Apagam as luzes, por favor?

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A primavera chegou, a hora muda hoje e apesar de nos prometer esta noite menos uma

hora de descanso, vai trazer-nos dias mais compridos e cheios de luz.

A luz natural que nos faz tanta falta e de que o inverno nos priva. Luz e calor que nos anima e faz regressar hábitos saudáveis de passeios na rua e de convívio. Quem não sonha já com os piqueniques na Penha, com as mantas estendidas nas frescas a ouvir os pássaros e a sentir a suave aragem no rosto?

Os dias longos estão de volta mas os velhos hábitos infelizmente ameaçam manterem-se.

Falo-vos das luzes acesas toda a noite no municipio de Guimarães. Falo-vos de uma discussão que parece não ter lugar na sociedade. Não deixamos a noite ser noite.

Enchemos as ruas, os monumentos, as montanhas de luz como se a noite não tivesse uma função importante e como se dela não saísse matéria importante de investigação.

As cidades estão cada vez mais inundadas de poluição. A poluição urbana que vai para além da qualidade do ar, da poluição sonora, da poluição visual, temos também a poluição luminosa.
Na última Assembleia Municipal a CDU desafiou o executivo camarário a fazer uma investigação sobre a poluição luminosa.

O desafio é simples. Uma cidade que pretende dar o exemplo ao nível de comportamentos ambientalmente sustentáveis deve dar o exemplo respeitando o tempo das horas nocturnas.

Para se perceber do que falo, peço-vos que reflictam sobre se as hortas pedagógicas precisam de candeeiros ligados depois das 23h, por exemplo. Se os monumentos de Guimarães necessitam de estar iluminados madrugada fora, às três ou quatro da manhã.
É urgente diminuir os gastos de energia do municipio, não só para poupar na conta da luz, mas também para se poupar o Ambiente. Esse do qual tanto se fala.

No entanto, mais uma vez se fizeram ouvidos moucos ao alerta da CDU. Que atrevimento esse de dizer que a iniciativa de que o executivo tanto se orgulha – mudar todas as lâmpadas para LED – poder vir a ser um comportamento errado? Que arrogância essa de pedir que se pare para pensar, que se investigue e que se coloquem LED âmbar e que os candeeiros sejam pensados
de uma outra forma, com a luz a incidir para o chão e não a iluminar o céu.

Na muralha temos os focos a iluminar não só aquelas pedras históricas como também o céu negro que deixou de ter estrelas. Já não olhamos para as constelações, não se pensa no impacto ecológico sobre a fauna e a flora que a luz artificial do exterior provoca.

Portugal é um dos países europeus que mais ilumina a sua noite. Segundo o estudo que avaliou o nível global de poluição luminosa de exterior (Novo Atlas Mundial do Brilho Artificaial do Céu, Flachi et al) 60% dos europeus deixaram de ver a Via Láctea, a galáxia onde vivemos. Nenhum cidadão nacional vive sob um céu sem poluição luminosa.

A tecnologia já se adaptou, perceberam que a intensidade dos LED dos telemóveis, computadores, televisões e tablets tem que ser ajustada à hora do dia ou noite, devido aos malefícios comprovados.

Em Julho de 2017 o municipio de Madrid decidiu dedicar 120 mil euros à investigação da poluição luminosa na cidade.
Alguns investigadores defendem que os LED podem ser potencialmente cancerigenos, por isso, é necessário repensar o investimento e encaminha-lo para soluções mais
saudáveis e sustentáveis.

Em 1984 no centro da cidade do Porto era vísivel a Via Láctea, hoje é possível ver-se 300 estrelas das 6000 que se podem observar num local sem poluição luminosa.

Hoje, na iniciativa da Hora do Planeta, 80 munícipios portugueses vão desligar as suas luzes entre as 20:30 e as 21:30, Guimarães também o vai fazer. Contudo, seria bem melhor lermos nos jornais nacionais que Guimarães foi o primeiro município a desligar as luzes desnecessárias entre as 23h e as 6h, todos os dias do ano.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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