EU, DRAMATURGO, ME CONFESSO (NO DIA MUNDIAL DO TEATRO)

 

comercio de Guimaraes FA

O Teatro, em Portugal, está (salvo uma ou outra excepção) podre. As principais companhias/estruturas/espaços culturais venderam a alma ao modismo. Os textos e as histórias cederam o lugar ao engraçadismo ultra-contemporâneo, que mantém reféns, de igual modo, os cursos superiores de artes cénicas um pouco por todo o país.

A pandemia de normose-que-quer-ser-outra-coisa-mas-não-sabe-o-quê é tal que é cada vez mais raro encontrar quem consiga respirar em atmosfera tão rarefeita.

Escusar-me-ei a tecer considerações sobre a política de subsídios (apenas escrevo que não me parece justa nem ajustada).

Ultimamente, Guimarães tem, através do Teatro Oficina, feito um esforço meritório naquilo que é a aproximação da estrutura aos grupos amadores da cidade, e à cidade em si, mérito (e eu raramente acredito em mérito isolado) do seu director artístico (agora também director artístico de toda A Oficina), João Pedro Vaz.

O antigo director das “Comédias do Minho” foi mais longe, criando uma bolsa de contactos de artistas vimaranenses (Gangue de Guimarães), esperando que dessa interacção possam sair criações para o futuro. Há aqui, de facto, uma preocupação notória com a noção de “território”, como o próprio tão bem frisou.

O que ainda não há, mas poderá vir a existir (haja vontade), é o desejo, continuado, de dar palco (e voz, e papel) a esta gente, de forma sustentada, com linguagens diversas, sem amarras a determinada moda vigente (que já vem doutros tempos).

Observamos, com atenção, as condições de acesso à recente bolsa de criação (Amélia Rey Colaço) do Teatro Nacional Dona Maria II, na qual o CCVF tem participação, e imediatamente notamos os termos tão em voga (e as restrições). A qualidade é secundária: importa é a linha a seguir. Olhamos para a composição do júri e nem é preciso acrescentar mais nada.

Por uma questão de vínculo (mas não só), gostava era que Guimarães tivesse, de forma regular, peças de Gil Vicente em cena. Bem sei que, para muitos dos pseudo-intelectuais modernaços, o dramaturgo de Urgezes “é uma seca”, mas a nossa cidade precisa de mais do que uma rua e de uma escola com o seu nome. Há os festivais? Há, claro, mas Gil Vicente só lhes empresta a chamadura.

Paulo César Gonçalves, Dramaturgo

NOTA SEGUNDA: Por expressa decisão do autor, este texto não obedece às normas do novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa.