Para onde foi a empatia?

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Estas duas semanas têm sido ricas em más notícias. Desde todo o incidente com o navio Aquarius a esta nova política de tolerância zero quanto à imigração nos Estados Unidos da América. Passando pela nova lei “Stop Soros” na Hungria e pela saída dos Estados Unidos da América do Conselho dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, parece-me que a empatia tirou férias e foi à conquista do espaço.

As migrações são naturais à espécie humana. Desde os tempos primitivos que os povos se movem no território em buscar de melhores recursos.

Nós mesmos também somos um povo emigrante. Não podemos esquecer as grandes vagas de emigração antes do 25 de Abril, para fugir à obrigatoriedade de ir combater no Ultramar, à polícia política ou para fugir à miséria. Após a crise de 2008, nova fase de emigração se seguiu. Grande parte de uma geração da qual faço parte entendeu que não tinha futuro em Portugal. Numa rápida buscar online, reparo que apenas no ano de 2015, 110 000 portugueses emigraram. Em 2015 também, diz-nos o Expresso aqui, que haveria no mundo um pouco mais de 2,3 milhões de portugueses emigrados, o que equivalente a cerca de 22,3% da população residente em Portugal no ano anterior. Mais de um quinto da população portuguesa à data.

Tenho visto as reacções nas redes sociais a estas notícias e é realmente perturbador. O sonho Europeu acabou – já ninguém se lembra qual foi o propósito da sua criação. Agora o que temos é são estruturas altamente burocráticas que permite países que sistematicamente falham com Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia. Uma Europa dominada por homens, que em vez de receber, cuidar e integrar aqueles que envergam travessias horríveis para, em desespero, nos bater à porta, gasta bateladas de dinheiro em respostas securitárias (em vez de respostas humanitárias), como se estivéssemos em guerra. Não estamos, senhores!

A União Europeia é o território que mais riqueza possui, 23,8% do PIB mundial  – quase um quarto da riqueza mundial como se pode ver aqui) e representa apenas 7% da população mundial. Parece-vos justo? A mim não. Além disso, a nossa taxa de fertilidade (1.5) está bem longe daquilo que é a média mundial (2.5). Por consequência, a nossa taxa de dependência de idosos* também é bem maior que média mundial (12.3). Ou seja, se calhar alguma redistribuição de capital humano é bem-vindo para ajudar este envelhecimento Europeu.

Porque é que esta União Europeia rica e poderosa se porta como uma criança amedrontada, mesquinha, que prefere investir em cerrar fronteiras, construir muros e vedações do que ajudar estas pessoas, como seria o seu dever? Porque é que os nossos representantes, outra vez maioritariamente homens, prefere mostrar uma reacção de força, do que uma reacção de empatia?

Do que se passa do outro lado do Atlântico, pouco ou nada podemos fazer. Está, uma vez mais, ao nível dos nossos líderes e das suas capacidades diplomáticas travar as loucuras do Trump. Ainda nos faltam dois anos e meio com ele e, infelizmente, não podemos descartar uma possível reeleição. E neste ano e meio, já fez estragos que chegue. Aqui, no nosso lado do Atlântico é preciso muito mais, tanto mais. Precisamos repensar esta democracia representativa, precisamos de melhorar os instrumentos de fiscalização do poder, precisamos que os cidadãos se tornem cidadãos, na verdadeira acepção da palavra.

A educação para a cidadania é vital e urgente e, num mundo que está radicalmente em mudança, ainda mais. Percebe-se a resistência do poder político a esta questão – cidadãos informados são cidadãos mais exigentes e isso significa mais e melhor trabalho dos nosso representados. Do nosso lado, do lado dos cidadãos, precisamos exigir o nosso direito à informação, direito à auscultação e a uma representação efectiva.

*Relação entre o número de pessoas que atingem uma idade em que estão geralmente inactivas do ponto de vista económico (65 e mais anos) e o número de pessoas em idade activa (dos 15 aos 64 anos).

Luísa Alvão, 33 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha como programadora e produtora do Shortcutz Guimarães. É também fundadora e presidente da Capivara Azul – Associação Cultural.