Júlio Vieira de Castro: “A ideia é rodearmo-nos na estrutura de pessoas que percebam de futebol”

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O candidato da lista A deseja, caso seja eleito, reformular a estrutura do futebol e, apesar de não se comprometer com uma fasquia na primeira época, preparar logo a equipa para uma eventual luta pela Liga dos Campeões em anos posteriores. O rosto do movimento Novo Vitória mostrou-se ainda convicto que o seu plano de investimento é o que melhor, entre as duas listas, e reiterou a questão da transparência em todos os aspetos da vida do clube. Embora aberto à nova academia, Vieira de Castro insiste que o complexo pode ser mais bem aproveitado.

Por Tiago Mendes Dias 

Até à candidatura

Associado há 36 anos e presença regular nas Assembleias Gerais, Júlio Vieira de Castro surge como candidato à presidência do Vitória em 2018. Já disse que a candidatura começou a ser preparada em janeiro de 2017. Face à possibilidade de embarcar neste desafio, aceitou-o de imediato ou só após um longo período de reflexão. Porque aceitou?

A minha preparação pessoal para uma eventual candidatura, ou para participar numa lista, já é anterior a janeiro de 2017. Eu já tinha um grupo de amigos, onde íamos discutindo o que se ia passando no Vitória, o que gostávamos de ver implementado no Vitória e aquilo que não gostávamos de ver. Somos um conjunto de pessoas que sempre tivemos algum espírito crítico relativamente à vida do Vitória. Nesse janeiro de 2017, houve um descontentamento em algumas franjas dos associados, nomeadamente pela venda do Soares e do João Pedro, quando estávamos tão próximos de poder lutar efetivamente por um apuramento para a Liga dos Campeões, tendo em conta o mau desempenho da equipa que ia à nossa frente, naquele momento, o Sporting. As vendas limitaram a capacidade da equipa e as ambições do clube relativamente a poder evoluir no panorama desportivo nacional. Em janeiro de 2017, começa-se a formar uma equipa. Ao longo do tempo, fomos aprimorando a equipa e as ideias, com um ou outro elemento. Isto começa sempre com um número restrito de pessoas que, depois, se vai alargando até que, em outubro, dá-se, já com um grupo mais vasto de elementos, a arrancada final para o lançamento da candidatura.

O processo de constituição da lista candidata aos órgãos sociais também demorou e motivou conversas com outros vitorianos com os quais contavam ou, desde o primeiro momento, sempre foi esta a sua equipa?

Foi um processo até fácil. Começámos por convidar os presidentes de cada órgão. As pessoas foram aceitando. Em termos de constituição da equipa, não tivemos negas de relevo. Foi uma constituição pacífica. Há pessoas nas equipas que foram escolhidas até pelo presidente de cada órgão, porque eu entendo que as pessoas têm de ter autonomia dentro da sua área de trabalho, com pessoas de confiança.

Propõe um Novo Vitória, com ambição, com rumo e sem medo. Porquê estes três princípios e não outros?

Temos ambição, porque entendemos que é possível colocar o Vitória no patamar mais elevado do desporto, a lutar por lugares de prestígio no futebol nacional, de apuramento para competições europeias. Ter por base o quarto lugar, olhando sempre para cima. É evidente que vai haver um ano ou outro em que o Vitória conseguirá de forma mais efetiva “morder os calcanhares” aos três tradicionais candidatos ao título. Relativamente ao rumo, não existe planeamento no Vitória. Não há uma definição estratégica dos objetivos. Sem esse rumo, nunca chegará a ambição. O “sem medo” é uma definição de atitude: não adiar mais o futuro do clube, não ter medo de enfrentar e conviver com a opinião dos sócios, não reprimir os sócios. É terminar com a repressão que existe, sobretudo sobre aqueles que têm opinião contrária à da direção, apenas porque são sócios que vivem o Vitória de forma intensa. Todos temos por objetivo o bem do Vitória. Podemos ter é visões diferentes de como o atingir. Há que respeitar essas opiniões e não as reprimir. 

Futebol e SAD

Deseja acabar com o desempenho inconstante da equipa na Primeira Liga e instalá-la permanentemente nos lugares de topo da tabela, nomeadamente nos quatro primeiros lugares, para colocá-la depois, até ao final do mandato, a lutar pelo acesso à Liga dos Campeões. Qual a fórmula para o conseguir?

A ideia é preparar o clube para lutar pela Liga dos Campeões. Trata-se de, em função dos recursos, contratar com qualidade, rodearmo-nos na estrutura de pessoas competentes, que percebam de futebol. São aspetos fundamentais a qualidade e a organização.

Quando fala em contratar com qualidade, refere-se ao mercado nacional ou ao estrangeiro, a valores emergentes ou já consolidados?

Tudo. Não estamos limitados ao mercado nacional, como o Vitória nunca esteve. Tanto estamos a falar de jogadores com talento por afirmar, como de jogadores com talento já firmado.

O modelo que prevê para o futebol inclui a criação do diretor geral da SAD, cargo destinado a Ziad. Que mais-valias essa nova função pode trazer ao clube, quer a nível de futebol, quer a nível de atração de investimento, visto já ter falado várias vezes nos contactos que o empresário tunisino tem?

O modelo traz pessoas que percebem de futebol e pessoas que percebem do modelo de negócio, não diretamente relacionado com a parte desportiva – sponsorização, parceiros, tudo o que possa ajudar a valorizar a marca Vitória. São pessoas que conseguirão a entrada de capital no Vitória, através da valorização da marca e dos atletas. É mais dinheiro que o Vitória terá para implementar as estratégias e melhorar o modelo de organização, que, nos parece em muitos pontos, de um clube amador.

Voltando atrás, Ziad tem sido alvo de críticas pela alegada incapacidade em atingir os objetivos no Esperance de Tunis. Em que medida essa experiência pode ser relevante para o cargo que vai desempenhar no Vitória, caso seja eleito?

Primeiro, Portugal e Tunísia são realidades diferentes. São clubes de países diferentes, de dimensões diferentes. Não é comparável. Ziad trabalhará comigo, tanto no modelo de negócio, como na parte de futebol. Será o topo da hierarquia operacional. Amiúde, confunde-se a posição de Ziad com a de diretor desportivo. É uma confusão para atirar areia para os olhos das pessoas. Se vamos falar de experiência e de capacidade ao nível de resultados, então digam-me qual a capacidade e experiência que as pessoas do futebol têm ou adquiriram ou que mais-valias aportaram ao Vitória.

Já é possível revelar quais os investidores que vão apostar no Vitória, caso seja eleito? Como é que esse investimento vai ser aplicado? O montante já está definido para a primeira época, ou até para o primeiro mandato?

O valor global para o triénio 2018-2021 será, no total, de 70 milhões de euros no nosso plano de investimento. Teremos 15 milhões de euros das receitas da Vitória SAD, entre quotizações, lugares anuais, camarotes, bilheteiras, publicidade, marketing e comunicação. 21 milhões serão do contrato com a Altice. É o valor apurado por nós, e referimo-nos aos 70 milhões a 10 anos. Caso o contrato com a Altice seja superior, aumentará o investimento. Não serão 70 no total, serão mais de 70. Vai haver 14 milhões de euros de sponsorização e parceiros. Aqui entra o papel do Ziad, e 20 milhões de aumento de capital a realizar em três anos. Mário Ferreira já nos garantiu que acompanhará os aumentos de capital por nós propostos, tal como fez até hoje, e já o fez por três vezes.

Mário Ferreira vai continuar a ter um papel preponderante. Prevê que ele continue como acionista maioritário ou, com o novo investimento, pode haver uma transformação na estrutura acionista, mesmo que a decisão caiba sempre a Mário Ferreira.

Eu estive com o Mário Ferreira pessoalmente. Mário Ferreira fará parte da solução, nunca fará parte do problema. Mário Ferreira já ajudou três vezes o Vitória. Ele, sim, foi o salvador. Mesmo, no início, quando precisaram de Mário Ferreira, foi o primeiro a ajudar o Vitória. Mário Ferreira estará sempre disponível para ajudar o Vitória. Falámos com Mário Ferreira na Europa. Fomos bem recebidos. Falámos muito bem com ele. Não vimos necessidade de “falar grosso”.

Dentro dos objetivos que definiu para o primeiro mandato, qual a fasquia para a equipa de futebol na primeira época?

Organizar. Arrumar a casa e rodearmo-nos de pessoas que consigam aportar mais para o Vitória. Construiremos uma equipa, um plantel com qualidade, já, na perspetiva do Vitória começar a preparar-se para o que têm de ser os restantes dois anos de mandato, ou seja, começar a preparar a estrutura para lutar por lugares de apuramento para a Liga dos Campeões. Neste momento, não me quero comprometer com uma classificação, até porque não estou num cargo de poder. Há algumas coisas que possam existir dentro do Vitória sobre as quais não conhecemos 100%.

Informação sobre transferências: Se houver pontualmente alguma necessidade de confidencialidade, será explicado aos sócios o momento em que o negócio poderá deixar de ser confidencial. Não acreditamos na confidencialidade eterna.

 Além da ambição, faz da transparência uma das suas principais bandeiras. Propõe uma postura diferente relativamente às transações da SAD, mas há algum caso específico onde admita a possibilidade de não revelar aos sócios informação relativa a transferências e comissões pagas?

Neste momento, mantemos o nosso conceito de transparência para com os sócios. Em tudo o que envolver uma SAD que tem por base um clube, e esse clube tem por base os sócios, sendo nós também associados, queremos, de uma vez por todas, que os associados façam parte do dia a dia do clube. Os sócios têm de estar devidamente informados para serem mais participativos, mais exigentes e para poderem colaborar connosco na gestão de um bem que é de todos. O Vitória não é de ninguém. Já existe há 96 anos. Não existe há seis. Há uma história feita por muitas e muitas pessoas, que deram e estão a dar muito ao Vitória. Essas pessoas merecem respeito.

Mas há algum negócio relativo a um jogador que possa ser uma mais-valia em que possa ter de manter confidencialidade?

Se houver pontualmente alguma necessidade de confidencialidade, a mesma será explicada aos sócios. Pegando neste exemplo do contrato da televisão, será explicado aos sócios o momento em que o negócio poderá deixar de ser confidencial. Não acreditamos na confidencialidade eterna. A confidencialidade eterna mostra alguma coisa de estranho. Se não há, está lançada a suspeição para que haja.

Tem-se falado na questão do adiantamento de 3 milhões do contrato televisivo. Já sugeriu, entretanto, que a contratação de Welthon posse ter necessitado de um outro de quatro milhões. Em que baseia esta suposição?

O dinheiro do adiantamento foi gasto. Nos relatórios e contas de 2015/16 e de 2016/17, no primeiro adiantamento de dois milhões, há um milhão que fica em caixa, no fluxo de caixa. Em 2016/17, a 30 de junho de 2017, já está referido o milhão, e o fluxo de caixa passa para 150 mil euros. Esses três milhões foram, de facto, gastos, e perguntei se poderia ter havido um adiantamento que pode ter atingido o valor de quatro milhões, porque o Vitória, segundo o presidente da atual direção, é capaz de gerar receitas de 7,5 milhões, mas tem despesas de 11,5 milhões. Tem um défice de quatro milhões. Se o Vitória, neste ano, não vendeu, perante tal défice, questionamos se a transferência de Welthon, a compra de parte do passe de Pedrão e a do júnior do Leixões (Edmond Tapsoba) envolveram mais algum adiantamento de clientes, neste caso da Altice, na perspetiva de alguém poder estar a hipotecar o futuro do Vitória.

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O aumento de capital da SAD tem sido um dos focos que debate durante a campanha

Pretende igualmente, segundo o que anuncia no seu programa, reduzir substancialmente o número de empréstimos. Quais são os casos em que contempla a cedência de jogadores? Há algum limite de emprestados já pré-definido?

Cada caso é um caso. Não temos nenhum limite predefinido de emprestados. Temos é o objetivo de tendencialmente ir terminando com os emprestados, até porque o Vitória fica limitado na sua capacidade desportiva e negocial. Não definimos nenhuma meta. Agora, o que não queremos é quatro, cinco, seis emprestados num plantel. Se existirem um ou dois emprestados, que tragam mais-valias para a equipa e que o Vitória possa tirar partido financeiro e desportivo. Não meros emprestados que vêm para aqui rodar ou ganhar preparação física.

E que Vitória podemos esperar no seio das instituições que regem o futebol português. Uma postura diferente da atual? Já disse que o clube deveria liderar o movimento G15…

O Vitória tem de ser um clube muito mais interventivo, até por vontade própria, nos órgãos de poder.

Como vê o campeonato sub-23. Já disse que não abdica da equipa B. Mesmo assim, pondera a participação nesse campeonato? Ou rejeita-a?

Ponderamos. Achamos curioso algumas afirmações da candidatura opositora, que diz, primeiro, que o complexo está saturado, e, depois, anuncia, a formação de mais uma equipa de futebol. No nosso entender, vieram a reboque da nossa proposta. A nossa proposta é primeiramente a equipa B manter-se no campeonato da II Liga, com uma análise de custos, porque achamos que, em termos de valorização de atletas e do Vitória, é mais importante a equipa B na Segunda Liga do que o campeonato sub-23. Queremos valorizar os atletas para que, a qualquer momento, estejam prontos para dar o salto para a equipa A. Se pudermos ter as duas, teremos as duas. É nossa vontade, sem grande acesso a números, ter as duas equipas.

Passivo: “Mantemos as nossas dúvidas, porque são confundidos constantemente passivo do clube com passivo da SAD. Fala-se do passivo que dá mais jeito, do que é mais conveniente da mensagem a passar”

Finanças

Apregoa igualmente essa transparência para as contas do clube e da SAD? Crê que o requerimento de uma auditoria no fim do eventual primeiro mandato dá essa garantia?

Quem entrou há seis anos atrás, prometeu uma auditoria que nunca foi mostrada aos sócios. Após a saída de Emílio Macedo da Silva, Júlio Mendes entra e diz que vai fazer uma auditoria às contas. Passados seis anos, ainda estamos à espera dessa auditoria. Convém não esquecer que Júlio Mendes fez parte do último mandato de Emílio Macedo da Silva, como vice-presidente. Ele sabe muito bem os resultados da auditoria e também é cúmplice dessa gestão de Emílio Macedo da Silva, que Júlio Mendes apelida de ruinosa.

As contas têm sido um assunto muito debatido ao longo da campanha. Colocou em dúvida a saúde financeira do clube, com a atual direção a salientar que o passivo da SAD tem uma natureza diferente da do clube e não é preocupante. Ainda tem receio quanto às finanças ou considera que a explicação da outra candidatura dá uma prova de estabilidade?

Mantemos as nossas dúvidas, porque são confundidos constantemente passivo do clube com passivo da SAD. Fala-se do passivo que dá mais jeito, do que é mais conveniente da mensagem a passar. Já referimos, várias vezes a opacidade e a falta de transparência neste clube. Isso preocupa-nos, porque se está a querer ir de um ponto de partida que foi o clube, para agora terminar no que é a SAD. Depois, ignoram-se as contas do clube. Depois, acrescentam-se as contas do clube. Depois, retiram-se as contas do clube. Primeiro, anunciam-se descidas do passivo na ordem da dezena de milhões. Depois, o presidente do Conselho Fiscal refere o passivo consolidado de 13,2 milhões. O presidente, numa entrevista, já refere que é de 15. Que passem toda a informação cá para fora, para que nos possamos entender.

A direção já referiu que a SAD arrancou com um passivo de 15 milhões de euros, decorrente da compra do plantel ao clube. Considera à mesma que um passivo desta natureza é preocupante?

O passivo não começou daí. A SAD foi constituída com 15 milhões, porque avaliaram os ativos do Vitória, neste caso os jogadores e até os meios de transporte, como ativos. E valorizaram esses ativos em 15 milhões. Daí, a SAD ter começado com 15 milhões, quando os ativos tinham, no mínimo, o valor de 21 milhões. Mas foram passados para 15, e fez-se uma SAD de 15. Se eram superiores a 21 milhões ou não, não sabemos. Mas 21 eram. Foi uma avaliação dos jogadores e dos meios de transporte, feita ainda no tempo de Emílio Macedo da Silva.

A SAD deu lucro pela primeira vez no ano passado. Satisfá-lo esse facto?

Não. Estão inseridos no Relatório e Contas 2,6 milhões da participação na Liga Europa. É uma receita que, com esta administração, é extraordinária. Sem a ida à final da Taça de Portugal, que tem de ser considerada uma receita extraordinária, teria dado prejuízo ou não teria dado esse lucro. Está-se a tentar fazer passar a imagem de que a SAD está a dar lucro, quando aconteceram factos extraordinários.

Quer parceiros internacionais a investir, mas também mais empresas do concelho. O que pode fazer mais o Vitória para atrair mais receitas no seio da região?

Precisa de trabalhar de uma forma profissional. Precisa de olhar para o marketing e para a forma como se comunica com os sócios, com as empresas de toda a região e com a forma como não se valoriza a marca Vitória com pessoas competentes. O atual presidente da direção, há pouco tempo, falou que se o Vitória não tem mais patrocinadores é porque as empresas da região não vão ao Vitória apresentarem-se. Isto é a lógica completamente invertida. Os clubes vão à procura dos parceiros. Tal como o Vitória está neste momento, um clube médio nacional, esse trabalho ainda lhe compete. Apenas os ganhadores poderão ter os sponsors a quererem entrar. O Vitória ainda não atingiu esse estado de desenvolvimento. O Vitória tem de explicar a esses parceiros, pela dimensão e pelos adeptos que tem, como marca de referência no concelho, que só têm a ganhar em colaborar com o Vitória. É o quarto maior clube nacional em termos de apoio e de sustentação social. É um clube com valor e de valor.

 Scouting: “Pretendemos ter o maior alcance possível com a rede de scouting. Não é só alcance nacional. É nacional e internacional. É importante o scouting ser ouvido nas opções que tomamos e participar mais ativamente na captação de talento”

 Formação

Diz ainda querer mais futebolistas com ADN Vitória a jogarem pelas equipas profissionais. Até agora, nesta época, 20 jogadores que passaram pelos escalões de formação jogaram pela equipa principal ou pela equipa B. Como olha para este número? Qual o número mínimo de jogadores da formação que gostava de ver nas duas equipas?

Não é suficiente. Não há nenhuma quota definida. O único clube na Europa que pode ter essa quota, e não tem, é o Athletic Bilbau, que forma a esmagadora maioria dos seus atletas, mas nem todos. Eles têm de ser bascos, não têm de ser formados no Bilbau. É um critério definido por eles e sustentado pela lei internacional. São um clube que aposta fortemente na formação e nem esses definem quotas. Portanto, não seria muito razoável estar a definir quotas. Queremos é os melhores para servirem o Vitória, e é nosso desejo que exista uma presença constante. Dizer que temos 20 atletas da formação, e, depois, chegamos ao final da época, e cada um deles fez um jogo, ou os minutos realizados são pouco mais do que um jogo, não nos satisfaz. Têm de estar presentes de forma mais efetiva.

Em que aspetos a formação mais precisa de melhorar?

Os jogadores precisam de ser mais acompanhados no seu desenvolvimento pela estrutura do futebol.

Já está escolhido o nome para diretor geral da academia? Qual o papel que terá?

Não vamos divulgar, por ora, o nome do diretor geral da academia, tal como o diretor desportivo. Já que Mário Ferreira será nosso parceiro e deve colaborar connosco na gestão do dia a dia do Vitória e ter uma palavra a dizer sobre as nossas escolhas.

E a falada rede de scouting? Como funcionará? Terá alcance nacional?

Pretendemos ter o maior alcance possível com a rede de scouting. Não é só alcance nacional. É nacional e internacional. É importante o scouting ser ouvido nas opções que tomamos e participar mais ativamente na captação de talento. O scouting dar-nos-á as informações de talentos que conseguiu sinalizar, para que possamos trazer esse talento para dentro do Vitória. Neste momento, parece-nos entregue aos empresários e não ao clube. 

Já há algum número definido de elementos com quem podem contar no scouting?

Ainda é prematuro. Sabemos que o Vitória tem ou outro scouter. Pelas informações que temos, são pessoas que não são tidas nem achadas na contratação de jogadores. Queremos que passem a ser escutadas.

Nave das modalidades: “Temos uma parceria com um mecenas”

 

Modalidades amadoras

Como descreve o estado atual das modalidades amadoras, sabendo das diferenças entre elas?

Temos os atletas, temos os pais dos atletas, temos os seccionistas, os treinadores. Temos um sem número de pessoas que colabora. O estado atual parece-nos mau. É tão mau, que, por exemplo, no voleibol, uma modalidade visível, estamos infelizmente numa situação até de risco de descer de divisão na equipa sénior masculina. Queremos reverter a situação atual. Queremos que se mantenham os pergaminhos do clube e que as modalidades lutem por lugares cimeiros na classificação e por troféus nacionais.

O seu programa afirma que cada modalidade vai ter direito a um orçamento próprio e a uma avaliação específica, com o clube a suportar uma parte. Pretende ter essa informação expressa no Relatório e Contas?

Claro. Faz parte da transparência. A transparência não é só no futebol, mas em tudo o que é a vida do clube.

Deseja ver as modalidades amadoras lutarem com mais frequência por títulos. No orçamento para a presente época, os gastos ascendiam aos 725 mil euros, com as receitas a cifrarem-se nos 542 mil. Para lutar pelo topo, até onde crê ser necessário aumentar os gastos?

Em termos de gestão, e ao contrário do que foi anunciado, o euro suplementar da quota dos associados tem de entrar como um suplemento ao orçamento e não ser integrado no orçamento. Foi criado para ser um suplemento. Queremos a angariação de novos ‘sponsors’ e novas receitas, através do merchandising próprio de cada modalidade nas lojas.

Academia: Os sintéticos não estão em bom estado. No estado de degradação em que se encontram, propiciam um maior número de lesões nos atletas, que não estão em condições de se treinarem convenientemente.

Mas há algum número específico por modalidade que se possa apontar?

Não. Por modalidade, há uma base de rigor e de controlo contínuo de resultados aos vários níveis. O orçamento será atribuído a cada modalidade, consoante a avaliação das necessidades de cada uma, e monitorizado pelo vice-presidente e pelo departamento de cada modalidade.

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Cartaz alusivo à Lista A no Toural. Júlio Vieira de Castro diz que equipa foi escolhida por candidatos a presidente de cada órgão

A formação é uma aposta? Vai ser alimentada pela ligação às escolas?

É uma das vias. É importante ir às escolas, mas também trazer as escolas ao Vitória. É a interligação entre o Vitória e a região. Aí, inserem-se as Olimpíadas Vitorianas, onde os sócios e os miúdos terão contacto com os atletas, participarão em torneios, com demonstração das modalidades coletivas, até para que possam escolher uma modalidade que gostem.

Infraestruturas

Prevê várias intervenções no Estádio D. Afonso Henriques, nomeadamente o acrílico e os camarotes na Bancada Nascente. Que proveitos o Vitória pode daí retirar?

Tornar o estádio mais vendável e rentável. Mas, acima de tudo, é o conforto dos associados. Queremos que os associados se sintam bem. Temos pessoas que não vão ao futebol, porque chove, porque está frio. A base disto tudo é ganhar. Os sócios já demonstraram que o Vitória estando bem, a praticar bom futebol, vão. Mas também queremos tornar o ato de ir ao estádio algo confortável.

Quanto à academia, crê que ela ainda pode ser rentabilizada, ao contrário da atual direção que a vê como saturada e se propõe a construir uma nova, em Silvares. Visto que o projeto é levado a cabo com a Câmara, contempla a hipótese de construir esse centro de treinos?

Poderá ser uma falácia estar a repetir a afirmação de que a academia está saturada, quando um dos problemas a que temos assistido, e eu vivo perto do complexo, é o mau estado da academia do Vitória, ou a má manutenção. Os sintéticos não estão em bom estado. No estado de degradação em que se encontram, propiciam um maior número de lesões nos atletas, que não estão em condições de se treinarem convenientemente. Antes de podermos falar em saturação, temos de falar em manutenção. Na nova academia, se o projeto é da Câmara e, conforme previsto, é para 2022, ou seja, para lá do triénio 2018-2021, essa obra não será feita em função do candidato A ou B, do presidente A, do presidente B, mas será sempre para servir o Vitória. Será para todos. Nunca excluímos qualquer parceria com a Câmara Municipal de Guimarães. É um ator importante dentro da cidade e da região.

E a nave para modalidades de pavilhão e desportos de combate? Pretende construí-la ainda no primeiro mandato? Sente que o pavilhão está saturado?

Não definimos data. Temos um compromisso para a realização de todos os esforços para a construção de uma nave desportiva, com dois campos com dimensões para basquetebol e voleibol, sala de treino para desportos de combate, gabinete médico. Esse é o nosso compromisso. 

Com que financiamento?

Temos uma parceria com um mecenas, relativamente a esta questão de ampliação do pavilhão das modalidades. Não tendo data, pretendemos fazer isso o mais rapidamente possível. Não garanto, mas pode ser no primeiro mandato.

Estima algum valor total de investimento relativo às infraestruturas que propõe construir ou requalificar?

Não. Será feito um levantamento das necessidades para a reparação/remodelação mais prementes e será elaborado um plano de ação calendarizado.

Quer também criar o museu e o centro de documentação do Vitória. Onde ficará instalado? Que conteúdos terá?

Ficará no Estádio D. Afonso Henriques. Há a sala de troféus, e haverá o museu e o centro de documentação do Vitória, que consistirá na compilação e preservação do acervo histórico, patrimonial e cultural, com aqueles que levaram à formação e definição da identidade do Vitória enquanto instituição singular no panorama desportivo nacional. Ainda temos de definir o projeto.

“Sócios terão de optar por continuarem a ter poder dentro da estrutura ou entregar o Vitória a um banco”

 

Sócios

Entre as medidas para os sócios, contempla algumas de apoio social, que podem vir a ser aplicadas nas quotas. Que proveitos o Vitória, do ponto de vista da gestão, pode daí extrair?

As medidas de apoio social são sobretudo ao nível do pagamento de quotas para famílias que demonstrem carências financeiras e o acesso às modalidades de quem não possa pagar a mensalidade. Há aqui questões fundamentais: não perdermos sócios, não perdermos atletas. Quantos mais sócios houver, maior é o número de assistências no estádio, e o Vitória torna-se uma marca mais valorizada.

Também promete um evento de convívio entre associados e a mudança da data das Assembleias Gerais. Crê que, apesar dos sócios já viverem intensamente o Vitória, o envolvimento com o clube pode melhorar?

Há dados históricos que o comprovam: de quando as assembleias eram na sexta-feira à noite para quando passaram a ser ao sábado à tarde, e até uma ao domingo de manhã, a presença de sócios nas Assembleias Gerais diminuiu e diminuiu drasticamente também fruto não só das Assembleias Gerais, mas também fruto de uma política de distanciamento entre a atual direção e os próprios associados.

Falou há pouco em “repressão” da atual direção para com os associados. Sente que esse clima existe. Que casos concretos alega?

O clima vai terminar connosco. Há os casos relativos a Belmiro Jordão e a Bernardino Pina. E há um dia a dia no Vitória de reprimir a opinião dos sócios, sobretudo as contrárias à da atual direção. Isso é um fator que não ajuda ao crescimento do Vitória. A não participação dos sócios e a repressão de opiniões contrárias também faz com que o Vitória também não cresça.

Instituição

Quer criar núcleos concelhios. Que utilidade vê nesses núcleos?

O Vitória também tem por missão deslocar-se aos locais onde os sócios vivem, onde os sócios possam ter um contacto mais diário com o Vitória Sport Clube. Os núcleos permitirão o pagamento de quotas, o acesso a merchandising oficial. Permitirão a compra de lugares anuais. Queremos aproximar dos sócios um sem número de serviços em horários em que os possam adquirir, sem terem de vir propositadamente a Guimarães nos horários de expediente. 

O Vitória daqui a três anos: “É uma imagem de união, de sucesso, de objetivos e programa cumprido. De uma vez por todas, o Vitória ser visto por toda a gente como um clube de dimensão nacional e não regional”

E as embaixadas pelo país e pelo mundo? Vão aproveitar estruturas já existentes? Que projeção podem trazer ao Vitória?

Temos emigrantes espalhados pela Europa, e queremos aproveitar essa dinâmica que os nossos emigrantes têm, e aumentar, através do apoio institucional, essa dinâmica, para que os sócios sintam que o clube não os esqueceu e está presente. Eles são a nossa primeira voz na expansão da marca Vitória. É uma questão de respeito e de valorização dos sócios.

Campanha

Realizou mais de 20 sessões de esclarecimento até agora com os associados. Como têm recebido a sua candidatura?

Tenho tido uma receção excelente, sobretudo na questão do debate. Nas nossas sessões de esclarecimento, abrimos sempre a sessão a debate, comigo e com os membros dos órgãos elegíveis. Nessa questão do debate, notamos que os sócios do Vitória querem mais e gostam de debater o Vitória, gostam de dar soluções e de ser ouvidos em tudo o que respeita ao Vitória. Num ou noutro momento, tem sido surpreendente pelas sugestões apresentadas. Houve um associado, por exemplo, que referiu que o Estádio D. Afonso Henriques tem muitas fotos de momentos marcantes do futebol e que acha que é necessário, para a promoção das modalidades, que existam imagens no pavilhão que reflitam momentos gloriosos das modalidades.

Esta campanha tem sido igualmente marcada por alguns episódios de crispação entre as listas. Estes momentos de ataques acabam por fazer parte da estratégia de campanha ou podiam ser evitados? Considera que, num ou noutro momento, deveria ter sido mais moderado ou houve sempre legitimidade no seu comportamento?

Os atos de crispação são decorrentes do ato eleitoral. Há sempre momentos de crispação nas eleições de todos os clubes, não só no Vitória. Se podem ser evitados, podem, mas não somos ingénuos e não vamos permitir que nos ataquem a nossa capacidade e a nossa experiência em prol de uma experiência que não temos vindo a reconhecer nos últimos tempos à atual direção. É ridículo que se tente fazer uma comparação de algo que não pode ser comparado, porque a nossa experiência jamais pode ser posta em causa. Cada um de nós é competente nos seus empregos. Somos pessoas experientes em empresas com elevado número de funcionários e com volumes de faturação muito elevados.

Tem dito que as são eleições decisivas para o futuro do clube. Porquê?

O nosso plano de investimento contempla os sócios, o clube e o atual modelo de Sociedade Anónima Desportiva, porque, através da reunião com o comendador Mário Ferreira, ele disse-nos que faz parte da solução. Se ele já ajudou em momentos anteriores, também está disposto a ajudar. De referir que Mário Ferreira é uma pessoa que está presente, que se tornou vitoriano, que se apaixonou pela cidade e pelo clube. O Vitória tem essa sorte de ter um elemento presente na gestão do dia a dia. A proposta da candidatura adversária é a integração de um banco, que nós supomos que é o BMG. Portanto, é a transformação do Vitória num entreposto de jogadores. Os sócios terão de optar por um destes modelos: os sócios continuarem a ter poder dentro da estrutura organizativa do Vitória ou então entregar o Vitória a esse banco, que nada mais é do que um entreposto de jogadores, em que o Vitória será uma placa giratória de jogadores, em que os sócios perderão capacidade de influenciar os destinos do Vitória.

Pós-eleições

Já se falou na disparidade entre os mandatos do clube e da SAD. Caso ganhe, certamente quer assumir o cargo de presidente do Conselho de Administração da SAD, substituindo Júlio Mendes. Mas os estatutos da SAD nada dizem relativamente aos outros administradores que integram a direção. Espera igualmente que eles saiam?

Esperamos que eles saiam. É um ato ético. É uma questão de ética. Eles entraram porque venceram as eleições anteriores. Se perdem estas eleições, devem sair pelo próprio pé. Não esperamos outra coisa da parte deles. É um ato de vitorianismo e dar lugar a quem venceu.

 E, caso perca, o que vai fazer?

O cenário de perder as eleições não me passa pela cabeça, mas caso perca as eleições voltarei ao meu lugar de sempre na bancada, participarei sempre na vida ativa do clube, como o fiz nos últimos 36 anos. Não deixo de ser sócio, nem nunca deixarei.

Caso seja eleito, qual é a primeira medida que pretende implementar?

Há tanta coisa… prestar o apoio que a equipa de futebol sénior tem. Dar uma palavra de apoio aos atletas, na perspetiva de melhorar a dinâmica de grupo, que se nota que tem vindo a perder, o apoio aos funcionários, o apoio aos seccionistas, a proximidade para com todas estas pessoas.

Como vê o Vitória daqui a três anos, no final do eventual primeiro mandato?

Muito melhor do que a situação atual. É uma imagem de união, de sucesso e de objetivos e programa cumprido e de uma melhor ligação entre o clube e a região e o clube e os sócios. E, de uma vez por todas, o Vitória ser visto por toda a gente como um clube de dimensão nacional e não como um clube de dimensão regional.

Fotos: Marcela Faria 

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