Hurtado

anuncio 2 caras.jpg

“O sábio nunca diz tudo o que pensa, mas pensa sempre tudo o que diz”.
– Aristóteles

Há uma velha piada de futebol. Um jogador aproxima-se do árbitro. “Árbitro, se eu dissesse que tu és um idiota, o que é que tu farias?”, pergunta o jogador. “Eu expulsava-te”, diz o árbitro. “OK, mas e se eu pensasse que tu eras um idiota, o quê que tu farias?” questiona o jogador. “Bem, se tu apenas pensasses, eu não poderia fazer nada”, responde o árbitro. “Então”, diz o jogador, “Eu acho que tu és um idiota”.

É tudo uma questão de semântica (ou de inteligência). Há coisas que é normal pensarmos, mas que devemos ter consciência de que dizê-las podem colocar-nos desnecessariamente em trabalhos. Para quê fazê-lo?

O Hurtado foi o herói do jogo na sexta-feira. Num dérbi Vimaranense um tanto ao quanto entediante em que o nulo no marcador parecia mais do que certo, Hurtado conseguiu, já nos momentos de compensação, impedir o Vitória de ceder mais pontos no seu Castelo.

Noutros tempos, com outro jogador, noutro contexto, isto seria motivo de jubilação, mas os aplausos e festejos do golo rapidamente se tornaram em assobios para  o jogador.

Há muito que a relação do Hurtado com os vitorianos anda conturbada, mas nesta jornada as coisas ficaram ainda mais complicadas.

Hurtado foi assobiado no momento em que entrou em campo (situação que se repete nas entradas e saídas do jogador em campo há várias jornadas), respondeu nos festejos do golo levando o dedo à boca como que a mandar calar os adeptos e chegou mesmo a ‘fugir’ para os balneários mal o árbitro apitou para o final da partida.

Uma publicação do jogador no Facebook no final do jogo incendiou ainda mais os ânimos (eu começo a achar que ele gosta de ser odiado). Hurtado colocou um gosto num comentário (feito na sua publicação) de um (alegado) adepto do Benfica, que se referiu ao Vitória como um clube “lixo” e “ruim”.

Como é óbvio, o gesto não passou despercebido aos vitorianos e as reações não tardaram a aparecer nas redes sociais.

Como é que chegamos aqui? 

Hurtado foi um dos melhores jogadores da época passada (eu continuo a achar que se o Hurtado não se tivesse lesionado na final da Taça de Portugal a História daquele dia teria sido bem diferente). A sua contratação no Verão passado, depois de ter brilhado no Castelo por empréstimo dos ingleses do Reading, era uma prioridade, mas as suas exibições no início da época ficaram muito aquém daquilo que nos tinha habituado na época anterior.

A relação com os adeptos azedou no decorrer desta época, muito por culpa das atitudes praticadas pelo jogador.

Tudo começou em Novembro, quando o médio revelou, em declarações à Imprensa peruana, que tinha acordado com o Vitória que daria prioridade à seleção sempre que fosse chamado, situação que o levou a falhar o jogo com o Benfica, da primeira volta, para poder preparar o play-off com a Nova Zelândia, apresentando-se mais cedo do que outros companheiros que atuam também na Europa.

A relação do Hurtado com as bancadas agudizou-se aquando da invasão do treino por parte de um grupo de adeptos.

Num clube bairrista como é o Vitória, não é surpreendente que declarações como as que foram proferidas por Hurtado, acompanhadas das suas ações nada positivas, tornassem a relação entre os adeptos e o jogador complexa, mas isto chegou a um nível insustentável.

O Vitória tem de ser sempre a prioridade

Se eu até consigo compreender que o Hurtado valorize a possibilidade de fazer parte da sua seleção e de competir no Mundial de 2018 (não o posso culpar por estar entusiasmado com o Mundial e querer fazer de tudo para aumentar as suas probabilidades de jogar), a coisa torna-se mais difícil de “engolir” quando tais declarações são proferidas publicamente.

Como vitorianos, nós imaginamos que um jogador vai ter a mesma consideração que nós pelo clube que nós tanto amamos. Com um tom de nostalgia falsa e auto-cegueira para com a realidade do cenário moderno do futebol, assumimos que um jogador está tão ansioso para jogar quanto nós para apoiarmos. Quando um jogador beija o emblema do Rei, aplaude o apoio ou mostra qualquer outra expressão de lealdade em Guimarães, ele é recompensado com aplausos e elogios das bancadas. Se um jogador faz qualquer sugestão de que ele é apenas um trabalhador pago numa carreira com um período de tempo muito limitado e que a equipa que nós tanto amamos pode não ser a melhor opção para ele ou a sua prioridade, nós começamos a questionar se ele alguma vez se importou. Por mais racionais que tentemos ser, a ideia que o clube que tanto amamos não é a prioridade máxima para aqueles que nos representam magoa (e acabamos por ter reações por vezes extremas e desnecessárias).

Mais do que a lealdade, aquilo que valorizamos em Guimarães é o respeito de um jogador para com o clube (quando digo clube, refiro-me ao respeito que o jogador tem para com os seus companheiros de equipa, o seu treinador, os seus dirigentes, mas também para com os adeptos e o que eles sentem e desejam).

Ao proferir tais declarações, por mais válidas que sejam, Hurtado magoou os vitorianos e estes não perderam tempo em demonstrar o seu descontentamento (imagino que não seja fácil para Hurtado ser insultado em campo, mas ele tem de estar preparado para lidar com este tipo de situações de uma forma mais profissional).

Contudo, não consigo compreender o que leva os vitorianos a assobiar, jogo após jogo um dos seus (melhores) jogadores. Não consigo compreender porquê que se continua a assobiar um jogador constantemente quando semana após semana este marca e decide jogos.

Partilho a minha opinião com uma adepta vitoriana, a Cláudia Bragança, que na sua página do Facebook, diz não entender “a dimensão e a extensão desta birra” e que “chega a ser desolador a facilidade com que se despreza quem vesta a nossa camisola”. Hurtado errou. Errou muito. Hurtado merece (tal como mereceu e cumpriu Tallo) um processo disciplinar pelo desrespeito para com os sócios. Os sócios precisam de compreender que ele errou, tem de ser castigado, mas vaiá-lo todos os jogos só está a prejudicar o clube.

Não acho que as vaias públicas sejam de alguma forma benéficas para o Vitória e os nossos objetivos desportivos, mas não deixo de compreender o descontentamento dos vitorianos. Contudo, acho que estamos, de certa forma, a desvalorizar um ativo do Vitória que no final da época acabará por sair do clube por um valor muito aquém daquilo que vale.

O respeito tem de ser mútuo e está mais do que na hora de ambas as partes acabarem com esta birra que já ultrapassou todos os limites. Está mais do que na hora de percebermos que o Vitória tem de ser sempre a prioridade!

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.