Refletir e agir de Alcochete para o Mundo

O dia de ontem obriga-nos a todos a refletir. Não apenas aos responsáveis do mundo do futebol, não a nenhum clube em especial, mas a todos. Refiro-me, naturalmente, aos acontecimentos da Academia de Alcochete do Sporting, e ao ataque bárbaro proferido aos atletas e equipa técnica daquele clube.

Não se trata apenas de um ato isolado que cabe à polícia e à justiça tratar. Foi o culminar – e digo culminar na esperança de que nada de mais grave se lhe acrescente – de uma escalada de irresponsabilidade que havia de terminar em violência.

Os dirigentes e responsáveis das mais diversas instituições, sejam elas de que natureza forem, e, especialmente, daquelas que mais representativas sejam do ponto de vista dos seus afiliados, têm uma obrigação crescente de liderar pelo exemplo.

As atitudes de quem tem responsabilidades de liderança refletem-se sempre nas ações de quem os segue. Num tempo em que a informação circula à velocidade a que ainda ontem foi possível observar, com vídeos partilhados do interior dos acontecimentos e disseminados por todo o mundo de forma quase instantânea, essa responsabilidade é acentuada de forma acrescida.

Se é de quem se espera responsabilidade que nos habituamos a ver os primeiros sinais de agressividade, ainda que se fiquem pela linguagem, dificilmente podemos esperar que dos mais irresponsáveis não surjam atitudes extremadas.

Acrescento ainda um apontamento do dia de ontem que agrava a situação. A declaração proferida pelo Presidente da instituição onde ocorreram aqueles factos criminosos, feita ao final da noite a um órgão de comunicação social controlado pelo próprio, sem direito a questões daquele que, pela sua ação, é considerado tantas vezes como o quarto poder.

As atitudes alheadas da realidade, autistas e de negação, amplificadas por uma ação populista e um discurso de ataque indiscriminado a inimigos criados para desviar a atenção da culpa em causa própria, no lugar do que deveria ser, em vez do que sucedeu, a reflexão, a introspeção e a ação tanto paliativa como profilática.

Já por várias vezes ocupei este espaço com a minha preocupação com o crescimento dos discursos populistas, da predominância da necessidade de vencer o debate em espaço público sobre a importância de falar verdade ou chegar ao fundo das questões, e das múltiplas técnicas de criação de factos alternativos por via de páginas anónimas, plantação de notícias ou construção de discursos assentes em mentiras que os autores as sabem ser.

A aceitação de que esta é uma nova e moderna forma de ser estar na vida pública, seja nos clubes desportivos, seja nas associações, seja em cargos políticos, faz com que estejamos sempre mais focados nos resultados imediatos do que nos possíveis danos colaterais destas ações.

É urgente tomar medidas. Passar das palavras aos atos. Rejeitar liminarmente quem tenha este tipo de comportamento a montante, e expulsar dos espaços (neste caso desportivos) quem pratique as ações extremistas a jusante.

Por muito que este caso deva ser tratado pelas entidades policiais e judiciais, a reflexão que dele emana não deve ficar por aí. E não se deve limitar à avaliação dos dirigentes diretamente ligados ao caso em si.

Ao longo dos últimos anos aceitamos que a nova agressividade que grassa pelas redes sociais é inofensiva porque acontece atrás dos teclados e não se repercute na realidade. Mas hoje, o ódio conhece novos espaços de reunião e resulta em diversas formas de terrorismo.

Se os ataques de ontem tivessem outra língua, raça ou cor, resultassem num desfecho ainda mais gravoso e tivessem acontecido em nome de um Deus, teriam o selo de terrorismo e condenação internacional. Aconteceram em nome de uma qualquer paixão, alimentada por um discurso de endeusamento de verdades transmitidas por órgãos de comunicação social dogmáticos. Podemos questionar, pelo menos, se não devem ter uma resposta enquanto sociedade?

Paulo Lopes Silva, 30 anos, é Adjunto para a Cultura da Vice-Presidente da Câmara de Guimarães. Líder parlamentar da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães, de que é membro desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.