“Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo.”

“Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora própria um espinho envenenado no coração. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa.” – Miguel Torga

Todos queremos viver numa cidade verde, com ecocidadãos e onde se respire ar puro. Uma cidade que não faça distinção entre o centro e a periferia. Uma cidade que não dê prioridade ao carro individual e em que a economia local seja valorizada.

Todos queremos, todos assinamos o consenso, políticos e cidadãos vimaranenses, e, cada um ao seu ritmo, vai tornando as suas rotinas e os seus comportamentos mais adequadas a um concelho que se quer sustentável.

Na quarta-feira acordamos com um balde de água fria, uns e, outros, com a confirmação de que não iríamos mais longe do que aquilo que apesar de tudo fomos. Guimarães não será Capital Verde Europeia em 2020. A mensagem difundida de que Guimarães era Finalista foi só um devaneio de alguém que não quer fazer o caminho com todos, mas apenas com o seu umbigo.

A CDU não pode deixar de lamentar esta decisão, porque foi um longo processo que envolveu várias entidades e em que muitos vimaranenses depositavam expectativas de que seria possível a construção de um concelho mais verde.

No entanto, as falhas da candidatura estavam lá a cada passo que ia sendo dado pelo executivo. A CDU alertou, comprometida com o que tinha assinado, mas muito mais comprometida com o bem-estar de todos os vimaranenses.

A mudança de comportamentos de cada indivíduo é importante, todavia, mais importante será a mudança de visão e de actuação do actual executivo. É com os erros que aprendemos e pelos vistos não basta agitar os prémios recebidos durante o caminho para que se assuma uma vitória.

A CDU ao longo dos anos sempre acreditou que o sucesso do concelho de Guimarães passaria pelo respeito da Natureza e pela sustentabilidade ambiental, pelo desenvolvimento cultural e pela aposta na economia local. Assim sendo, ao longo dos diversos mandatos, os nossos Vereadores fizeram propostas nas reuniões da câmara, os eleitos na assembleias municipais também o fizeram, e na participação pública a CDU sempre se esforçou para estar presente.  Foi a CDU que lançou a discussão sobre a necessidade da criação da ecovia, que iniciou a discussão sobre a carta de praias fluviais que deveria existir e que até hoje foi ignorada, que esteve na primeira linha da luta pela despoluição do Rio Ave e que deu o mote para que hoje seja comum a discussão pela mobilidade em todo o concelho.

A CDU esteve presente nas discussões sobre a “ferida” que se abriu por causa do projecto Ecoibéria, esteve nas discussões públicas sobre a via rápida que se pretende fazer de ligação ao Avepark e que destruirá zonas verdes protegidas. Denunciou o isolamento em que se encontram algumas freguesias, com transportes públicos apenas em alguns dias da semana e denunciou a completa ausência de projectos de protecção dos animais de estimação na candidatura a Capital Verde Europeia.

Questionámos o executivo e fizemos propostas mais horários rápidos para o comboio entre Guimarães e o Porto, o fecho da malha ferroviária de ligação a Braga, ou a interligação entre as diferentes ofertas de transportes públicos em todo o concelho. Reivindicámos mais e melhorados acessos às estações e apeadeiros do concelho.

Tudo isto e muito mais não se faz em pouco mais de 4 anos, são projectos que necessitam da criação de hábitos, da criação de possibilidades para que os vimaranenses possam escolher o que é melhor para as suas rotinas. Projectos que só a longo prazo atingirão o sucesso.

Os espaços culturais continuarão vazios se permanecermos sem políticas de criação de públicos, as ciclovias continuarão vazias se não foram feitas para o dia-a-dia de quem se move dentro do concelho, o rio e ribeiras continuarão poluídos se as opções politicas continuarem a passar pelos ajustes directos aos prevaricadores e se continuarem sem exigir do Governo uma actuação eficaz e definitiva.

As opções políticas do PS levaram desta vez Guimarães ao insucesso da candidatura a um título, quando deviam ter levado Guimarães ao sucesso de um caminho longo que não se coaduna com prémios ou títulos mas sim com a garantia de que não se deixa uma factura demasiado pesada para as próximas gerações.

O grande ponto positivo desta candidatura foi trazer a terreno as questões que durante anos se andaram a esconder. Uma vez descobertas têm que ser corrigidas para que todos possamos dizer que o concelho de Guimarães é um concelho mais verde e mais sustentável.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.