A degradação do SNS

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Não há como não ver a degradação progressiva do SNS e da prestação de cuidados de saúde aos portugueses.

São consultas e cirurgias adiadas, exames que não se fazem, máquinas avariadas e desactualizadas, profissionais insatisfeitos e impotentes. Toda uma panóplia de misérias que, todos os dias, fazem manchete nos jornais e vêm justificando a reivindicação de todos – dos utentes aos profissionais de saúde, ninguém antevê já um desfecho positivo.

Infelizmente, Guimarães não é excepção. Ontem foi a vez de os enfermeiros alertarem para o risco de (maior) degradação do serviço no Hospital de Guimarães e, inclusivamente, para o encerramento de alguns serviços daquele hospital.

Não sendo exactamente uma novidade, é caso para nos preocuparmos (e muito), até porque, aparentemente, o Governo assiste, impávido, “assobiando para o ar”, fazendo crer que está tudo bem, quando manifesta e claramente não está.

E não está bem nem nos números, nem nas percepções.

Não está bem nos números da dívida dos hospitais, ainda nos mil milhões de euros – capaz, de resto, de fazer paralisar qualquer um (da falta de gaze à máquina mais avançada, tudo conta e persiste); não está bem nos números dos tempos de espera, com esperas médias a rondar os 1000 dias(!); não está bem no número de médicos e de enfermeiros, ou na falta deles, deixando doentes em macas nos corredores, à espera de quem não vem porque não tem mãos a medir. Não há parâmetro que escape e, por entre os números, começa a escapar uma saúde de qualidade a cada vez mais portugueses.

Mas também não está bem nas percepções e nas impressões – não conheço quem não se queixe de uma consulta novamente adiada, de um exame que não se faz por a máquina estar avariada, de uma cirurgia que não é possível porque há muitas outras à frente e, até, de ter de levar lençóis ou medicamentos para o hospital porque, pasme-se, o hospital pura e simplesmente já não tem.

Impressões e percepções que, segundo a ERS, aumentam a um ritmo impressionante desde 2016, atingindo as 80 mil em 2017, e com um crescimento em 2018 que, a manter-se, ultrapassará as 100 mil reclamações. Isto tem, seguramente, um significado e começa, tristemente, a cheirar a terceiro mundo…

O CDS vem avisando há mais de dois anos para estes problemas e tem posto o dedo na ferida – o Senhor Ministro da Saúde está cativo do Senhor Ministro das Finanças, que inventou um novo modelo de austeridade feito à base de cativações e de impostos indirectos. É criativo, admito, mas é bastante menos transparente e, a prazo, nota-se mais no que é mais essencial.

No fundo, é uma ilusão. Uma ilusão que, como em todas as ilusões, acaba inelutavelmente com a realidade a impor-se. E quando a realidade se impõe, as consequências podem ser muito sérias e perigosas. Penosamente, começam a saltar à vista, mesmo para quem insiste em ignorar – e, até, em disfarçar – os números e as percepções.

Vânia Dias da Silva, 40 anos, residente em Guimarães, jurista, Deputada à AR eleita pelo círculo eleitoral de Braga nas listas do CDS-PP. Membro da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias e da Comissão de Cultura. Vogal da Comissão Política Nacional do CDS-PP.