União

A quase centenária caminhada do Vitória, a apenas quatro anos dos cem, conheceu muitos momentos de euforia , de exaltação, de alegria e orgulho mas também de tristeza, desânimo, passividade e estagnação.

Como é , afinal, próprio de tantas colectividades.

Mas nessa História rica, de que todos nos orgulhamos, houve sempre um “cimento” que segurou o clube nos momentos maus e foi alicerce das mais belas construções que se foram fazendo com a conquista de títulos, taças e troféus nas diversas modalidades que dão o ser a um ecletismo de que nos orgulhamos e do qual não podemos prescindir nunca.

Esse “cimento” foi o amor ao clube de uma massa associativa única e incomparável que nunca faltou ao Vitória quando o Vitória dela precisou.

Massa associativa que se caracterizava por ser solidária, aguerrida (no bom sentido do termo), sempre presente nos bons e maus momentos, fervorosa no apoio à equipa, significativa na presença nos jogos fora e com a característica fundamental de ser constituída apenas por adeptos do Vitória sem qualquer cedência a bi clubismos como é infelizmente comum por esse país fora.

Uma massa associativa olhada com admiração, às vezes inveja e outras até ódio, por parte dos adeptos de outros clubes que não percebiam (acho que ainda hoje há muitos que não percebem) aquela dedicação sem igual que permitia e permite ao Vitória tantas vezes jogando fora parecer que joga em casa.

Mesmo quando joga em estádios dos chamados “grandes”.

O segredo, se assim se lhe pode chamar, de tudo isso era (e espero que ainda seja…)o facto de com a natural diversidade de opiniões sobre jogadores, treinadores e dirigentes os adeptos na hora de apoiarem o clube darem as mãos e unirem-se em torno do Vitória deixando as divergências à porta dos estádios e pavilhões onde as nossas equipas jogavam.

E esse espírito de união manteve-se quando no início dos anos oitenta o clube teve as suas primeiras eleições com disputa entre duas listas (nos primeiros 60 anos de vida as direcções resultavam de consensos nunca existindo disputa eleitoral) encabeçadas pelos primos António e Armindo Pimenta Machado e que causaram enorme agitação na massa associativa e na própria sociedade vimaranense.

Mas passadas as eleições rapidamente elas foram esquecidas e a os vitorianos mantiveram a sua união em volta do Vitória sem prejuízo das opiniões individuais de cada um.

E assim foi também em todas as eleições disputadas na década de 80, na década de 90 e no início do presente século.

Acontece que já no final do longo consulado de António Pimenta Machado, por razões que não vale a pena estar aqui a recordar mas de que me lembro perfeitamente, criou-se em determinados sectores políticos e comunicacionais de Guimarães um movimento que não olhou a meios para atingir o fim a que se propunham e que era afastar Pimenta Machado da presidência do Vitória nem que fosse à “bomba”, passe o exagero.

E entre esse meios contou-se o inculcar na massa associativa vitoriana germes de divisão interna, de conflitualidade, de quase ódio entre membros da mesma “família”, de que o Vitória nunca mais se livrou passados que estão mais de quinze anos sobre esses tempos.

E essa divisão, que se manifestou logo nas primeiras eleições após a saída de Pimenta Machado, continuou pelos anos fora quer em outras eleições (todas excepto as de 2015 que foram de lista única) quer nos fóruns vitorianos de debate quer nas redes sociais.

E com excepção de alguns momentos mais congregadores de união (o terceiro lugar com Manuel Cajuda, a taça de Portugal com Rui Vitória, as taças de basquetebol com Fernando Sá ou o título e taça de voleibol com Marco Queiroga) essa divisão continua latente na massa associativa, já não entre “pimentistas” e não pimentistas” como no passado, mas entre os que tem um conceito do que deve ser o Vitória e ainda não é mas já podia ser e aqueles que estão contentes com o que o Vitória é e acham que não pode ser mais face ao seu contexto.

Essa é hoje a linha de “fractura” essencial embora se possa considerar a existência de outras.

Que se reflectiu, como não, nas últimas eleições.

Em que os vitorianos fizeram livre e democraticamente a sua escolha, optando pela continuidade “vigiada” (52%) de quem estava mas dando um claro sinal de que podem estar disponíveis (48%) para mudarem de rumo se entenderem que tal se justifica.

Infelizmente, e não vou apontar culpados nem disso acho ter sequer o direito, há quem de um lado e do outro continue a alimentar polémicas e quezílias que fracturam a massa associativa e que não tem qualquer interesse nem proveito para o clube.

Basta consultar as redes sociais e ver que quando algo corre mal à equipa principal de futebol logo aparecem alguns a responsabilizar os 52% por isso. Mas quando as coisas correm bem não faltam os que vem gozar com os 48% por não terem mais uma oportunidade para criticarem quem ganhou.

Isto é doentio e não ajuda o Vitória.

Nem sequer respeita os muitos que tendo votado A ou B aceitaram democraticamente o resultado das eleições e seguiram em frente apoiando o clube como é dever de todos os vitorianos.

Todos os adeptos e associados tem o direito inalienável de manifestarem concordância ou discordância, elogiarem ou criticarem os órgãos eleitos e de o fazerem publicamente quer nas redes sociais, quer na comunicação social ,quer nas assembleias gerais do clube, quer em qualquer outro sítio desde que o limite da opinião seja a boa educação e o respeito.

Isso é uma evidência e faz parte do ADN de um clube que tem adeptos e associados como os vitorianos indiscutivelmente são.

Gente com opinião, com convicções, que vive o seu clube com paixão!

Mas fazê-lo numa lógica “eleitoral”, querendo manter vivas disputas eleitorais que morreram no dia das eleições, criando falsas linhas de fractura entre quem votou A e quem votou B, é um erro e um mau serviço que estão a prestar ao Vitória.

Tão mau como aqueles que se acham no direito de avaliar o vitorianismo dos outros e de os dividirem entre “vitorianos” e “vitorinos” com base em critérios idiotas, sem qualquer validade ou fundamento minimamente lógico e aceitável e que apenas fazem mal ao clube.

É tempo de ter juízo.

E de os vitorianos se unirem,como sempre, em torno do Vitória!

Luís Cirilo Carvalho, 58 anos, é deputado municipal eleito pelas listas do PSD. Já liderou a concelhia do partido e foi deputado à Assembleia da República 1999 e 2005 na bancada social-democrata. Foi governador civil entre 2002 e 2003. Passou pelo Vitória Sport Clube como dirigente.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.