Gerações Confortáveis

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Na quadragésima quarta oportunidade que a História nos oferece para reflectir o novo estado do Portugal que queremos, proponho uma fatia de pensamento sobre as gerações que o 25.Abril.74 gerou.

Não vou perder tempo a tergiversar sobre a liberdade e a democracia.
Não sou dos que se deslumbra ao som de sinfonias de discursos bonitos que assinalam a data com extraordinária solenidade.

A liberdade e a democracia são música de rua e de todos os dias.

Para os verdadeiros democratas, uma fé que se pratica antes de sobre ela se falar ou escrever.

Portanto avanço para o legado do 25.Abril.74.

Para lá das gerações sucessivamente melhor preparadas pelo investimento num sistema educativo que democratizou o acesso ao ensino, estará a incapacidade sucessiva em governar um país para o crescimento económico sustentável que acompanhasse o aumento de capacidade instalada.

Quanto mais afastadas as gerações estiverem de 1974 mais padecerão pela crónica impreparação dos principais decisores ao longo do tempo, pela sua habitual incapacidade em trabalhar para um futuro mais longo que 4 anos de legislatura, pela sua incompetência em cumprir o sonho de um Portugal próspero e justo.

Se a história destes 44 anos de Portugal democrático se construiu assente nas escolhas mais ou menos esclarecidas dos seus cidadãos, de que nos queixaremos?

Talvez de vermos hoje avós e pais a ajudar netos e filhos.

Talvez por assistimos a novas gerações com menos horizontes e menos oportunidades que as anteriores e por isso totalmente dependentes das gerações mais próximas de 1974.

Talvez porque apesar de formarmos gerações mais capacitadas, vemos diminuir a sua capacidade de afirmação por não construirmos um país com oportunidades para as novas gerações.

Será possível que o melhor e o pior que as gerações mais próximas de 1974 deixaram às gerações mais recentes foi o conforto de tudo terem sem o esforço de outros tempos?

Estaremos perante a fábula concretizada de entregar o peixe em vez de dar condições para que se aprenda a pescá-lo?

Aparentemente, a comodidade de uma vida com acesso praticamente garantido a educação, saúde, justiça, segurança social, trabalho com regras, alimentação, etc. propiciou o surgimento de gerações confortáveis.

Creio que essa indisponibilidade para o desconforto se manifestará com mais força no futuro se nada for feito.

Desde logo na pirâmide demográfica que acentuará uma redução de Portugueses de novas gerações para assumirem a herança das gerações anteriores e as necessárias responsabilidades intergeracionais.

Com o impacto que a inversão da pirâmide demográfica terá no sistema de segurança social, Portugal viverá um período de urgente e intensa discussão sobre a forma de corrigir rapidamente décadas de reformas por concretizar.

Em particular será discutido de forma aguerrida o reconhecimento aos Portugueses que desconfortáveis mas felizes optaram por ter filhos e garantir futuros para Portugal.

Da mesma foram seremos obrigados a reconhecer o falhanço de um Portugal que vivendo o presente ao longo dos tempos não criou condições para se regenerar para o futuro, garantindo emprego, condições e qualidade de vida para a constituição de família às novas gerações, vendo-se forçado a atrair emigrantes que equilibrem uma demografia raquítica que sentenciará uma história de pouco sucesso, redefinindo também a nova cultura portuguesa.

Já hoje assistimos à indisponibilidade dos cidadãos para o desconforto de uma participação cívica activa que influencie e escrutine as decisões com impacto na suas vidas e no desenvolvimento das suas comunidades.

O conforto da crítica no sofá não encontra paralelo na disponibilidade para a exigente construção da sociedade, uma luta diária pelo equilíbrio de ideias diferentes com o intuito de um bem comum, do desenvolvimento e da prosperidade.

Para concluir, volto à incapacidade crónica dos decisores políticos.
Face ao exposto, admito serem os melhores disponíveis quando todos os outros que compõem as gerações confortáveis optam por seguir confortavelmente a sua vida no conforto irresponsável de nada depender de si.

Se nas primeiras eleições livres e democráticas participaram mais de 90% dos cidadãos com capacidade eleitoral, hoje ficamos satisfeitos se metade dos eleitores se der ao trabalho de exercer o seu direito – o seu dever! – de escolha pelo voto.

44 anos depois estamos onde decidimos estar.

Podíamos estar melhor.

Alexandre Barros Cunha, 34 anos, engenheiro civil de formação abraçou a gestão de operações por vocação. Tendo liderado a JSD em Guimarães e no distrito, é hoje deputado municipal, vice-presidente do PSD Guimarães e membro do Conselho Nacional do PSD.