A operação militar na Síria

Vale a pena ponderarmos sobre o que se passou recentemente com o ataque desencadeado pelos Estados Unidos da América, Reino Unido e França contra a Síria, hoje epicentro de sanguinários conflitos na região. Antes do Dia D, o mundo receava uma escalada militar perigosa que poderia constituir um desastre humanitário se a fanfarronice de alguns beligerantes se cumprisse. À medida que a data se aproximava, sobretudo quando Trump anunciou o dia do ataque dos países envolvidos, percebeu-se que nada do que se receava poderia conduzir a algo como antes fora previsto.

Quem conhece um pouco da história de tantos e tantos conflitos de que a humanidade foi vítima sabe que qualquer estratega militar não descura, nunca, o fator surpresa como “arma” fundamental para o êxito. As tiradas de Trump assentam num comportamento mais histriónico do que militar. Aquela cabeça, inimaginável há uma década como governante supremo de uma grande potência, não tem a noção do seu papel no mundo e acumula decisões que toma, e o seu contrário, com uma ligeireza assustadora.

A publicitação da data do “castigo” a infligir ao adversário nada teve de estratégia militar, antes, em consonância com os interesses do inimigo, permitiu que este se pusesse a salvo de hipotéticos estragos que um ataque militar pode infligir. Nada disto aconteceu, felizmente, mas nem por isso deveremos deixar de relevar o insólito do acontecido.

De facto, o ato em si aparece como uma resposta a problemas internos e também internacionais de outra natureza.  E daí, após os bombardeamentos, todos os beligerantes, cada um a seu gosto, proferiram frases de circunstância. Uns assumiram o êxito, que não tiveram, e outros  mantiveram as estratégias intocáveis e que continuaram a desenvolver.

O que todos sabemos relativamente aos contendores abre-nos o caminho para a compreensão do que se passou. Os Estados Unidos, com Trump na sua presidência, revelam fragilidades de política internacional nunca vistas e pretendem dar um sinal de que ainda são o guardião do mundo. A Sra. May não sabe como resolver os problemas resultantes do BREXIT e precisa, também, de manifestar o seu poder, quanto à importância que lhe poderão conferir nos conflitos internacionais. Macron, mais cerebral e a precisar de resolver problemas internos, procura ter voz forte na União Europeia. Problemas internos que, aliás, os três líderes têm.

O azar bateu à porta do Presidente Francês, pois não contou com a falta de diplomacia de Trump que, após o ataque, veio desmentir quanto ao combinado na preparação da investida e quanto ao futuro da região, epicentro do conflito.

Ao que se passou deve acrescentar-se o que a História nos ensina relativamente ao que se verifica em circunstâncias similares. Na verdade, a primeira vencedora de uma guerra é a mentira. Neste caso, se dúvidas houvesse, o que chega até nós confirma aquela célebre asserção. Não sabemos como tudo foi preparado, o número exato dos mísseis lançados, quantos foram intercetados, os estragos sérios, se os houve. O que ouvimos na ressaca são, de novo, as bravatas ameaçadoras, mas desta vez dos intervenientes no conflito, avisados previamente (a Rússia e a Síria). Os mesmos que agora deixam a mensagem como que a dizer ao mundo que naquela região geoestratégica quem manda «Somos Nós». Este «Nós» entende-se a Rússia, o Irão e a Síria.

Do que sabemos pode constatar-se que Trump tem relações privilegiadas com Putin. E este é, de longe, mais hábil e melhor preparado que aquele e não prescinde de liderar os interesses que o Norte de África e uma parte do Médio Oriente representam para os seus impulsos imperiais.

A Europa, mergulhada em contradições entre os seus membros, será o principal refúgio e a vítima maior desta perturbação mundial, gerada pela chegada de Trump à presidência dos EUA. Este facto abalou as estruturas que equilibravam a geopolítica internacional reforçada por uma errática política ocidental de há anos, que desmantelou o poder político instalado naquela região. O conceito de democracia ocidental parece não servir as populações daquela parte do globo e levou ao caos regional que agora se conhece e que não se sabe como terminará.

Numa das suas obras, relatando tragédias verosímeis ou não, em jeito de conclusão, Camilo Castelo Branco dizia que o mundo tem destas coisas que nos dão vontade de perguntar ao “Criador” se está contente com a obra que fez. É provável que ninguém saiba dar resposta a tal angústia. Mas sabemos que muitos de nós não gostamos do mundo tal qual se nos apresenta.

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).