O sol voltou a brilhar no D. Afonso Henriques

“O sol vai aparecer, amanhã
Aposto o meu último dólar que amanhã, vai haver sol
Pensa só, amanhã
Limpa as teias de aranha e a amargura,
Até não sobrar nenhuma”

  • Annie 

O sol tinha de voltar a aparecer algum dia. A chuva torrencial tinha de parar de cair.

Jogo após jogo, derrota após derrota, má exibição após exibição eu dava por mim a cantarolar esta música na minha mente.

Não sei se já viram o filme, mas a Annie é uma menina muito feliz e sonhadora que vive em Nova Iorque. Ela foi abandonada pelos seus pais quando ainda era uma bebé e carrega a promessa e a esperança de que um dia eles voltarão. A Annie quer muito que os pais voltem pois ela tem uma vida muito difícil no orfanato em que vive. É num destes maus momentos que ela começa a cantar esta música.

Durante esta época todos vivemos em constante sofrimento e carregamos a promessa e a esperança de que um dia os dias de sol voltariam, que um dia voltaríamos a ser felizes enquanto víamos o Vitória a jogar.

Eu já nem desejava vitórias. Eu só queria voltar a ser feliz no D. Afonso Henriques. Só queria uma equipa que jogasse futebol e o fizesse com garra e lógica (uma estratégia de jogo, um fio condutor e não um lançar a bola para a frente e esperar para ver o que acontece).

Na sexta-feira o sol regressou finalmente ao D. Afonso Henriques. Na sexta-feira nós voltamos a ser felizes a ver a equipa da nossa vida a jogar futebol (como é bom ser feliz a apoiar o Vitória e sentir orgulho da equipa que enverga o emblema do Rei).

Não só ganhámos, como fizemos uma boa exibição. Finalmente tivemos uma vitória sem sofrer golos e vimos a equipa a jogar futebol (e em equipa) no relvado do estádio do Rei.

Amar o Vitória esta época não foi fácil, mas nós conseguimos, mais uma vez, provar que não somos adeptos das vitórias, mas adeptos do Vitória!

“Quando começas a apoiar um clube de futebol, não o apoias por causa dos troféus, ou de um jogador, ou da história, apoia-lo porque te encontraste em algum lugar lá, porque te encontraste num lugar onde pertences!”

– Dennis Bergkamp

Já muitas vezes tentei colocar em palavras o que era este amor pelo Vitória, mas na sexta, aquele dia que espero que marque o fim de um dos longos dias de tempestade, dei por mim a pensar que na realidade não há motivo para amar alguma coisa. Encontrar motivos para amar qualquer coisa parece ser o mesmo que forçar a nossa personalidade a se adaptar. Qualquer coisa que nos faça felizes não precisa de ter razão, precisa apenas de nos fazer felizes. É a forma pura como as crianças pequenas reagem a algo. Quando uma criança toca pela primeira vez numa bola, se ela gosta, mesmo não entendendo, a criança deixa-se ir com a corrente e corre feliz pelo relvado fora. O mesmo acontece com o Vitória. Eu acho que é apenas algo interno que nos faz felizes, esquecendo tudo o resto. Nós gostamos do Vitória porque sim, porque gostamos e não precisamos de motivos para gostar. É algo que nasceu connosco e não interessa se se manifestou no segundo em que nascemos, no momento em que os nossos pais nos levaram pela primeira vez ao D. Afonso Henriques em pequeninos ou se já mais crescidos nos lembramos de ir ver um jogo e nos apaixonamos completamente por aquele clube. Amamos o Vitória porque amamos. Amamos o Vitória porque sim. Já Blaise Pascal dizia que “O coração tem razões que a própria razão desconhece.” e por vezes é tão bom apenas sentir…

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.