Cuidar com amor

Por trás daquela janela está uma senhora idosa com a cabeça, de cabelos brancos, coberta. Não sai de casa desde que as escadas se tornaram impossíveis de descer, desde o dia em que subi-las para voltar, depois de ter ido ao pão, se transformou num momento de dor insuportável. As mesmas pernas que se foram deixando levar pelo peso da idade e que apenas lhe permitem arrastar-se da cama para o sofá.
Precisa de um cuidador, precisa que lhe confeccionem as refeições e que a ajudem na higiene diária, precisa de alguém que lhe leia um livro ou que lhe conte o que se passa lá fora onde a vida continua numa azáfama que apenas recorda com saudade.
Prevê-se que existam em Portugal, aproximadamente, 800 mil cuidadores informais na sua maioria do sexo feminino com idades compreendidas entre os 45 e os 75 anos. Uma boa parte deles, cuidadores a tempo inteiro, 365 dias por ano, 24 horas por dia. Cuidadores que suportam custos e despesas sem que lhes seja reconhecido o papel importante que desempenham na sociedade e não só no apoio ao familiar ou vizinho.
Os cuidadores informais necessitam que lhes seja reconhecido um estatuto próprio, com apoios formais e com a ajuda de uma rede social bem definida. Muitas vezes os cuidadores não sabem lidar com doenças raras, com doenças que exigem cuidados específicos no dia-a-dia, como por exemplo, a doença de Alzheimer.
As respostas sociais são insuficientes, apesar da realidade mostrar que o país não tem estruturas suficientes de tratamentos continuados para todos. O ideal seria prestar cuidados adequados em casa, onde os doentes podem usufruir do conforto do seu lar e da companhia dos seus familiares.
O ideal seria capacitar as redes de apoio social com políticas transversais e estratégias multidisciplinares, com uma efectiva articulação entre os médicos de família e o apoio domiciliário. Os cuidadores vêem-se, frequentemente, confrontados com problemas de saúde, com o isolamento social, com a interrupção das carreiras profissionais e com problemas financeiros.
Cada vez mais vemos filhos idosos a cuidar dos seus pais, ou seja, pessoas que necessitam de ser cuidadas, são obrigadas a ser cuidadores por não terem os apoios que a Segurança Social e o Ministério da Saúde deveriam proporcionar a todos.
Com a esperança média de vida a aumentar, 84 anos para as mulheres e 78 anos para os homens, a necessidade de se adequarem os cuidados de saúde é cada vez mais premente. Portugal é o país da Europa que menos investe na saúde e no bem-estar dos idosos. A saúde oral tão importante para uma adequada dieta alimentar está quase esquecida no nosso sistema de saúde. A inexistência de terapias, a falta de apoio psicológico e as reformas baixas que impedem a compra de medicação são algumas das principais causas para que os idosos apenas sobrevivam sem qualquer qualidade de vida. A longevidade deve ser acompanhada de saúde e conforto.

Existem 500 mil idosos, em Portugal, em situação de pobreza sendo que diagnósticos muitas vezes tardios, e as impossibilidades económicas, impedem o recurso a médicos de especialidade tornando os tratamentos menos eficazes.
Por trás daquela janela está um jovem com 18 anos, não sai de casa há dois anos, não acabou o ensino obrigatório porque o síndrome de Asperger o impede de socializar naturalmente. Os seus pais procuraram soluções para a sua integração, para que pudesse ter sucesso escolar e quem sabe construir uma carreira profissional. No entanto, as equipas de ensino especial não conseguiram impedir que fosse vítima de violência escolar e que perdesse todo o interesse pela vida lá fora.
Idosos, jovens com doenças raras, adultos que sofrem acidentes são ou apanhados pela doença precisam de cuidadores. Para já apenas se pode recorrer aos cuidadores informais que vão estando ao lado de familiares, amigos e vizinhos.
O amor é o que move os cuidadores nesta dádiva de aprenderem sozinhos a ler bulas de medicamentos, a tratarem de feridas, a dar as voltas na cama, a deslocar da cama para a cadeira. É o amor que os move a esperar nas filas intermináveis da Segurança Social para recorrer a apoios financeiros tão necessários. É o amor que os move na recusa de tratamentos da sua própria saúde.
É por uns e por outros, por todos, que temos que encontrar soluções para os cuidadores formais.