Politizar Eleições

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À partida o conceito pode parecer um contra-senso porque se há algo que deve ser naturalmente politizado são precisamente eleições, com o normal confronto ideológico e programático entre os vários concorrentes.

E de facto assim é quando se tratam de eleições políticas no sentido mais restrito do termo.

Já não é de esperar que assim seja quando as eleições se disputam fora do âmbito partidário e ocorrem noutro tipo de instituições, onde o normal deve ser restringir o âmbito dos debates às matérias que essas instituições tratam e não fazer recair sobre elas outros tipos de “tutelas” ou de tentativas de aproveitamento partidário.

Já os antigos diziam “a Deus o que é de Deus e a César o que é de César” como forma de separarem “águas” que não se devem misturar.

Ocorre-me esta reflexão a propósito das últimas eleições no Vitória e da curiosa convergência de apoios à lista que curiosamente, mas não por causa deles, saiu vencedora.

Em Guimarães há nas últimas décadas uma larga tradição de o poder político tentar canibalizar todo o movimento associativo seja na vertente cultural, seja na vertente social, seja na vertente desportiva e disso há bastos exemplos em todas as áreas.

Mas há também uma honrosa tradição, largamente solidificada nos tempos de Pimenta Machado mas em perda depois dele, de o Vitória ter resistido sempre a essa “canibalização”, pese embora os esforços feitos nesse sentido por várias personalidades dos executivos camarários.

Também disso há fartos exemplos e bastará recordar a forma como o partido político que domina o executivo há três décadas  patrocinou e se empenhou em candidaturas alternativas a Pimenta Machado, numa primeira e mal sucedida fase em que apenas colheram derrotas, para depois estar na primeira linha do apoio às candidaturas vitoriosas de Vítor Magalhães e Emílio Macedo da Silva, em cujos elencos era bem visível a presença do poder autárquico a par de alguns social-democratas e centristas que  atenuavam a imagem (mas não o predomínio) dos socialistas.

Com a chegada à liderança do Vitória de Júlio Mendes, ele próprio um ex-vereador socialista, dá-se um recentrar das coisas, com o Vitória a manter um bom relacionamento institucional com o poder socialista mas separando as águas e não permitindo demasiadas proximidades nem intromissões nas esferas de competência exclusiva do clube.

É verdade que aqui ou ali houve exageros (o pior dos quais foi a entrega da taça de campeões nacionais de juvenis no edifício da Câmara) mas mais imputáveis ao voluntarismo e despudor do poder político do que propriamente à vontade do clube nesse sentido.

E é nesse quadro que se chega às recentes eleições.

Onde se dá o espantoso fenómeno de, da direita à esquerda, existir uma enorme convergência no apoio à lista B aparecendo publicamente a prestar-lhe apoio algumas das mais relevantes figuras locais do PS, do PSD, do CDS e do PCP.

Todos!

Uns por convicção, outros por oportunidade, outros ainda por moda do momento, a verdade é que todos queriam ficar na fotografia dos mais que prováveis vencedores de forma a poderem cantar vitória na noite eleitoral.

E alguns exageraram.

Como o vereador do Desporto da autarquia que ao invés de manter o distanciamento aconselhável a quem teria de trabalhar com a lista que vencesse mergulhou de cabeça no apoio à lista B com receio de não poder aparecer na “fotografia” do triunfo. Cometendo o erro que qualquer ministro do desporto cometeria se caisse no disparate de apoiar uma lista candidata a uma qualquer federação desportiva!

É certo que houve excepções mas não foram mais do que a confirmação da regra “sui generis” existente nestas eleições.

Mas enganaram-se.

Porque estas eleições demonstraram exuberantemente que o apoio político a uma lista pouca ou nenhuma influência teve no resultado final cujo equilíbrio nada teve a ver com a enorme desproporção dos apoios políticos entre ambas as listas.

A lista B ganhou, à tangente mas ganhou, não por causa dos apoios políticos (e religiosos…) mas apesar deles. E aqueles que vieram a estas eleições em busca de dividendos políticos para o futuro saíram largamente derrotados nos seus intentos.

E essa é uma lição que o Vitória deu de borla à classe política vimaranense.

P.S. Devo dizer que excluo de qualquer politização destas eleições nomes como André Coelho Lima e José João Torrinha. Por um lado, porque sempre estiveram, ao longo do mandato, ao lado de Júlio Mendes e da direcção reeleita. Por outro, porque sei que ambos são “demasiado” vitorianos para alguma vez porém interesses políticos à frente dos interesses do Vitória.

Luís Cirilo Carvalho, 58 anos, é deputado municipal eleito pelas listas do PSD. Já liderou a concelhia do partido e foi deputado à Assembleia da República 1999 e 2005 na bancada social-democrata. Foi governador civil entre 2002 e 2003. Passou pelo Vitória Sport Clube como dirigente.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.