, que, tocado por sentimentos de um doloroso passado militar, resolveu fazer algo para devolver dignidade à memória de uns quantos que “deram a vida pela pátria” e que esta abandonou e depois esqueceu. Não consegui obter pormenores da sua atitude, mas vislumbrei as imagens da mata angolana e numa clareira coberta de capim vi o autor deste ato a afastar com as mãos as altas ervas ressequidas.

Mostrava varias sepulturas, algumas com identificação dos jazentes soldados portugueses, votados a décadas de esquecimento, não pelos seus, mas por quem tinha o dever de lhes dar morada condigna.

À data, o governo português não repatriava os militares mortos e os seus familiares, normalmente gente simples, não tinham recursos para trazer de volta os seus entes queridos, ainda que sem vida.

Para as gerações que nas décadas de 60 e 70 do século passado partiram como combatentes para as ex colónias, estas notícias provenientes de uma iniciativa individual, altamente louvável, mexem ainda com aqueles que viveram a experiência do teatro de guerra e também com os familiares. Avivam-se memórias, profundamente dolorosas para todos e, sobretudo, para aqueles que não conseguiram fazer o luto, bálsamo escasso, mas apesar disso absolutamente necessário para atenuar tamanha dor.

É de louvar as iniciativas assumidas pela Liga dos Combatentes que apoiam as famílias que procuram resgatar os restos mortais dos seus familiares, numa tentativa de minimizar a dor causada pela perda e também pela insensibilidade pela forma como lhes foi dada a notícia, tantas vezes adulterada, da tragédia que tirou a vida a um dos seus.

O regime de Salazar, como em tudo o resto, era frio, insensível, distante, sem qualquer laivo de respeito pelos que tombaram numa guerra injusta e sem sentido. Sacrificou até à exaustão os recursos humanos e materiais do país e de um povo bom, mas inculto como lhe convinha, e permanentemente sofredor. E foi com profundo desprezo que tratou aqueles que perderam a vida na guerra que alimentou com a força e, tantas vezes, o sangue dos nossos jovens. A censura, imposta à comunicação social da época, enfatizava a guerra do Vietname e, estratégica e malevolamente, escondia o que se passava nas ex colónias. As gentes simples, adormecidas pela ignorância imposta sobre a matéria, conformavam-se, calando a dor, cada vez que um dos seus partia.

Como se não bastassem as marcas físicas, psíquicas e emocionais que a guerra deixou nos ex combatentes que regressaram com vida, e de quem não se cuidou, há ainda cerca de mil e quinhentos restos mortais deixados para trás pelo desprezo do regime, em terras de Angola, Moçambique e Guiné. Não se cuidou dos vivos e não se cuidou dos mortos, nem antes nem depois.

Era expectável que a guerra que os portugueses travavam em África, tal como acontecera algumas décadas antes com outras potências colonizadoras, bem mais poderosas do que Portugal, não conduziria ao objetivo que o poder político de então, teimosamente, perseguia. O tempo dos colonizadores finava-se e, ainda que com lutas fratricidas, porventura bem mais sangrentas do que as coloniais, os povos africanos construíram a sua História, independentemente do que aconteceu noutros países antes colonizados.

O país adormecido e fechado sobre si mesmo, “orgulhosamente” só e sem aliados, despoletou num grupo de jovens oficiais, mais avisados, conhecedores do potencial militar dos movimentos de libertação, a necessidade de mudar o rumo à História. E a História mudou numa madrugada de abril.

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