Onde estava no 25 de abril de 1974?

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É sempre gratificante relembrar períodos marcantes da nossa vida, ainda que à data dos acontecimentos não tenhamos a noção do quanto representarão para nós, no futuro.

Em abril de 74, regressado de uma guerra colonial que me marcou para sempre, tentava organizar a minha vida pessoal, após terminado o curso universitário, que havia sido interrompido pelo período de quatro anos que passei na vida militar. Período difícil para Portugal, para as famílias e os milhares de jovens que sacrificaram a sua juventude por uma causa que não era a nossa. Então, a censura não permitia que a larga maioria dos portugueses tivesse a noção de uma certa degradação do regime e também do que se passava dentro e fora do país. Regressado há pouco tempo a um país pobre e fechado sobre si, com marcas no corpo e na alma de uma guerra insana, estava incapaz de perceber os sinais de que uma revolução se preparava. Foi uma surpresa. Uma surpresa emocionante.

Nessa data, era professor em duas escolas de Guimarães. Juntei-me a um grupo de professores que costumava reunir-se nos “furos” dos horários no Café Condado, à data lugar muito procurado. No dia 25 de abril, pelas dez horas da manhã, cheguei ao café, como habitualmente. Estava a dar os primeiros passos após a entrada e um burburinho, que não entendi, tomava conta do grupo que, então, era também o meu. Dos vários colegas que o integravam havia uma jovem, a Gena, que, não sabíamos, tinha um conhecimento muito pormenorizado e consciente da política nacional, mas que nunca tal ousara deixar transparecer. O seu pai, engenheiro de profissão, soube depois que era membro do MDP, transmitiu-lhe a cultura política que a Gena revelava. Foi ela que, com pormenor, nos relatou o que havia acontecido naquela madrugada libertadora e logo ali traçou o hipotético percurso evolutivo da política nacional. Não tendo televisão nem rádio, a Gena foi a mensageira da boa nova e da esperança. E nós ouvimo-la com silenciosa curiosidade e ávidos de sorver conceitos novos de uma vivência que desconhecíamos e que adivinhávamos poder partilhar.

Acabada a “aula” de política no Condado, fomos para a escola, onde nos deparámos com um bulício, que antagonizava com a pacatez do correr dos dias do passado. Todos queriam saber informações sobre o que estava a acontecer. Alguns, melhor informados, partilhavam as informações que tinham ouvido pela rádio ou através de familiares residentes em Lisboa, de quem tinham recebido informações mais detalhadas.

A euforia de alguns, sobretudo de gente jovem, contrastava com uma insuspeita apreensão de colegas mais velhos que, mal informados também, pressentiam que algo ia mudar. Dos menos jovens havia um grupo liderado pelo Dr. Santos Simões que assumia uma outra atitude, dando claros sinais do seu contentamento, proclamando o que a curto prazo viria a acontecer. O diretor da escola, um homem do regime, viu-se, de um dia para o outro, só e ostracizado. Apesar da diferença de idades e, sobretudo de ideologias, a solidão repentina a que o homem foi votado impressionou-me. Esta solidão representava o fim de um ciclo. Em contraste, a alegria de quase todos os outros anunciava um tempo novo.

Não me lembro bem, mas julgo que logo naquele dia não houve aulas. Sei, porém, que nos dias subsequentes a agitação com laivos de liberdade tomou conta de professores, funcionários e alunos, em suma tomou conta da vida da escola. A esperança ia-se consolidando com a catadupa de notícias que nos chegavam sobre a evolução do golpe militar. O clima tradicional do quotidiano de um estabelecimento de ensino foi-se transfigurando de dia para dia, mesmo de hora a hora.

Noutra escola, onde lecionava em part-time para completar o horário letivo, vivia-se um clima similar, mas menos agitado, em parte devido ao escalão etário dos alunos. Apesar disso, a pouco e pouco, definiu-se, de forma clara, quem apoiava a saga dos Capitães de Abril. A liderança da escola manteve-se resistente à cedência do poder que o regime deposto lhe outorgara. Os professores mais jovens, maioritariamente professores provisórios, como eu, designaram-me ad-hoc como que uma espécie de porta-voz dos anseios coletivos. Foi a primeira ocasião em que senti alguma propensão para a discussão da coisa pública.

De tudo que fica relatado, sem os pormenores que não memorizei e sem qualquer suporte escrito à época, há uma marca indelével em todo o processo que jamais esquecerei. Foi o primeiro 1º de maio em liberdade. Foi a maior manifestação de sempre, que testemunhei e em que participei. Estendia-se, compacta, desde o Largo da Mumadona até ao Largo Navarros de Andrade, passando pela Alamedo e pelo Toural, que se tornaram pequenos para acolher tão grandiosa manifestação. Era sentido o regozijo de toda aquela massa humana? Não era de todo. Logo aí se denunciariam, pela atitude e desconforto visíveis, aqueles a quem o 25 de Abril e o Movimento dos Capitães não agradaram.

Viva o 25 de Abril! Viva a democracia! Viva a liberdade!

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).