Júlio Mendes: “Queremos ultrapassar a volatilidade do clube”

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O candidato da lista B acredita que a equipa e que o seu projeto é capaz para acabar com as oscilações classificativas ao longo da história do clube e também nos seus dois primeiros mandatos e de ter uma equipa mais próxima dos vitorianos daqui a três anos. Além de ter dito que a situação financeira já não é, atualmente, um problema para o clube, o rosto do movimento ‘Contigo Vitória’ adiantou existirem “dois dossiers” em equação para novo investimento na SAD e considerou fundamental a nova academia, em Silvares.

Por Tiago Mendes Dias

A recandidatura

Seis anos depois de ter assumido a presidência do Vitória, recandidata-se a um terceiro mandato. Quando é que começou a ponderar a hipótese de se recandidatar? A decisão mereceu uma longa reflexão? O que o motivou?

É um processo de maturação, que nunca se faz de um dia para o outro. Estamos a falar de um clube como o Vitória, que acarreta responsabilidades enormes. Tive a oportunidade de dizer, em setembro, que precisava de refletir, e que anunciaria a decisão em fevereiro, se sentisse que o Vitória ainda fazia sentido, e que nós, como equipa, ainda faríamos falta ao Vitória para continuar a consolidação e o crescimento. Estabeleci o mês de fevereiro, porque o mês de janeiro é sempre um mês de transferências e qualquer decisão antes teria sempre um impacto suficientemente grande para perturbar a época.

Desde o início quis contar com a mesma equipa que o acompanha na direção ou ponderou alterações no elenco. Exigiu muita discussão a constituição da lista?

Não exigiu ponderação nenhuma. Temos um sentido forte do valor da lealdade. Quem quis continuar, continuou. Algumas pessoas não quiseram por motivos profissionais e pessoais. Outras, porque entenderam dar apoio ou até serem candidatos na lista opositora. Esse conjunto muito reduzido saiu. A maioria significativa, expressiva, continuou. Há outra nota importante aqui, a experiência. A experiência não se compra, nem pode ser desperdiçada. Faria todo o sentido que houvesse uma continuidade.

Candidata-se sob o lema “Contigo Vitória, somos mais fortes”. Que mensagem quer transmitir?

É uma mensagem contrária à lista que concorre connosco, de que não existem sócios de bancada, nem sócios de camarote. É um tratamento na primeira pessoa, no sentido de que somos simples, todos iguais. É um apelo a um sentido de união, que muito trabalho nos deu a construir. Somos todos vitorianos. 

Futebol e SAD

Em seis anos, a equipa principal venceu uma Taça de Portugal, disputou outras finais e esteve três vezes nas provas europeias, mas, no campeonato, tem-se revelado inconstante de época para época, alternando entre o quarto lugar da época passada, que incluiu o melhor registo de sempre fora de casa, e os décimos de 2013/14 e 2015/16, com algumas das mais longas séries sem triunfos da história do clube. Que balanço faz destes resultados?

O balanço não pode ser só olhar para esses resultados, senão vai-se falar de resultados que não nos satisfazem. Tem de ser de tudo o que se fez de bem e de menos bem. Estivemos aqui seis anos. Costumo dizer que em 6% da história do Vitória, foram disputadas por nós 50% das Supertaças, 30% das finais da Taça de Portugal foram disputadas por nós e 17% das presenças na Liga Europa. Apesar de tudo, fizemos um quarto lugar e um quinto lugar. Também fizemos lugares menos prestigiantes. Isto teve muito a ver com a escassez financeira que fomos vivendo. Para ter uma equipa competente, é preciso disponibilidade financeira, mas o que caracteriza o Vitória, ao longo da sua história, é esta irregularidade. É isto que temos de contrariar e construir num futuro próximo. Tendo estado cá o tempo suficiente para perceber melhor a realidade do futebol português e o contexto do clube, queremos ultrapassar essa volatilidade.

Já referiu que o Vitória tem sido um clube volátil ao longo da sua história. Considera que a causa para estas oscilações é estrutural ou podem ter havido causas diferentes para resultados semelhantes, quer positivos, quer negativos?

Essas situações são distintas da que hoje temos. Teve essencialmente a ver com a incapacidade em reter os nossos talentos. Todos os anos, tivemos de reconstruir um plantel, e, está bom de ver que a questão de recomeçar processos, recrutar novos jogadores, correndo o risco de acertar menos ou mais, teve muito a ver com a incapacidade em ter o dinheiro suficiente. Quando chega aqui uma proposta para um jogador importante da nossa equipa, que lhe vai dar dez vezes mais do que ganha aqui no Vitória, não há hipótese de segurar esses jogadores. Não há forma de manter motivado um jogador a quem se nega o salto para outra realidade. Sofremos muito disso.

E, na presente época, a razão para a equipa estar aquém dos objetivos definidos no seu arranque acaba por ser a mesma?

Nesta época, as questões são de outra índole, mas não me parece que seja o momento adequado agora para falar, visto que está ainda em curso a época em que saiu um treinador, em que houve uma construção que foi feita com esse treinador. Ainda há muito para fazer no campeonato. O Vitória é um clube que só quando não há mesmo já possibilidades de atingir os objetivos é que atira a toalha ao chão. Até lá, não a deixamos cair. 

Mas crê que a preparação desta época tem tido influência no rendimento atual?

Tudo teve: a preparação da época, as dificuldades de início de pré-época que o nosso treinador na altura teve, porque esteve arredado por questões de saúde. Um conjunto de lesões que fomos tendo ao longo de toda a época, em várias áreas ao mesmo tempo. Tudo isso teve um impacto que nos prejudicou. Mas, por exemplo, a participação do Vitória nas competições europeias teve algo de interessante, porque competimos num grupo difícil. As equipas que se apuraram foram o Salzburgo e o Marselha. São as duas e mais uma terceira da Liga Europa que estão nos quartos de final. Conseguimos um resultado interessante com o Salzburgo e fizemos melhor do que o Braga conseguiu com o Marselha. Isto não serve de prémio de consolação para ninguém. É nos erros que se aprende muito, e, portanto, estamos mais experientes e não vamos voltar a cometer os lapsos que tenham sido cometidos, sendo certo que o balanço se fará no final da época.

Informação sobre transferências: “Achamos mais interessante que alguma informação seja confidencial. Se algum dia, isso se tornar um imperativo divulgar tudo, teremos de o fazer”

Nos seus dois mandatos, o Vitória teve de vender jogadores praticamente em todas as épocas. As transferências de jogadores eram a melhor alternativa de que dispunha para assegurar a sua sustentabilidade? De todas as vendas que fez, houve alguma que superou as expetativas? E, pelo contrário, alguma onde sente que podia ter ido mais longe?

Eu entendo a questão do jogador poder valer mais ou poder valer menos. O valor pelo qual um jogador é transacionado tem a ver com duas questões, ou essencialmente com uma questão: com as regras do mercado. Há alguém que quer comprar um jogador e está disposto a ir até determinado ponto, e não tem mais dinheiro ou acha que o jogador em causa não vale mais do que o que está a ser proposto. Há sempre um confronto de interesses. Se o Vitória estivesse numa situação de dizer “por esse preço, não vendo”, se calhar teríamos feito melhores negócios, mas estávamos numa situação em que teríamos de forçosamente fazer negócio. Fizemos negócios por valores que não queríamos, tão só porque tínhamos uma dívida enorme para pagar, salários para pagar. Entre uma coisa e outra, tínhamos de pensar na continuidade do clube.

A opção de não divulgar a todos os sócios o valor relativo a cada uma das transferências realizadas é algo que tem sido questionado nestes últimos seis anos. Considera que essa política é a melhor para o Vitória, em termos de gestão? Que problemas poderia criar a revelação de todos esses valores?

Temos seguido uma estratégia de preservar alguma informação. Na última Assembleia Geral, prestamos toda a informação, tudo o que dizia respeito à parte económica, tudo o que dizia respeito aos jogadores que tínhamos, que tinham custado, que parte dos passes eram nossos, quanto é que pagamos de comissões, a quem pagámos, com toda a transparência. Aliás, o outro candidato votou o voto de louvor.

Nunca ponderaram revelar toda a informação das transferências?

Percebemos a curiosidade dos adeptos e que seja uma forma de avaliar o que se vai fazendo em termos de gestão. Tenho visto, na praça pública, exemplos de outras sociedades anónimas que revelam mais detalhes nos negócios, mas as pessoas esquecem-se que essas sociedades anónimas desportivas o fazem por obrigação, porque estão cotadas em bolsa. Se não o estivessem, muito provavelmente estariam a seguir a mesma estratégia que nós. Estamos a falar do grupo dos cinco maiores clubes. Dentro desse grupo, os outros quatro são SAD’s cotadas em bolsa, com obrigação de prestar informação, para não existir assimetria de informação entre acionistas. É uma obrigação que têm de cumprir. Se algum dia, um conselho de administração e o clube entenderem que é mais interessante que algum tipo de informação circule na praça pública para satisfazer algumas curiosidades, assim o faremos. Achamos mais interessante que alguma informação seja confidencial, mas estamos a desempenhar um papel ao serviço das pessoas que nos elegeram. Se algum dia, isso se tornar um imperativo, teremos de o fazer. Até agora, é uma opção estratégica, não sonegação de informação. Não vemos interesse nenhum, que não seja a mera curiosidade, de revelar alguns aspetos. Muitos até são técnicos. Vejo a discutirem a questão dos 100% do passe do Marega nas contas do Porto. Temos um contrato que nos garante 30% de uma mais-valia. Vivemos numa sociedade que tem uma desconfiança básica militante. É um aspeto cultural.

Em janeiro de 2017, iniciou um ciclo de 13 milhões de euros de investimento. Essa foi o momento em que o contexto financeiro deixou de limitar a aposta no futebol. Esse investimento é para continuar e até para aumentar?

Esse investimento tem a ver com todos os jogadores no nosso plantel. Na altura, foi interpretado de forma distorcida por algumas pessoas, porque pensaram que eu tinha passado um cheque de 13 milhões. Estamos a falar de investimentos no tempo, faseados. De igual forma, as vendas estamo-las a receber de forma faseada. É por isso que existe um passivo de 3,8 milhões de euros de jogadores que vendemos, mas ainda não recebemos. Não quero dar a ideia de que tudo vai ser possível. Vamos ser sempre ambiciosos e tudo faremos o que está ao nosso alcance para dar alegrias aos vitorianos, mas eu tenho dito: nunca prometemos títulos, mas conseguimo-los. Fizemos uma recuperação absolutamente exemplar e temos hoje uma situação muito diferente da de há seis anos.

A contratação do Welthon, neste último mercado de janeiro, por exemplo, não precisou de nenhum esforço financeiro adicional? Já estava contemplada no investimento previsto?

A outra lista tem dado a ideia de que, para se ter comprado o Welthon, se foi buscar fundos a algum lado, ou nos endividámos ou adiantámos dinheiro de um contrato televisivo. Isso é falso. Não precisamos de o fazer. As pessoas esquecem-se que estivemos numa competição europeia, que nos deu recursos financeiros adicionais. Não fizemos endividamento bancário. Não fizemos adiantamento de direitos televisivos. Alguns fizeram, porque já estão com novos contratos.

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O aumento de capital da SAD tem sido um dos focos que debate durante a campanha

Propôs duas opções de aumento do orçamento da SAD na apresentação do seu programa, no Centro Cultural Vila Flor. Uma prevê a subida do orçamento para os 10 milhões de euros, baseada nas receitas do contrato televisivo. A outra almeja os 20 milhões, com base num aumento de capital. Se a primeira opção é possível já na próxima época, a segunda quando o poderá ser?

Eu lembro-me de ter falado em duas opções. Uma era, em função de uma nova realidade que vamos ter, com direitos televisivos, continuar com o mesmo modelo – comprar jogadores, vender jogadores e alavancar isto. Ou seja, ter mais risco e reter menos os jogadores. Ou então, reter mais tempo os jogadores no plantel. É uma opção de gestão que vamos ter de fazer. Há um extremo, outro extremo e pontos intermédios. É ter um pouco mais de dinheiro, optar por não vender tanto.

Quando vai ser possível seguir a segunda opção de gestão?

Acredito que estamos mais próximos disso. Eu tenho evitado falar durante a campanha eleitoral em questões que estavam a ser tratadas e que têm a ver com a possibilidade de crescermos com novos parceiros. Há dossiers que estavam a ser trabalhados. Acabaram por vir a lume nestes últimos dias. Estamos mais perto dessa realidade, não tenho dúvidas, caso consigamos chegar a bom porto.

Que investidores tem em cima da mesa para o aumento de capital. Em setembro, o Banco de Minas Gerais surgiu associado à SAD do Vitória. É uma possibilidade? Há outras?

Não vou confirmar, nem afirmar. Por uma questão ética, não devo referir nomes de parceiros. Temos dois dossiers em que estamos a trabalhar. 

Quanto ao acionista maioritário, Mário Ferreira, espera que ele aceite o aumento de capital proposto ou até que o acompanhe?

O senhor Mário Ferreira esteve sempre disponível para acompanhar subidas de capital. As que fizemos, ele acompanhou. Ele sabe, porém, que há um limite de subida de capital, que não é interesse do clube e não é possível ser ultrapassado. Por isso, acho estranho que a lista A esteja a dizer que o senhor Mário Ferreira está disponível para acompanhar um aumento de capital de 20 milhões de euros, sendo que isso traduzir-se-ia num esmagamento brutal da situação do clube na SAD, com consequências devastadoras, porque abriria a porta a uma posição maioritária qualificada. Do ponto de vista jurídico, colocaria em causa um conjunto de questões colocadas nos estatutos, quando aprovámos a SAD em 2013. Os vitorianos aprovaram a SAD com aquelas salvaguardas, direitos de veto. O senhor Mário Ferreira sabe isso desde o início.

Futebol feminino: “Queremos fazê-lo na esfera do clube. Começar pela formação, não pelo telhado. As coisas têm de ser passo a passo, não a contratar jogadoras já feitas, numa lógica de insustentabilidade”

 Relativamente à política para o futebol, anunciou um acordo com os franceses do Paris Saint-Germain. Em que moldes vai funcionar? É semelhante ao que se fez há seis anos, com o Chelsea?

Falou-se do acordo. Eu não falei. Não queria falar sobre isso, porque acho que são questões que trazê-las agora à liça, antes das eleições, vai parecer combate eleitoral.

Relativamente à estrutura atual do futebol profissional? É para manter? Há algo a acrescentar?

É manter como está, mas é sempre preciso acrescentar algo. Quando chegámos cá, não tínhamos um departamento de ‘scouting’ e não tínhamos um departamento de análise. Não tínhamos equipamentos e software que hoje temos. Fomos crescendo no recrutamento e na análise das equipas adversárias. Há sempre caminho a percorrer, mas já estamos muito próximos do que fazem os melhores clubes.

Pretende manter a postura que tem demonstrado até agora no seio das instituições que regem o futebol português? Tem referido, na campanha, que precisa de estar mais próximo do ponto de vista do adepto…

Preciso. Tenho usado a expressão de “vestir mais o fato-macaco”, mas também não me vou transformar naquilo que não sou. Não vou defender causas, nem fazer ataques sem sentido. Uma presença mediática faz sentido, mas muitas vezes não a quis ter para não passar a ideia de um regime presidencialista, e até já fui acusado disso. Eu tenho defendido sempre os interesses do clube sem ser preciso andar aos berros, “andar de megafone” ou “pôr-me em bicos de pés” com ninguém. Já estive na direção da Liga. Tenho facilidade em falar com as pessoas e defender os interesses do Vitória. Se não tivesse capacidade em defender os interesses do Vitória, esses números, se calhar, não existiriam. Mas percebo que quem está de fora fique um bocado com a ideia de que isso não existe.

Que balanço faz de seis anos de equipa B? A equipa já serviu a equipa principal com 19 jogadores? Este número satisfá-lo? Há margem para melhorar?

Há sempre margem para melhorar. Aqui, temos um espírito das organizações mais modernas, da melhoria contínua, o de procurar sempre fazer melhor. Ao contrário do que dizem os nossos adversários, temos feito marcas do melhor na área da formação. Do grupo dos clubes da equipa B, somos o clube que mais jogadores aproveitou e mais jogadores promoveu nesta lógica de equipa B que foi criada e promoveu precisamente às equipas principais.

Já se mostrou favorável à criação da equipa sub-23. Que mais-valia a equipa pode trazer a equipa?

Traz a mais-valia de podermos tirar maior aproveitamento dos jogadores. Não nos podemos esquecer que os cinco clubes com equipas B na Segunda Liga vão continuar com equipa B na Segunda Liga e entrar na competição de sub-23. Não podemos perder espaço aí. Temos de estar na linha da frente. Tivemos de fazer aqui algumas análises. Achámos que isto ia comportar um aumento de custos muito grande, mas há aqui uma possibilidade de cruzamento entre os jogadores da B e os sub-23. Os que estão em escalões inferiores podem subir para a sub-23.

Não há o risco dos fins a que se destina coincidirem com os da equipa B? Além disso, a equipa é sustentável?

É possível ter contratos de amadores e salários inferiores. Tem toda uma lógica diferente, que há de ser tornada pública pela Federação. Somos uma marca nacional, e lá fora também, internacional na área da formação. Esta é uma oportunidade que não podíamos deixar passar.

Um dos objetivos traçados no seu programa é a criação de futebol feminino. Quando pretende ter a modalidade no terreno? A ideia é ter de imediato uma equipa sénior ou começar pela formação? Seria um desporto a integrar a SAD ou o clube?

A SAD tem futebol profissional. Está previsto de forma clara nos estatutos da SAD. O futebol feminino queremos fazê-lo na esfera do clube, tão cedo quanto possível, sendo certo que queremos começar pela formação, não pelo telhado. As coisas têm de ser passo a passo, ganhando experiência, não a contratar jogadoras já feitas, a correr atrás de títulos e entrando numa lógica de insustentabilidade. Queremos fazer isto com sustentabilidade, com crescimento e ganhar experiência. Quando poderá ser? Temos um projeto na candidatura, que é a extensão da academia. Ou lançámos mão de infraestruturas de outros clubes em Guimarães que possamos usar, ou então temos de ter o timing necessário para ter mais campos de treino com este projeto.

Passivo do clube: “O pagamento da dívida, se ninguém fizer asneiras, está garantido até ao final do período de restruturação, em 2029. Já não é um problema”

Finanças

Já foi mencionado várias vezes o difícil contexto financeiro em que a direção assumiu o clube, em 2012? Fazia então ideia do que ia encontrar pela frente quando assumiu a presidência?

Quando chegámos cá, vimos que o desafio ia ser bem mais complexo. Foi muito difícil. Tivemos de nos responsabilizar ao ponto de colocar em risco as nossas vidas profissionais e pessoais. Quando precisamos de inscrever a equipa profissional nesse ano, tivemos todos de assinar uma livrança em branco e responsabilizámo-nos pelas dívidas do clube. Quando nos acusam de falta de amor ao clube, pergunto-me se isto não é prova de amor ao clube.

O clube tinha 13 milhões de passivo corrente e 11 de não corrente, num total de 24, e um ativo corrente de 2,6 milhões de euros e um não corrente, baseado nas infra-estruturas, de 37,6 milhões.  O Vitória adotou um PEC para 15 milhões de dívida e teve de reduzir os gastos, baixando oito milhões de passivo na época 2012/13. Era a única, ou, pelo menos, a melhor solução possível para o clube se restruturar? Alguma vez, passou pela cabeça da direção alienar património para saldar as dívidas?

Tínhamos património suficiente para resolver, mas nunca esteve em cima da mesa alienar património. Isso não era uma opção, e estou convencido que não seria sequer aprovado numa Assembleia Geral do Vitória. Isso nunca esteve em cima da mesa. A solução que existia foi aprovar um PEC, que depois acabou por ter homologação judicial. Permitiu-nos estabelecer um acordo com um perímetro alargado de credores, de uma dívida que estava vencida. Lembro-me que, nos primeiros dias, tive de ir às Finanças, porque iam simplesmente cancelar todas as contas bancárias do Vitória. Isso significava que tudo o que entrasse nas contas ia diretamente para pagar os milhões que devíamos ao estado. As pessoas do IAPMEI não acreditavam que iríamos fazer no tempo recorde em que fizemos.

A conjugação entre os passivos do clube e da SAD tem sido um assunto muito debatido na campanha. Apesar do valor total rondar os 20 milhões, tem sublinhado que grande parte do passivo da SAD tem uma natureza diferente da do clube e que o ativo corrente supera o passivo corrente. Quanto ao do clube, está estabilizado? Em que momento da sua presidência o conseguiu? Por exemplo, no fim do primeiro mandato, o passivo do clube estava nos 12,6 milhões…

O clube tem o processo de regularização da dívida estabilizado. Já pagámos 15 milhões. No final do primeiro mandato, ainda não tínhamos uma situação financeira estável. Com o valor a que chegámos, pouco mais de nove milhões, o pagamento da dívida, se ninguém fizer asneiras, está garantido até ao final do período de restruturação, em 2029. Isto já não é um problema. O que é preciso é não fazer asneiras. A SAD tem que continuar a pagar suprimentos ao clube. Ainda temos 2,8 milhões. Paga uma renda ao clube. Recebemos rendas de outras iniciativas que temos. Já somos capazes de correr um plano financeiro que não nos preocupa.

A SAD deu lucro pela primeira vez no ano passado. Era algo que já esperava? Satisfez a administração?

Mais do que satisfazer a administração, é um sinal de boa gestão. Julgo que tivemos 2,8 milhões de euros de resultado líquido positivo, a par de uma época desportiva boa. Estamos aqui para fazer bem. Ficámos satisfeitos direção, quando se trata de clube. Ficámos satisfeitos administração, quando se trata da SAD. Ficámos satisfeitos por mais um passo no sentido da consolidação e da sustentabilidade.

O vice-presidente Francisco Príncipe referiu, num dos vídeos da campanha, que a direção pretende reduzir o passivo do clube para zero. Isto significa, dentro das atividades que o clube realiza, que não há nenhuma para a qual valha a pena contrair dívida?

Não vejo alguma utilidade para o qual possa ser feito. Hoje, as instituições financeiras olham para o clube como um dos mais estáveis do país, para não dizer o mais. Já não existe a incerteza no incumprimento. Existindo esta estabilidade, o que os credores querem é que corra o plano de pagamento.

Formação

Até agora, nesta época, 20 jogadores que passaram pelos escalões de formação jogaram pela equipa principal ou pela equipa B. É um número que o agrada ou poderia ser melhor?

O nosso objetivo é sempre maximizar essa métrica, o número de jogadores formados por nós a jogar na equipa A. O limite é que sejam todos, mas isso é uma quimera.

Há algum aspeto de realce em que a formação precise de melhorar?

Temos de continuar a investir em melhores condições de trabalho. Temos até sido capazes de chegar primeiro do que os grandes em jogadores. Na última janela de mercado, fomos buscar três jogadores: o Edmond, do Leixões, o Tiago Leite, do Moreirense, e o Tabuaço, do Paços de Ferreira. É uma clara aposta.

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Sede de campanha da Lista B, em que Júlio Mendes praticamente mantém a mesma equipa do atual mandato

A atual estrutura da formação é para manter?

Há sempre algo a melhorar, a nível de estrutura humana. A estrutura terá de crescer.

O programa pretende o licenciamento dos Afonsinhos para abrir escolas de futebol no estrangeiro. Até ao final do mandato, considera possível ter uma escola do Vitória a funcionar lá fora?

Sim, claro. Não tenho dúvidas de que o vamos conseguir. Há vários países que nos têm solicitado, países onde temos comunidades portuguesas, países de origens mais distantes, como o continente asiático. África do Sul. Tem, muitas vezes, a ver com a diáspora.

Nova Academia: “No inverno, a qualidade da infraestrutura de hoje cai drasticamente”

Modalidades amadoras

Como descreve o estado atual das modalidades amadoras, apesar da natureza diferente de cada uma delas?

Do ponto de vista do nosso tratamento, são tratadas de forma igual. Todos os recursos que temos, disponibilizamos. Tudo o que entra no clube é para pagar dívida ou para as modalidades. Há um olhar para todas elas de forma igual. Há uma outra que se vai destacando, porque há capacidade de arranjar patrocinadores.

O programa assenta em três pilares – sustentabilidade, ecletismo e responsabilidade social. A ideia é que o Vitória seja, principalmente, um clube que dá aos jovens do concelho a oportunidade de praticar várias modalidades, além do futebol?

Isso é uma obrigação que decorre dos nossos estatutos, que fala da promoção do desporto em Guimarães. É uma questão de responsabilidade social. Tem associada esta visão do ecletismo.

Nesta política, os resultados a nível senior, nomeadamente nas modalidades coletivas, que podem requerer mais investimento, só devem ser objetivo caso a secção consiga, por si mesma, obter receitas à altura?

Para se manter a sustentabilidade, não existindo dinheiro no clube, já terá que ser um projeto protagonizado pela capacidade de cada secção em obter os tais patrocínios, para poder querer subir a um patamar superior.

Pretende criar e-sports. A modalidade vai abranger os vários géneros de jogos virtuais? Que mais-valias trará?

Já tínhamos começado a trabalhar num projeto que vai ter competições em várias áreas de jogos. Não todas, mas algumas. Estamos a trabalhar nisso, para depois escolhermos quais os jogos, porque há o futebol, o Counter-Strike. Estamos a trabalhar para constituir competições nesses vários jogos, onde os sócios do Vitória podem participar, mas queremos que seja aberto não só aos sócios, mas a outros, porque as experiências que outros clubes fizeram, encerradas na participação dos sócios, revelaram-se insucessos. Tem por detrás um grande evento a nível regional, organizado pelo Vitória, e com o possível apoio, nomeadamente da autarquia, porque tem todo o interesse na projeção da cidade, para as finais das competições.

Infraestruturas

Quer avançar com uma nova academia, em Silvares, fruto da saturação que a atual, a seu ver, está saturada para o número de equipas que alberga. Até onde esta infra-estrutura pode elevar o futebol do Vitória?

A academia desde logo vai-nos resolver o problema relativamente à disponibilidade da atual para trabalhar. Portanto, desse ponto de vista, vamos poder crescer e trabalhar com mais qualidade. Vamos ter espaço, por exemplo, para o futebol feminino. A infraestrutura que temos hoje, no que respeita às equipas profissionais, nomeadamente a A e a B, no inverno, é um problema, porque a qualidade do trabalho cai drasticamente. A propósito, não podemos esquecer que os clubes rivais estão a fazer investimentos brutais nessa área. Isso representa perder competitividade e talentos.

O que é que já está definido com a Câmara Municipal? A Câmara doa os terrenos e o Vitória avança com o projeto, arcando com os custos?

Quisemos desenvolver esta parceria numa fase mais precoce, mas ainda estávamos numa fase de eleições autárquicas.

Tem frisado, durante a campanha, o investimento da direção para requalificar o estádio e a academia. Prevê mais obras, como a cobertura do miniestádio no complexo. Já há alguma verba definida? É semelhante à do último mandato?

Investimos mais de quatro milhões de euros. O futebol é tesouraria. Temos os projetos e queremos fazê-los. Iremos fazer quando tivermos os recursos disponíveis para os fazer. Vamos fazendo em função dos meios que nos vão libertando. Nem sempre se conseguem cumprir os ‘timings’ conforme se planeou. Se tivermos que adiar cinco ou seis meses por podermos fortalecer a equipa principal, por onde vamos optar?

E-sports: “Tem por detrás um grande evento a nível regional, organizado pelo Vitória, e com o possível apoio, nomeadamente da autarquia, porque tem todo o interesse na projeção da cidade, para as finais das competições”

Ambiciona ainda uma nova piscina e um novo espaço para modalidades de pavilhão. Estes projetos também vão ser desenvolvidos conjuntamente com a Câmara? As infraestruturas do clube para tais modalidades também estão saturadas?

Sim. Temos dificuldades ao nível dos espaços disponíveis.

Quanto ao museu, como vai funcionar? Há alguma data já pensada para a sua abertura?

Não. Estamos a fazer os projetos. Já temos um ou outro parceiro a trabalhar na parte mais material do projeto. Se ganharmos as eleições, o projeto imprimirá outro ritmo.

Nos seis anos de presidência, houve alguns acordos com empresas, como o do ginásio da Bancada Nascente. Há alguma estimativa de quanto as receitas do clube podem aumentar com o espaço de restauração, em parceria com a Câmara, o posto de gasolina e o Vitória Saúde?

A clínica Vitória Saúde pode ser no estádio, ou não. É difícil quantificar, porque veja-se o exemplo do Vitória Saúde, algo que queremos fazer com os “players” de saúde. Vai ter a ver com a gestão do próprio negócio. Uma estimativa ninguém vai a conseguir dar, não havendo ainda certezas.

“A estabilidade é algo fundamental para que haja sucesso”

Sócios

Reconheceu, na apresentação do seu programa para as eleições que houve situações em que a direção poderia ter estado mais próxima dos sócios ou comunicado melhor. Ao longo dos últimos seis anos, em que situações poderia ter estado melhor?

Naquilo que já referi relativamente à postura em representação do clube.

Propôs a criação da figura do provedor vitoriano e da aplicação Vitória Live, com cartão de sócio digital, que vai também servir para pagamentos e ver conteúdos. Estas duas medidas vão efetivamente aproximar a relação entre a estrutura do Vitória e o associado?

Estou convencido que sim. O provedor vitoriano é uma medida muito interessante, pela qual temos muito carinho, até porque escolhemos o senhor Vieira, cobrador. Acompanhará as questões mais prementes dos sócios, sempre que surgirem. E o Vitória Live é uma forma de entregar aos sócios, no seu telemóvel, a possibilidade de gerirem toda a sua vida associativa, de filiação clubística e de terem acesso a conteúdos do clube, sejam jogos das modalidades, das camadas jovens, entrevistas. Dá acesso a aspetos mais recatados da vida do clube, a que normalmente os sócios não têm.

Instituição

Uma das medidas contempladas no programa é a criação de uma comissão de revisão dos estatutos do clube. Que artigos, em concreto, a direção pretende rever?

Temos registado um conjunto de coisas que vamos sugerir à comissão. A nossa ideia é que se crie uma comissão independente, que estude, que vá ouvir a direção, os sócios, e daí faça uma proposta para ser discutida na Assembleia Geral. Temos várias propostas. Quando queríamos mudar um aspeto para favorecer mais os sócios e esbarrávamos com os próprios estatutos. Temos uma SAD. Faz todo o sentido que sejam revistos. 

O clube daqui a três anos: “Um Vitória melhor, com um crescimento mais sustentado, com maior capacidade desportiva e uma aposta na visibilidade, com o centenário”

Campanha

Realizou até agora quase 20 sessões de esclarecimento com os associados. Como têm recebido a sua candidatura?

Com entusiasmo. Sinto que há alguma tristeza por não estarmos a fazer nesta época o que fizemos na época passada, mas sinto que as pessoas depositam confiança numa equipa que esteve aqui tantos anos e conseguiu fazer tanta coisa e resolver problemas tão difíceis. Faço um balanço de muito agrado por aquilo que tenho ouvido ao longo das sessões.

Esta campanha tem sido igualmente marcada por alguns episódios de crispação entre as listas. Estes momentos de ataques acabam por fazer parte da estratégia de campanha ou podiam ser evitados? Considera que, num ou noutro momento, deveria ter sido mais moderado ou houve sempre legitimidade no seu comportamento?

Estes momentos de crispação fazem parte de uma campanha. Há sempre um confronto e, no confronto, atrito, mas temos sido sempre acusados de ter sempre feito mal, e a nossa intervenção tem sido em defesa da honra e no sentido de esclarecer os vitorianos para que não se crie aqui uma ideia distorcida ou se reescreva a história dos últimos seis anos do clube. Temos falado do projeto. Não somos nós que decidimos. É a própria dinâmica que vai ditando a história da campanha.

Qual a importância destas eleições para o futuro do Vitória?

É muito importante. Está em causa a possibilidade da manutenção de uma estabilidade. Eu tenho dito sempre isto. A estabilidade é algo fundamental para que haja sucesso. Em todos os clubes de sucesso, há estabilidade. Fazer-se uma mudança abrupta nas equipas de gestão por pessoas que sendo vitorianas, mas não têm experiência, seria recuar bastante no que se fez no Vitória. Isso constituiria um risco grave para o clube.

Pós-eleições

Caso seja reeleito, qual é a primeira medida que pretende implementar? E o que vai fazer em caso de derrota?

Temos um projeto. A gestão de um clube desta envergadura não se faz de uma medida. Lançar uma primeira medida é eleitoralista. Quanto ao resultado das eleições, deposito toda a confiança na escolha dos vitorianos. A escolha vai ser respeitada por nós. É soberana. Faço fé que escolherão a proposta que melhores garantias dará à continuidade do trabalho que tem vindo a ser feito.

Que imagem traça do Vitória daqui a três anos, no final do eventual terceiro mandato?

Um Vitória melhor, com um crescimento mais sustentado, com maior capacidade desportiva, de aproximação aos vitorianos, com uma notoriedade acrescida e uma aposta na visibilidade, com o centenário. Vejo um clube muito melhor, mais maduro.

Fotos: Marcela Faria

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