Ao Tom Dela

Conta a lenda que a origem do nome Tondela se baseia numa história antiga de que havia uma mulher que se postava no cimo de um monte para vigiar os movimentos dos mouros; ao avistar o perigo, tocava uma trompa e ao “tom dela”, juntava-se o povo para enfrentar o inimigo (Wikipedia).

A 24 de Maio de 2015 o Tondela subiu ao escalão máximo do futebol português e Gilberto Coimbra, presidente do Tondela, declarou que estava feliz por voltar a jogar com os grandes, enumerando alguns dos clubes nacionais. A referência ao Vitória Sport Clube como “um grande” fez com que os vitorianos recebessem o Tondela com pompa e circunstância na Primeira Liga.

Com o passar dos anos esta relação foi-se fortificado (quer entre adeptos, quer entre as próprias direções) e acho que neste momento o Tondela é uma espécie de irmão mais novo do Vitória. Um irmão mais novo que queremos cuidar e do qual festejamos as vitórias como se fossem nossas.

É com orgulho que vemos o Tondela a crescer e as pessoas da cidade a aproximarem-se cada vez mais do clube da sua terra.

O Tondela pode ser novo nestas lides da Primeira Liga, mas a contribuição que deu para o desenvolvimento da competição já é muito mais valiosa do que a de muitos dos clubes que por cá andam há muitos anos.

Ao “Tom Dela” vimos a comunicação entre clubes da Liga a reinventar-se. O Tondela criou o seu próprio tom de comunicação primando sempre pela inovação e interação. O Fair Play foi o seu grande trunfo, com uma comunicação sempre positiva valorizando os seus adversários (que nunca trataram verdadeiramente como adversários).

Ao longo destas três épocas, o Tondela presenteou-nos com momentos extraordinários como as conferências de imprensa dos treinadores das duas equipas em conjunto, apresentações de jogadores inusitadas (e divertidas) e momentos de solidariedade que nos marcaram a todos.

Ao longo destas três épocas e embalados pelo “Tom Deles” foram muitas as equipas de futebol profissional português que evoluíram na forma como comunicam não só com os seus adeptos, mas também com os outros clubes (note-se que a interação entre equipas profissionais de futebol portuguesas nas redes sociais era quase nula até muito recentemente).

Nos últimos tempos têm sido muitos os artigos e publicações que persistem em mostrar o quão mau está o futebol nacional. Há realmente muita coisa má no futebol português, muitas coisas que precisam de melhorar, mas a verdade é que se em vez de prestarmos demasiada atenção ao que os ditos “três grandes” andam a fazer e começarmos a focar a nossa atenção no que andam a fazer os outros clubes da Liga NOS se calhar até nos vamos aperceber que o Futebol Português nunca esteve tão bem.

Se calhar, se pararmos de dar tanto tempo de antena aos directores de comunicação dos ditos “três grandes” que não param de se atacar uns aos outros em todas as oportunidades que têm de falar e prestarmos (apenas) um pouco mais de atenção ao que os diretores de comunicação/marketing de clubes como o Tondela, Chaves, Desportivo das Aves e Rio Ave (por exemplo) andam a fazer, talvez consigamos perceber que o futebol português não anda assim tão mal (eu até diria que anda muito bem e recomenda-se).

Se em vez de darem quase uma hora de tempo de antena a um presidente de um clube para dizer coisa nenhuma os jornalistas se dessem ao trabalho de ir às conferências de imprensa dos treinadores de todos os clubes que estão na competição (infelizmente situações em que apenas um ou dois meios de comunicação compareceram numa conferência de imprensa para a preview de jogos foram demasiadas vezes relatadas), talvez os jornais e televisões portuguesas estivessem cada vez mais cheios de notícias positivas sobre o futebol nacional em vez do “lixo”que somos obrigados a consumir diariamente.

Na minha humilde opinião, o futebol português está a passar por uma ótima fase em que vemos cada vez mais as pessoas a aproximarem-se dos clubes das suas terras ou regiões. As novas gerações não são maioritariamente do Porto, Sporting ou Benfica. As novas gerações são orgulhosamente do Tondela, Chaves, Desportivo das Aves, Rio Ave (etc). As novas gerações sentem-se insultadas quando lhes perguntam “e qual é o teu outro clube?”.

Acredito que estamos a construir um Portugal diferente com uma nova mentalidade desportiva e futebolista que não é centrada nos ditos “três grandes”, mas cada vez mais na proximidade com os clubes das suas terras. Uma nova geração cada vez mais exigente e que vai, com certeza, fazer o futebol português crescer.

Dentro das quatro linhas tivemos um dos campeonatos mais competitivos da Europa com a maioria das posições da classificação a serem apenas definidas na última jornada. O título de campeão só ficou decidido na penúltima jornada e na próxima (última) jornada ainda temos quase uma mão cheia de equipas a lutar pela permanência na Primeira Liga.

Na penúltima jornada deste campeonato competitivo em que a prestação dos Conquistadores ficou muito aquém do desejado, o Vitória visitou o Tondela e o clima dentro e fora do estádio foi extraordinário.

Como alguém que cresceu a ouvir que toda a gente odiava o Vitória, voltar a Tondela e sentir todo aquele carinho e fazer parte de todo aquele convívio é sempre um prazer.

Aqui pela Cidade Berço, nós continuaremos a sofrer com o nosso irmão mais novo e a festejar cada uma das suas conquistas.

Como irmã mais velha é com muito orgulho que vejo o futebol português (em especial a sua comunicação) a começar a ouvir o som da trompa e ao “tom dela”, juntar-se para enfrentar o inimigo (que muitas das vezes acabamos por ser nós próprios os adeptos e a atenção e valorização que damos à determinadas coisas em detrimento de outras).

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.