A morte de Marielle Franco

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Nos tempos que correm devemos estar preparados, blindando-nos, para não desfalecermos perante os acontecimentos mais sórdidos que a qualquer momento podem chegar até nós, provenientes dos locais mais recônditos do planeta. Hoje, a comunicação social brinda-nos (quase) em tempo real com múltiplas informações transmitindo-nos a sensação de que o relato que nos faz aconteceu, ou está a acontecer aqui ao lado, quase podendo ser objeto do nosso testemunho. Sabemos, porém, que não é bem assim. Há relatos noticiosos para todos os gostos que exigem da nossa parte “dúvida metódica” para apreendermos não o supérfluo, mas a essência dos mesmos.

A morte de Marielle, vereadora da Câmara do Rio de Janeiro, é tão trágica e cruel que não permite grandes dissonâncias quanto à interpretação do acontecido. Foi morta à queima- roupa, ela e o seu motorista. Mas por quê? Porque tinha voz própria, era corajosa, inteligente e culta, respeitada pelos seus pares vereadores, qualidades que só por si não fariam prever tal desfecho. Mas era negra. Militante de esquerda. Lésbica. Era feminista. Defensora dos direitos dos seus irmãos das favelas onde nasceram. Batia-se pelos autênticos valores civilizacionais e repudiava o regresso à barbárie, plasmada na conduta da polícia militar que massacra o seu povo. Foi certamente o seu grito de revolta, apontando o dedo à polícia militar, ao ver balear jovens inocentes, que lhe traçou o destino. Terá sido a barbárie publicamente denunciada que encomendou o seu hediondo assassinato.

Sabemos agora que a falta de pudor de uns quantos, face a notícias que vão desvendando pormenores do crime, exulta com a morte de Marielle. A sociedade brasileira não pode ser atingida por tamanho desvario e também não pode deixar a condenação de tão macabro crime apenas na manifestação de dor e raiva do seu povo humilde. Sabemos que vozes respeitadas, defensoras sentidas dos direitos humanos, já expressaram a sua revolta por tão indigno ato. Mas é preciso que os políticos e democratas assumam as suas responsabilidades e não deixem resvalar com o seu distanciamento e indiferença a criminalidade organizada, que mancha a imagem de um país e, sobretudo, limita os direitos e as liberdades do seu povo. Uma sociedade “autista”, ociosa na defesa dos seus valores e princípios democráticos, e que permite que se espezinhe o seu povo por parte daqueles cuja missão é defendê-lo, vale muito pouco no concerto das nações civilizadas.

Há dramaticamente muitas Marielles e muitos motoristas vítimas do crime e de mentes criminosas no Brasil. Quando a estatística nos diz que durante o pretérito mês de janeiro morreram por dia, em média, vinte e um cidadãos por homicídio, só no Rio de Janeiro, não é necessária maior eloquência. Com números destes pode afirmar-se que a violência gratuita faz parte do sistema da “cidade maravilhosa”.

O Brasil tem todas as condições para desenvolver uma sociedade que combata os fanatismos, quaisquer que eles sejam. Está na mão dos brasileiros escolher governantes favoráveis ao desenvolvimento de uma sociedade mais justa e solidária, defensora de um são conceito de partilha, infelizmente cada vez mais rara neste mundo globalizado, mas fundamental para o bem-estar e prosperidade do seu povo.

A nossa solidariedade, Marielle, não te devolve a vida, bem como ao teu motorista, como mereciam e era de direito. O teu exemplo de lutadora, pugnando por causas tão nobres, faz-nos falta. A coragem com que te bateste pelo direito à diferença e pelos direitos humanos não pode morrer contigo. A luta da defesa dos teus ideais, como fazias, não feneceu ontem, às mãos de horrendos esbirros, movidos pela ganância e pelo total desrespeito pela vida e pelos direitos humanos. Descansa em paz, filha do Povo. Dos teus restos mortais brotarão flores perfumadas de poesia e liberdade. Dos teus carrascos e seus mandantes não restará nada mais do que o cheiro nauseabundo dos seus cadáveres apodrecidos ainda em vida.

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).

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