Hey! Teachers! Leave them kids alone

Desprevenidamente, assisti, esta semana, à apresentação de mais uma edição do Orçamento Participativo Jovem (OPJ), pelo vereador do pelouro da juventude da Câmara Municipal de Vizela que, com esta iniciativa, procura envolver os jovens, não eleitores, na construção do orçamento municipal do concelho vizinho.

Retive duas coisas, em especial, da apresentação: em primeiro lugar, os jovens adolescentes não têm direito a voto (quando menores), no entanto, são destinatários dos projectos e das políticas públicas e, em segundo lugar, o poder autárquico daquele município não receia as ideias mais ousadas, mesmo aquelas que pareçam à primeira vista megalómanas, porque poderão ser essas as chaves do futuro (dizeres do vereador).

O OPJ distingue-se do Orçamento Participativo para os eleitores ou do Orçamento Participativo Escola e não é uma medida nova nem exclusiva do concelho de Vizela. Neste caso destinam-se 15.000,00 euros para a proposta apresentada e mais votada pelos jovens. Em 2017, o concurso permitiu aprovar o desenho e a realização da ciclovia de Vizela.

Desprevenidamente, também, surgiu-me a ideia que o lugar dos jovens num mundo desenvolvido, mas envelhecido, pode tornar-se exíguo e o futuro mal desenhado. Como teria sido hoje a sociedade sem a intervenção dos mais novos em momentos chaves do século XX, sem os baby boomers e o rock and rol, o Maio 68, Tiananmen, o 25 de Abril e a queda do muro de Berlim? Recentemente, assistiu-se à manifestação ousada e corajosa dos alunos de uma escola portuguesa contra as sanções aplicadas a duas alunas por práticas homossexuais. Estes são exemplos de como cabe aos jovens desafiar o statu quo, obrigar os mais velhos a reequacionar o estabelecido em função da nova realidade, romper com as tradições, afrontar poderes construídos sobre velhas premissas já destituídas de razão, entre outras coisas.

Naturalmente, haverá na experiência um capital de sabedoria capaz de operacionalizar a mudança e de atenuar os prejuízos e as desilusões. Por outro lado, cada geração se encarrega de lembrar às mais novas o seu contributo e espera que tudo se refaça da mesma forma. Apelidar uma geração de “rasca” advém desse inevitável paternalismo. No entanto, não há causas jovens menores, pois o futuro a cada um deles interessa, quer seja na luta pelo desenvolvimento sustentável, quer pela redução das propinas no ensino superior. Cada geração é o produto da sua época. As mais novas, oriundas de famílias muito menos numerosas e com diferentes configurações, com o exercício precoce de direitos, nomeadamente sobre o corpo, habituadas a transpor os limites das fronteiras e estatisticamente melhor preparadas que as anteriores, têm, certamente, sonhos, prioridades, meios e formas de agir diferentes.

A decisão sobre o Brexit, é um exemplo de como os Estados decidem o longo prazo, à revelia da vontade dos seus jovens e em detrimento do seu futuro. A decisão sobre a saída do Reino Unido da União Europeia acontece, em parte porque os eleitores mais velhos, conservadores, têm maior expressão, mas também porque o mundo sofre, há duas décadas, sobressaltos que voltaram a impor a regra do medo. O 11 de Março, os actos de terrorismo na Europa, a instabilidade acrescida no médio oriente, a crise dos refugiados e as crises económicas, podem ter silenciado, temporariamente, os sonhos dos mais jovens que, no fim de contas, sempre reclamaram um mundo melhor para todos.

Já no Estados Unidos, “Adults have failed to stop school shootings. Now it’s the kids turn to try”: os adultos falharam quando era preciso acabar com os tiroteios nas escolas, agora é a vez dos miúdos tentarem. A capa da revista TIME de Maio 2018 sairá com os rostos dos adolescentes norte americanos, líderes do movimento contra as armas. O momento é tão oportuno que a comunicação social norte americana compara o movimento em marcha com outros do século passado. A sociedade ganha esperança, lembrando-se que, afinal, é aos jovens que cabe a tarefa maior de impulsionar a mudança.

O OPJ não mudará o mundo, mas num espaço de âmbito local pode preparar os jovens para serem actores de qualidade em várias escalas. As boas ideias merecem ser copiadas. Valeria a pena implementar a medida em Guimarães também, mas sem os habituais paternalismos, partidários, não partidários ou outros, porque como ainda diz a canção:

(…)

Hey! Teachers! Leave them kids alone
All in all it’s just another brick in the wall
All in all you’re just another brick in the Wall

Paula Magalhães, licenciada em Ciências Económicas e Empresariais, contabilista, professora e formadora para as áreas de formação de Economia e Contabilidade, foi, entre outras intervenções políticas, deputada municipal na Assembleia Municipal de Guimarães, colaborou na redação do jornal O Povo de Guimarães, desde 1989 até ao seu desaparecimento, foi ainda diretora e presidente da direção da cooperativa, já extinta, O Povo de Guimarães, CRL.