Liberdade a Sério (Pão)

Numa roda de amigos, em que a conversa saltitava de tema em tema, ficamos todos calados, quando ouvimos, da boca de uma das mais caladas, uma frase que, aparentemente estava deslocada do contexto: “Se calhar, resolvia-se o problema, repartindo com mais justiça”.

Perante a estranheza, indagou-se e descobriu-se que fora uma resposta a um comentário, sobre as reivindicações dos trabalhadores, “sempre a exigir mais aumentos”.

Centrada a atenção, saltaram os argumentos:

-Ora diz-me lá, o que queres dizer com repartindo com mais justiça? Pergunta o que primeiro conseguiu fazer-se ouvir.

-Se os administradores de uma empresa recebessem um pouco menos ou o próprio empresário abdicasse de tanto lucro, poderia aumentar o salário dos trabalhadores.

-Daqui a nada, queres que o operário ganhe tanto como o encarregado, o chefe ou o administrador!

-E porque não? Por acaso, os preços no supermercado são diferentes, para doutor, o engenheiro ou o empresário?

-Não, mas tens de ter em conta que o empresário investiu e o doutor estudou durante anos.

-Certo, mas tens de convir que, durante todos aqueles anos, alguém produziu por ele.

-Fónix, pá! Até pareces uma “esquerdelha”! És comunista ou quê?

-A questão nem é ideológica! Como disse, o ponto está na justiça. Como podem dormir descansados, aqueles que levam vários milhares, sabendo que existem milhões de pobres? Como podem viver tranquilos, os que auferem pensões milionárias, ao mesmo tempo que, muitos milhares recebem duas ou três centenas de euros de reforma?

-Estás a entrar pela utopia!

-Pois… Utopia! O certo é que são mais de dois milhões, a viver abaixo do limite da pobreza. Os donos do poder, durante séculos, apostaram em arenas, onde atraíam os povos, davam-lhes migalhas de pão e circo e, desse modo, foi-os mantendo mansos e subservientes. Hoje, com outros artefactos, continuam a proceder do mesmo modo. Utopia? Não! Apenas a realidade de um país que é governado por gente sem escrúpulos e sem vergonha na cara.

Joaquim Teixeira é militante do Bloco de Esquerda e é sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.