Afinal quem é o responsável?

A noite passada foi Noite Europeia dos Museus. Durante o dia, na Sociedade Martins Sarmento assistiu-se às comunicações de egiptólogos a propósito da enócoa egípcia do Museu arqueológico da SMS.

O salão nobre da Sociedade reuniu um número muito limitado de pessoas, privilegiados do momento, que puderam contar com um jantar gracioso que prometia iguarias egípcias. Entre garfadas de cuscuz e golos de cerveja artesanal, perguntava-se se no Egipto antigo assim se comia para logo se concluir que não vinha ao caso, pois um jantarzinho servido com o tempero no ponto, numa noite amena de primavera, afinal, é mais uma razão para ser feliz.

Alguns dos presentes, “habitués” convencidos, que respondem normalmente à chamada, teimam em ouvir na diagonal, se assim se pode dizer, e aproveitam para multiplicar as pausas para café e cigarros, incluindo uma visita rápida, já noturna, a outro museu na praça ao lado. Durante essa escapadela, diz um grego, que se apresenta como estando em processo de transformação em vimaranense por amor a uma donzela de cá, que temos muita sorte por vivermos em Guimarães. Enchemos o peito e lembramos que há muitos anos fomos frequentadores antes deste tempo do centro histórico, quando não era moda. A ausência de resposta do grego, lembra-nos que nesse tempo, afinal, a noite era de desolação.

Voltamos à SMS. Falava-se agora de acácias do Egipto e como vieram cá parar. Depressa se percebe que se trata das mimosas, pragas já de outras origens, que embelezam a nossa paisagem. É nestes momentos que a vida do dia a dia assume a dimensão do sublime: quando gastamos tempo a esmiuçar aquilo que ignoramos naturalmente na indiferença da habituação e acordamos para a graça concedida aos inocentes, que somos.

No sofá, à porta do salão nobre, que apreciamos pelo conforto da conversa que proporciona, a Lita fala do direito romano e da sua influência no direito português. Pergunto se o nosso sistema jurídico é melhor que o anglo-saxónico, tipo top 10. A Lita responde, como havia de responder, que há coisas muito boas e melhores. O problema é a corrupção.

Ela existe noutros países. Mas o verdadeiro problema é a aplicação da lei. Acrescenta que todos sabemos que há sociedades e grupos mais secretos que controlam tudo, mas a aplicação da lei…

E lá se conclui que algures se perdeu a vergonha ou não se mediu a exposição.
As acácias ainda estão em discussão e lembram-me a pretensão de Guimarães a Capital Verde. Não foi, sabemos. Um amigo insistiu que também se aprende com o processo. Não valeria a pena ir a concurso sem a convicção do ganhador, pelo que, no mínimo, houve empenho na candidatura. O resultado deverá servir para perceber o que deve ser uma política ambiental no contexto das sociedades desenvolvidas. E o eleitoralismo? Deu jeito, mas aprendemos.

A grande vantagem dos programas mais culturais está no facto de não se tocar em determinados assuntos. Um deles é o lamaçal concreto de temas que foram notícias, em particular durante a semana. As conversas intermitentes não chegam a nomes ou casos específicos, num esforço de substituição das obsessões.

De regresso a casa, ainda permanece a sensação de inocência. Só o artigo por escrever lembra o quão triste anda o povo que corre na competição que de nada tem de justa, já que, por alguns cobres, todos se compram e viciam o jogo. O pior é não saber onde reclamar e perguntar: afinal quem é o responsável?

Há protagonistas, indesejáveis, que só o são pela importância que lhes damos. Há realidades que alimentamos, sobrevalorizando-as. Na aflição ocorre-nos que nos falta alguém, forte, que trate disto, antes de aferir se somos capazes de tratar de nós próprios.
Já noite dentro, os olhos passarão por algumas linhas do romance.

Como se verá, durante anos, manteve uma turbe de figurantes e vários atores que se foram sucedendo uns aos outros, com o objetivo de montar uma peça de teatro que viria a consistir na maior representação teatral alguma vez realizada. Todos os que com eles se cruzaram no contexto do empreendimento foram, ou são ainda, tocados por aquela ilusão, que chega a chamar-se paixão e que impele o seduzido a entregar-se, incondicionalmente, ao sedutor.

Paula Magalhães, licenciada em Ciências Económicas e Empresariais, contabilista, professora e formadora para as áreas de formação de Economia e Contabilidade, foi, entre outras intervenções políticas, deputada municipal na Assembleia Municipal de Guimarães, colaborou na redação do jornal O Povo de Guimarães, desde 1989 até ao seu desaparecimento, foi ainda diretora e presidente da direção da cooperativa, já extinta, O Povo de Guimarães, CRL.