Rui Rio e a eutanásia

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Conheço razoavelmente bem o Dr. Rui Rio. Reconheço-lhe qualidades na linha de pensamento que cultiva e, sobretudo, a frontalidade que assume, raramente cuidando das consequências políticas das suas tomadas de posição. Agora, como líder do PSD, ainda mais evidente se tornou a capacidade de enfrentar situações e tornar públicas as suas opiniões, mesmo que polémicas.

O modo como na semana passada geriu política e publicamente o seu posicionamento relativo à proposta de lei da eutanásia revela uma lhaneza que é de louvar, tendo em conta a absoluta liberdade de voto que concedeu ao seu grupo parlamentar. Não escondeu o que pensa sobre o tema e, ao mesmo tempo, não revelou quaisquer sinais de condicionamento a quem quer que fosse, reconhecendo a delicadeza e o intimismo de tão específica matéria. Posição mais democrática de um líder não é possível exigir.

O grupo parlamentar do PSD, na Assembleia da República, escolhido pelo anterior líder do partido, não alinhou com a posição do Presidente nem tinha de o fazer. Emergiu, sim, do seio do grupo o que a larga maioria dos seus deputados ainda não conseguiu aceitar: a derrota do seu candidato nas recentes eleições internas. O que, aparentemente, pode parecer ao cidadão comum como uma posição normal, face até à liberdade de voto, de facto não passou de uma excelente oportunidade para reforçar a onda de posições contrárias ao líder, que teimam em não reconhecer.

Aproximam-se atos eleitorais e mantendo-se o mesmo líder do PSD, conscientes de que não foram escolhidos por ele e, sobretudo, manifestamente não o apoiaram nas eleições para Presidente do partido, os deputados sabem que o seu lugar pode ser posto em causa. Rui Rio sabe que o grupo parlamentar não está com ele. É, absolutamente, expectável que nas eleições que se aproximam não vai manter na sua principal frente política, que é a Assembleia da República, quem não o apoia e questiona recorrente e publicamente a sua liderança.

Rui Rio exigirá, legitimamente, um grupo parlamentar coeso e alinhado com as suas estratégias políticas. Por outro lado, os deputados que se veem ameaçados, a pretexto de tudo e de nada, manifestam-lhe hostilidade e, assim, enfraquecem-no, na tentativa de criar fissuras que justifiquem novas eleições internas. Veja-se a atitude que, por causa da opinião de RR sobre a eutanásia, tomaram publicamente Santana Lopes e Luís Montenegro que, não sendo parlamentares, são declaradamente opositores da atual liderança. A esses juntou-se o deputado Abreu Amorim e os seus habituais pares na contestação.

Até Cavaco Silva, histórico do PSD, quebrou o habitual mutismo para dar uma “ajudinha” aos opositores de Rui Rio que, a pretexto da proposta de lei da eutanásia, veio aconselhar os cidadãos a não votar nos partidos que votariam a favor da mesma. Aos cidadãos restaria, então, votar no CDS ou no PCP, partidos opositores assumidos da eutanásia.

No fundo, abordando o problema sem subterfúgios, o que está em causa, no seio da bancada do PSD, são os lugares que cada um dos atuais deputados vai ocupar nas listas das candidaturas às eleições europeias e legislativas que se aproximam. Sabendo que o maior partido com assento parlamentar não pode ser gerido com os deputados a obstaculizar o seu líder, Rui Rio terá de mudar quase tudo. É isso que enforma o pensamento e a estratégia daqueles que não apoiaram a sua candidatura e não se reveem na sua liderança. Para que tal não aconteça tudo farão para derrubar Rui Rio tão depressa quanto possível. Adivinha-se que os próximos capítulos da luta interna mostrarão (ou não) que os interesses individuais de uns quantos se sobreporão à linha política do seu legítimo líder, independentemente dos estragos que venham a causar.

Infelizmente para a nossa vida democrática, a leitura que se faz do momento político que se vive no PSD é comum a outros partidos. Com eleições à porta a vida político-partidária promete.

Guimarães, 7 de junho de 2018

António Magalhães