A Festa da Taça

De regresso a casa, depois de um passeio retemperador, parámos numa cidade raiana, para fazer a última pausa, antes de enfrentarmos os cerca de cem quilómetros que faltavam.

Entrámos num local por volta das dezanove horas e, apesar da quantidade de clientes, o silêncio era total. Um televisor de cada lado da sala, transmitindo a final da Taça de Portugal, em futebol, explicou o facto de nem um olhar, para os estranhos que acabavam de entrar.

O Desportivo das Aves vencia por dois a zero e, até ao fim, sofreu um golo e a pressão do favorito, conseguindo fazer história naquela que, deveria ser a festa ou prova rainha do futebol.

Todos sabemos que quando há uma disputa, uns vencem e outros são vencidos e, havendo desportivismo, os vencidos dão os parabéns aos vencedores. Nos minutos que se seguiram ao fim do encontro, num local que se chama Vale do Jamor, o que vimos foi um vale de lágrimas, a contrastar com a alegria dos inesperados vencedores.

A caminho de casa, as perguntas saltavam, umas sobre as outras, sem darem tempo a qualquer alinhamento, minimamente conseguido, já pela noite dentro.

Ao contrário do que poderão pensar, gosto de assistir a jogos de futebol e, por incrível que pareça, fico um pouco deprimido quando o Vitória perde. No entanto, porque a equipa da minha simpatia perdeu, não vou agredir, física ou verbalmente, quem tem simpatia pela adversária.

Chegar ao ponto de agredir os jogadores do próprio clube!

Numa sociedade que se considera civilizada, criar e fomentar rivalidades doentias, atingindo níveis animalescos, a ponto de causarem a morte de adversários, desdiz completamente o conceito de civilização.

O Futebol deixou de ser um saudável divertimento, para se tornar em qualquer coisa de viciante no qual, os principais intervenientes, são todos menos os jogadores.

O futebol, uma modalidade que, de desporto, tem pouco ou nada, tornou-se numa espécie de “terceiro arco do poder”, onde não faltam os compadrios e a corrupção.

O povo, na sua eterna serenidade, conseguida através de doses maciças de diversos tipos de relaxantes, continua a engolir a pastilha.

Um país que privilegia a construção de catedrais do pontapé na bola, em detrimento da cultura, para o qual se regateia um por cento do orçamento, será sempre um pobre país.

 

Joaquim Teixeira é militante do Bloco de Esquerda e é sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.