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Vem esta crónica a propósito desta coisa da internet, das redes sociais e dos nossos dados pessoais.

Há alguns anos saiu na Visão um artigo sobre a campanha 2.0 de Passos Coelho – ainda se pode ler aqui. Fernando Moreira de Sá, consultor de comunicação, faz uma tese de mestrado (classificada com 20 valores) sobre história digital dos bastidores da chegada de Passos Coelho ao poder e da queda do Governo na rede.

A partir de alguns amigos envolvidos na política local, já tinha ouvido falar de pessoas que criam perfis falsos para fazer em alturas de campanhas, mas confesso que uma estratégia tão concertada e com tanta gente envolvida e envolvendo tantos meios (não só se fala na influência da rede, mas também na influência em programas de rádio e televisão) assustou-me e chocou-me. Não me lembro de, na altura, haver tanta celeuma sobre a internet e a forma como acedemos agora à informação nos manipula. Terá, se calhar, ajudado o número de opinion makers das redes sociais que assumiram cargos no último governo PSD.

Agora que se sabe da influência de empresas de tratamento de dados como a Cambridge Analytica em questões como a eleição de Trump e/ou o Brexit, de repente o mundo acordou para a como a presença online dos cidadãos é utilizada pelo poder político. Isto não é novo, como a questão da protecção legal e dos direitos digitais não são questões que surgiram agora.

Poderia dizer que os jornalistas não estão a fazer bem o seu papel. Não estão, é um facto. A esta classe corresponde a responsabilidade de mediar a relação entre representantes políticos e representados. Os jornalistas moldam a nossa visão do mundo e ainda que a maioria de nós possa não reconhecer a responsabilidade que o jornalismo tem, não há dúvidas que a classe política sabe bem como o aproveitar.

A classe política também deixa muito a desejar. Eu respeito o sentido de dever do serviço público e da política, quando o reconheço. E, para mim, um partido que se submete a eleições, submete um programa político a sufrágio e tenta comunicá-lo ao maior número de pessoas possíveis, da forma mais clara. E depois, o povo, informado e esclarecido, escolhe o programa político cuja própria visão da sociedade mais se identifica. Ora bem, que todos estes casos nos mostram é que política não é isto e democracia não é isto. A quantidade de subterfúgios e esquemas de contra informação, plantação de notícias falsas, fazer o targeting online para o encaminhamento de artigos /notícias (verdadeiras ou não) para mudar votos, é vergonhoso. Não é democrático, não tem nada a ver com o sentido do dever público, mas sim com a ganância e sede de poder. A democracia está a morrer de podre e é a própria classe política que a está a matar, desrespeitando o seu próprio papel. É tempo e pensarmos que eu virá a seguir e pararmos de compactuar com um regime que só existe no plano imaginário.

Penso depois se nós, os representados, estamos a fazer bem o nosso papel. E não, também não estamos. Não podemos assumir e naturalizar que os políticos são todos iguais, que roubam todos, que são corruptos e no dia das eleições continuarmos a vestir a nossa melhor roupa e irmos votar para ficarmos de consciência tranquila que desempenhamos o nosso papel.

Temos de ser mais exigentes, com tudo. Com a classe política e para isso, temos de estar mais informados. E se calhar, para estarmos mais e melhor informados temos de começar a pagar devidamente pela informação que consumimos e que precisamos. A internet trouxe muita coisa boa, mas trouxe a ilusão de que há muita coisa que deixou de custar dinheiro, como os jornais. Já não precisamos de comprar jornais, porque agora está tudo online. Na verdade, estamos todos a pagar por isso, a moeda é que é outra. E  não tenhamos dúvidas que nos fica a todos mais caro.

Luísa Alvão, 33 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha como programadora e produtora do Shortcutz Guimarães. É também fundadora e presidente da Capivara Azul – Associação Cultural.